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A lógica mandada para escanteio

Haisem Abaki

01 Julho 2014 | 21h57

Avó e neta passam horas diante da TV, torcendo na maratona de jogos da Copa. A menina de 15 anos estuda inglês britânico, adora o sotaque dos caras e curte o príncipe. Aquele príncipe, o, o, o… Eu nunca sei quem é quem. O William é o da Kate? Ou é o Harry? A vovozinha nasceu no Oriente Médio, onde onze em cada dez “batrícios” não simpatizam com “as potências imperialistas do Ocidente”, como a turma da rainha.
No jogo Itália x Inglaterra, ainda lá na primeira fase, já daria pra imaginar o lado em que cada uma estaria. É óbvio, né? Só que os papéis se inverteram e eu quis saber o motivo. Entra em campo a “lógica” do torcedor.
– Pai, é que a Itália é a origem do Palmeiras (gostei dessa “coerência” da herdeira).
– Filho, depois da Copa de 94, quando eu estava voltando da Síria, fui muito maltratada no Aeroporto de Roma. Os italianos ficavam bravos com qualquer um que falasse português.
Pura lógica! E eu, inocentemente, pensando em questões geopolíticas e estratégicas mundiais. Cabeça, coração, fígado e estômago de torcedor têm razões muito específicas para suas escolhas, principalmente numa Copa do Mundo.
Em Uruguai x Inglaterra a garota já torcia pelo time da Queen, mandando ver um convincente “ah é porque eu acho que não gosto do Uruguai”. Com um argumento tão bem embasado assim nem dava pra contestar. Em Itália x Uruguai, a alma palestrina estava de volta, mas depois a menina ficou com pena do mordedor que foi obrigado a voltar pra casa.
Nos outros grupos, ela vibrava mais pelo Chile e pela Colômbia. Valdívia e Armeration, sem a necessidade de mais explicações. Aí, avó e neta já pareciam unidas novamente e só deixaram o Chi-chi-chi-le-le-le pra lá-lá-lá quando o Brasil apareceu do outro lado.
Juntaram-se também contra a Argentina com justificativas inquestionáveis. A menina com um “porque sim, ué”. E não era comercial de cerveja. A avó com uma careta e pronto.
Em alguns momentos, ficaram solidárias na adesão a seleções mais “fracas”, como Costa Rica, Nigéria, Gana, Argélia, Grécia, Coréia do Sul e Costa do Marfim. Mas a menina apoiou França e Alemanha. Explicação inédita: “Ah, é porque eu gosto da França e da Alemanha”. Só que ficou dividida quando viu o esforço dos argelinos contra os alemães. “A Argélia é bonitinha”.
O “porque sim” da torcedora mirim voltou no apoio aos Estados Unidos, contrariando a avó. Finalmente… Eu sabia que questões geopolíticas e estratégicas mundiais acabariam aparecendo. Isso que é consciência “futepolítica”!
Refletindo profundamente, constatei que essas estranhas preferências são típicas de quem não torce com muita frequência, no futebolzinho nosso de cada dia. Eu sou bem diferente. Uma prova? Torci pela Bélgica contra os Estados Unidos por motivos “ideológicos e geográficos”. É que os “belgicanos ou belgiquenses”, como diz um garoto lá em casa, estão respirando os “buenos aires” de Mogi. E agora vão pra cima dos “ar-rentinos”.
Bélgica “forever and ever”, com fidelidade (quase) total. Até a hora do gol americano. Deu uma coceira pelo empate só pra poder ver uns pênaltis sem compromisso. Com os outros é sempre legal. Pura lógica…