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A pandemia, o pandemônio e o lacrador

Haisem Abaki

20 de março de 2020 | 10h32

Um médico italiano de máscara, acostumado com a morte por perto, diz que o lado mais triste da pandemia é ver gente morrendo sozinha sem se despedir dos parentes. Não pode ter aproximação, olhar e muito menos beijo e abraço. Somente um adeus à distância e com caixão lacrado. E na Rádio Eldorado, o Doutor Carlos Alberto Pastore, um médico que trata do paciente ser humano e não da doença, se emociona com o momento que vivemos.

Mas a lacração de outro tipo também se espalha de modo pandêmico. Há quem chame tudo isso de fantasia, histeria e culpa da mídia. De coisa passageira, como uma gravidez. O lacrador é um sujeito que normalmente não faz nada e que, quando raramente faz, acha que está abafando. E ainda critica quem pelo menos tenta fazer alguma coisa.

O lacrador também costuma desdenhar dos sentimentos e opiniões dos outros. Se forem diferentes das suas ideologias, logo diz que é mimimi. Geralmente, o lacrador é muito macho. Faz “piadas” misóginas e vê conotação sexual em tudo.

Outra característica do lacrador é construir narrativas nas quais a culpa é sempre dos outros e ele é a pobre vítima. O lacrador elabora teorias conspiratórias, se diz defensor da democracia, mas a palavra que mais usa é “golpe”. Da mesma forma, quando o lacrador é religioso (nem todos são), fala mais de Satanás do que de Deus.

O lacrador é um cara muito popular. Tem muito tempo livre para ir às redes sociais e arrebanhar milhões de seguidores que batem palmas para tudo, retroalimentam as ideias de “salvação” e viram soldados do exército da lacração.

E tem mais: o lacrador também é cheio de si mesmo, mas às vezes é traído pelo excesso de autoconfiança e se enrola com a própria língua. É quando acha que pode tudo e solta ofensas com frases racistas e preconceituosas, por exemplo, associando um vírus a um país ou a uma ideologia. E faz isso com uma amnésia seletiva, apagando da memória o que não convém às suas crenças tortas, do tempo em que seus ditadores preferidos escondiam epidemias do povo.

O lacrador incentiva a discórdia e o conflito porque neles se fortalece. E gosta de se cercar de uma prole de lacradores para transmitir o seu legado viral às futuras gerações. Mas em momentos de crise a máscara do lacrador pode cair e revelar um pândego fazendo um pandemônio durante uma pandemia.

Porque pessoas lacradas em suas casas começam a perceber que o exemplo vem de baixo e não de cima, da lacração oficial. Gente que se solidariza, que canta para espantar os males, que aplaude quem trabalha de verdade pela saúde de todos e até bate panelas.

Da janela lateral do quarto de dormir vejo um sinal de glória. O dia em que a Terra parou, sem empregado e patrão, guarda e ladrão, padre e fiéis, aluno e professor, comandante e soldado, paciente e doutor nem mais doença pra curar. Beto Guedes e Raul Seixas sabem das coisas. São lacradores premonitórios para as mentes abertas. Que quando tudo isso passar a gente saiba deixar de lado lacradores antissociais e suas milícias fanáticas e volte a caber dentro de um abraço.

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