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A loteria das “coronabaias”

Haisem Abaki

30 de maio de 2020 | 12h56

Já são quase 34 anos de profissão, sempre falando no rádio. Falando um pouco de tudo. Política e economia são assuntos dominantes. Mas essa falação toda inclui política internacional, esportes, educação, ciência, tecnologia, cultura e assuntos do dia a dia, como trânsito, previsão do tempo e uma simples, mas sempre necessária, hora certa. Até programa sobre pescaria já apresentei, sem nunca ter fisgado um peixe. E na época recebia fax (São Google das Causas Curiosas explica o que é) de ouvintes querendo dicas pra pescar.

Talvez eu entenda de alguns desses temas. Meu “curso” de política (nacional e internacional) foi com meu pai e com muita leitura. Leitura que sempre foi a base para todo o resto das minhas múltiplas “especialidades”. Ao longo do tempo, a experiência se juntou a esses meus “créditos”. E também alguns poucos fios de cabelos brancos, bem menos do que os de amigos da mesma faixa etária e sem a tintura que eles imaginam que eu possa usar. Espero ansiosamente pela chegada definitiva dos cabelos brancos como confirmação de minha imensa “experiência” de vida.

Mas a caminhada até aqui já me permite, eu acho, tirar algumas conclusões sem achismos. Não sou especialista em nada, apenas especialista em entrevistar especialistas sobre os mais diversos assuntos e em fazer a ligação entre essas pessoas e os ouvintes. E tais “entendedores” têm sido fundamentais neste momento de pandemia e de pouca clareza que estamos vivendo.

É um momento trágico, no qual assistimos pessoas morrendo e sofrendo pela vida num reality show macabro e uma disputa ideológica ainda mais aterrorizante e perversa, sem nenhuma empatia. Mas hoje vou ignorar o “piadista” de Brasília. Ele já está se desmoralizando sozinho, é o máximo que digo. Assim, desta vez, seus fanáticos seguidores não precisam direcionar suas gotículas contaminantes de ódio em minha direção. Fiquem tranquilos aí.

O foco aqui é nas autoridades tidas como “sérias”. E que agora, cedendo às pressões políticas, econômicas e sociais, promovem planos de retomada gradual da “normalidade”. Dizem que é tudo baseado na ciência. Mas a ciência também tem contraponto. E os especialistas que tenho ouvido falam dos riscos iminentes dessas medidas. Um deles chega a afirmar que podem dar certo se tivermos “sorte”.

Penso que devo ter aprendido alguma coisa nesses 34 anos de profissão e 56 de vida, apesar dos ainda poucos cabelos brancos. Aprendi, pelo menos, a não estar com a mente fechada em preconceitos e ideias prontas sobre tudo. E o que sinto (e assim também me sinto) é que estamos prontos para ser testados. Mas não em exames laboratoriais para detectar o vírus. Seremos cobaias de quem não teve atitudes mais duras na hora certa e que agora se vê diante da falta de adesão ao isolamento social.

Então, vamos abrir aos poucos para ver o que acontece e, dependendo do resultado, ganhamos “moral” para o fechamento. Vou ficar muito feliz se estiver errado. Assim como sou feliz e grato por poder seguir a vida com a segurança de trabalhar em casa. Mas a felicidade e a gratidão são proporcionais à vergonha que também sinto, como se fosse culpado de alguma coisa enquanto tanta gente é obrigada a se expor para sobreviver e governos fingem se preocupar com “o social” e socorrer os empreendedores. Que essa loteria premie a todos nós. E que eu seja apenas um “mau entendedor” à espera de mais cabelos brancos. Existe um tempo certo para aprender. E esse tempo é sempre.

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