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A palavra é… Apaixicaba

Haisem Abaki

11 de outubro de 2013 | 22h55

Sou um cara com nome “esquisito” e que, talvez por isso, sempre gostou de palavras “diferentes”. Não sei bem como e quando isso começou, mas deve ter sido birra de criança. Uma das minhas preferidas era “chanclich”, um queijo sírio picante que eu comia aos montes com azeite, cebola e “banadura”, outra palavra que eu vivia repetindo, que é como se diz tomate em árabe. Meu pai fazia essa mistureba toda, que se chamava “jaifira”. Mais um nome que eu não parava de falar…
Pais são seres que às vezes não acompanham a rapidez de raciocínio de uma criança. Hoje eu sei bem disso… Em casa, demoraram um pouco pra perceber que eu usava essas palavras como cacoete ou pra enrolar. Quando me mandavam tomar banho (hoje eu gosto, mas aquele era outro tempo, tá bom?) eu respondia: “chanclich”. E dava uma embromada… Às vezes variava um pouco o rico vocabulário e dizia: “banadura”. No repertório da malemolência, claro, ainda havia a “jaifira’.
Às vezes, minha mãe e meu pai entendiam que eu estava com fome e queria comer aquilo. Então, me diziam que iam preparar o prato enquanto eu tomava banho. Depois de um tempo, perceberam que eram manhas e manias de menino preguiçoso. Só pra ficar beeeeem claro, hoje ainda adoro a “jaifira”, mas tomo dois banhos por dia.
A lembrança veio com aquele gosto delicioso de infância quando mandei o garotaço de casa sair do computador pra tomar banho e jantar. “Apaixicaba”, foi a resposta dele. No começo não dei muita bola (pais são lentos, né?), esperei um pouco, me distraí com alguma coisa e demorei pra sacar que ele ainda estava lá. “Vai tomar banho, rapaz”. E ele: “Apaixicaba”.
E depois de mais algumas ordens que pareciam aulas de separação silábica (“Vai to-mar, ba-nho a-go-ra!”), ele soltava mais alguns “apaixicabas” e acabava indo. Uma vez ouvi um som que vinha do banheiro. Debaixo do chuveiro, uma vozinha repetia “apaixicaba” com diferentes entonações. Parecia ser um substantivo…
Aos poucos, notei que o rapazinho foi aprimorando a “criatividade”, sempre que a ordem era “banho”. Logo surgiu um novo verbo: “Já tô indo… Para de me apaixicabar!”. Os apelos à mãe eram no gerúndio: “Mãe, o papai tá me apaixicabando…”. Daí pra virar adjetivo foi um pulo: “Tô indo, pai apaixicabento…”.
Já tinha percebido que era pura enganação, mas quis ouvir do próprio “autor” o significado da palavra. “Apaixicaba é apaixicaba”. A resposta sempre vinha com um risinho… Até a irmã mais velha foi contaminada pelas “apaixicabices”. Às vezes, os dois juntos soltavam um longo “apaaaaaixicaba”.
E quanto mais eu insistia em saber o significado, aumentava ainda mais o gosto “apaixicabatício” do garoto de não falar nada. Cheguei a pensar que o tupi-guarani dele estava num estágio superior ao meu… Então, desencanei. Até que, num papo despretensioso, veio a revelação. “É com sentido de negação…”. Assim, direto, sem enrolar. Ou melhor, sem “apaixicabar”. O novo apelido do moleque também é bem criativo. “Apaixicabinha”. Fui eu que inventei. Genial, né? Mas ele é um imitadorzinho e me chama de “Apaixicabão”. Ah, é com “x” mesmo e não com “ch”. Foi o professorzinho que explicou. Ele merece uma bela “jaifira”, com muito “chanclich” e “banadura”. Mas primeiro, banho. E sem “apaixicabar”!