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A minha rua não é mais a minha rua

Haisem Abaki

12 Maio 2017 | 10h03

Um compromisso “futepaterno” me faz revisitar a rua em que cheguei criança com nove anos e saí “adulto” com 21. Era o caminho para o ginásio onde o time do meu craque de 14 anos jogou e ganhou de 7 a 1. Mas desta vez não vou ficar na corujice babona de sempre nem cair na tentação de comparar o resultado com aquele outro placar famoso de um joguinho de 2014. Hoje o assunto é o moleque que eu fui e não minha versão revista, ampliada e muito melhorada.

A partida seria disputada no que agora para mim é “o outro lado da cidade” e por isso achei melhor ir de trem. Desembarquei e já tive o primeiro impacto. O trânsito estava intenso demais na avenida que dá acesso à “minha rua”. Um tempão esperando o semáforo abrir para pedestres e um carro passando atrás do outro sem parar. Aquele sinal não existia “no meu tempo” e dava pra fazer a travessia plantando bananeira, se eu soubesse plantar bananeira.

Uma eternidade depois, finalmente entrei na “minha rua”. Logo de cara, olhei para a esquerda à procura da “melhor casa da rua”, que não era a minha, pelo menos fisicamente falando. Era de um vizinho simpático e “bem de vida” na época. Parecia abandonada.

Havia um salão de beleza, mas fiquei em dúvida se era o mesmo endereço do barbeiro de mais de 30 anos atrás. A quitanda também já não aparentava ser a mesma e não vi nenhum rosto conhecido lá dentro. O bar da esquina ainda era o bar da esquina, só que as pessoas do lado de lá e do lado de cá do balcão também não me pareceram familiares.

Até fiz o trajeto lentamente de uma ponta a outra tentando identificar algum rosto envelhecido do passado. Nada. E ninguém me olhou como se estivesse reconhecendo outro rosto envelhecido do passado. Nada.

Do lado direito as casas deram lugar a uma transportadora. Nenhuma surpresa, porque eu já sabia que minha casa e o antigo armazém do meu pai haviam sido demolidos. Já tinha “não visto” a minha casa ao passar de carro várias vezes por lá, mas “não ver” a pé foi uma sensação diferente, de mais vazio, como se tudo tivesse sido derrubado naquele instante.

Virei à esquerda e procurei o açougue de um velho português. Cadê? A memória começou a falhar e nem me lembrava do que mais havia na vizinhança. Uma alfaiataria, eu acho. E onde foi parar a padaria em que eu ia comprar leite, pão e produtos “básicos” como Chicabon e um sundae da Kibon? A “Ponto Chic” estava fechada e tinha uma placa com um gigantesco ‘ALUGA” na parede suja.

Procurei a avícola onde havia comprado os dois primeiros e únicos peixinhos dos quais “cuidei” em um aquário e que pagaram com a vida por minha inabilidade desengonçada. Só vi uma mega, hiper, super loja de eletrodomésticos. Enfim, tudo parecia estranho ali.

Fiz ainda uma última tentativa subindo a rua que dava acesso ao ginásio do jogo do meu craque. Procurei um campinho de futebol que… Deixa pra lá. Mudou tudo. Até a ladeira parecia mais íngreme. Tive que tomar fôlego no lugar em que a molecada disputava “campeonato de beber Coca Cola de uma vez só”. Eu era o mais rápido e liquidava a garrafinha ficando com lágrimas nos olhos e uma ardência no nariz. Hoje, nas raras vezes em que “cocacolateio”, peço aquela latinha menor.

Do passado que foi embora, só reconheci uma agência bancária e uma loja de materiais de construção. Não foi nada aconchegante me sentir “identificado” com o paraíso dos juros altos e a frieza de pisos, azulejos e vasos sanitários. Nem a pracinha pra salvar as lembranças. Ela ainda está lá, mas não tem mais aquele jeitão acolhedor.

Resolvi apertar o passo pra chegar logo ao ginásio e esquecer a bobagem de querer ter memórias de um tempo que não existe mais. Foi quando vi dois cachorros descendo a ladeira. O primeiro vira-lata parou, olhou e me cheirou. O segundo vira-lata parou, olhou e me cheirou também. Finalmente duas almas bem familiares! E eu me senti em casa de novo. Vira-latas não morrem. São eternos.