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A hora, ora essa!

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h46

Publicado pela 1ª vez em 20/06/2008
Outro dia, caminhando pela rua, fui abordado por um adolescente de boné, bermudão, camiseta com dizeres que me deixaram com a visão embaralhada e blusa amarrada na cintura:
– Tio, o senhor tem horas aí?
Não uso relógio de pulso, mas pus a mão no bolso para dar a resposta e percebi que tinha esquecido o celular no carro:
– Ih, não tenho não, sobrinho.
O moleque nem riu da brincadeira e saiu com cara de decepcionado, me olhando de cima a baixo. Consegui ler o pensamento dele:
– Ô meu, que cara estranho! Não tem relógio e ainda me chama de sobrinho!
Enquanto ele se afastava, me lembrei que ao descer do carro estava ouvindo a abertura do Jornal em Três Tempos.
– Olha, já são quatro e sete, mais ou menos.
A hora sem arredondamento fez aparecer mais uma frase que vi na testa do garoto, mas não vou transcrever o palavrão.
Acho que ele tinha razão. Deve ser decepcionante mesmo cruzar com um sujeito tão desprovido da noção do tempo, como eu. Fiquei imaginando o que aquele garoto pensaria se soubesse que dou a hora quase que de minuto em minuto de manhã cedo, no rádio.
Segui em frente e passei perto de uma loja de roupas, que no começo dos anos 70 vendia eletrodomésticos. Lá, aos oito anos, eu havia comprado o meu primeiro relógio. Na época, juntei uns trocados e recebi a ajuda de meus pais e do seu Miguel, meu avô postiço, que foi comigo buscar o então objeto de desejo infantil. Se não me engano, custou 37 cruzeiros. Não me lembro da marca, mas a pulseira era de couro, preta. Perdi meu amigo do pulso após alguns meses, na nossa primeira mudança de casa. Já era um sinal.
Algum tempo depois, ganhei um Seiko de fundo azulão ao passar de ano, acho que para a 4ª série. Ouvia muitas gozações na escola por usar o “cebolão” no pulso direito e com o visor para baixo.
Confesso que não sei ao certo como fui perdendo o interesse pelo tique-taque. No começo do rompimento, passei a usar o relógio de pulso no bolso. Ainda adolescente, meus pais me deram um relógio de bolso de verdade.
Na escola, os colegas perguntaram se era herança do meu avô e logo me chamaram de “véio” quando fiz a besteira de dizer que o reluzente penduricalho tinha saído do saco do Papai Noel. Um dia derrubei o coitado no chão sem querer e ele se espatifou todo. Meus pais compraram outro, que deve estar esquecido em alguma gaveta. Nunca mais quis saber de relógios.
Rompi com a “escravidão do tempo” ainda na fase “aborrescente”. Cheguei até a questionar os fusos horários. Seriam eles uma imposição do imperialismo vigente? Não, mas para mim toda hora era hora de ser do contra.
Apesar da rebeldia, na prática, nunca deixei de saber as horas e raramente me atrasava. Primeiro, porque meu pai sempre me apressava, repetindo feito um cuco que o ideal era chegar dez minutos antes do horário previsto. Depois, porque o rádio que ele ouvia o dia inteiro me atormentava com a hora certa a todo instante. Quando o quinto sinal da Bandeirantes tocava era uma tortura: meu pai me chamava aos gritos. Um dia não agüentei aquilo e dei um berro:
– Caramba, pra que falar a hora de minuto em minuto? Cala a boca!
Não adiantou porque o José Paulo de Andrade não ouviu (hoje peço desculpas a você, Zé).
Na verdade, era uma rebeldia cronometrada. Além do rádio, eu olhava a hora de vez em quando no relógio da cozinha quando tinha algum compromisso ou enquanto me preparava para o trabalho, como office-boy. Só não gostava de ter o relógio no pulso.
Um dia, já como repórter literalmente aéreo, a bordo do helicóptero, ouvi uma inesperada pergunta do Heródoto Barbeiro, que ele não costumava fazer:
– Que horas são, Haisem?
Tive uma rapidez digna de milésimo de segundo:
– Que horas são no seu, Heródoto?
Não me lembro da resposta exata que ele deu, mas não tive dúvida depois de ouvi-lo:
– No meu também!
Virei apresentador e não teve jeito: passei a ser “um falador de horas”. Isso até que foi tranqüilo para mim, sem sofrimento. Só senti o impacto ao fazer o primeiro plantão na Bandeirantes, num sábado:
– O quinto sinal marca meio-dia e quinze!
Acho que foi um verdadeiro ritual de passagem. Hoje dou a hora certa sem pudor (será que alguém me manda calar a boca?), mas continuo com o pulso pelado. Além do rádio, me socorro do celular quando preciso respeitar com obediência a “escravidão do tempo”. Ultimamente, nas horas vagas, tenho me ocupado de uma atividade lúdica: ensinar meu filho a ver as horas. Ele ainda se confunde um pouco com os ponteiros e até com os dias:
– “Amanhã” a professora “ensinou” as vogais para a gente…
Às vezes, fico na dúvida se já é hora de corrigi-lo, mas acabo dizendo o que é o certo. Só não sei o que farei se um dia ele me pedir um relógio de presente. Coincidência ou não, os três de brinquedo que o rapazinho tem estão esquecidos no fundo de uma gaveta.
– Você quer um relógio? “Ontem”, o papai “vai comprar” um pra você!

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