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A generosidade e a circuncisão

Haisem Abaki

24 Dezembro 2013 | 10h18

Meus pontos fracos sempre aparecem com mais força em dezembro. Foi numa festa de fim de ano, ainda adolescente, que descobri, do pior jeito, que não sou bom de copo. Nem de taça, caneca, garrafa… Já virei essa página faz tempo. Só uns golinhos bem “devezenquandamente” em ocasiões muito especiais e mais nada.
Dezembro também ficou marcado como o mês em que me entupia de chocolate. Culpa do meu pai, que dava caixas de bombons pra todo mundo como presente de Natal. Nunca consegui comer um só. Até o dia em que tomei consciência dessa fraqueza compulsiva e cortei a guloseima definitivamente. Definitivamente é uma palavra muito forte. Mas já não é mais como antigamente, pelo menos por enquanto.
Outro sintoma que me atinge no último mês do ano é a introspecção. Sou tomado pelo pensamento de que tenho muito enquanto outros não têm nada. Esse meu lado manteiga derretida se transformava em sentimento de culpa, que só passava quando saía com amigos para doar alimentos e brinquedos. Hoje a consciência já pesa menos.
E foi num dezembro que contraí a minha mais forte fraqueza: virei pai babão. O estrago foi tão grande que nem precisei de outro dezembro e conquistei o bi de pai babão em abril, num Domingo de Páscoa. Devo ter ficado assim por influência de Papai Noel e do Coelhinho, dois seres perigosíssimos para gente molenga como eu.
Mas este dezembro de agora fortaleceu ainda mais minhas fraquezas explícitas. Uma festa de 15 anos, uma formatura e uma cirurgia num intervalo de duas semanas… Aí é demais. Vasculhei a gaveta e achei um lenço de pano esquecido. Coisa de velho. Foi útil para alguns momentos de “suor nos olhos”, principalmente na hora do diploma.
Suei também pra dançar a valsa com a menina que prometeu ensaiar comigo e passou o dia no cabeleireiro. Ainda bem que o irmão dela estava por perto para dividir a fraqueza da impaciência masculina e me dar “o prazer” da dança. O moleque não gostou, mas não teve jeito. Um, dois, três para a direita. Um dois três para a esquerda. Em casa parecia haver mais espaço do que no imenso salão. De onde surgiram aqueles quarenta casais???
E pra fechar o ciclo de fraquezas, o maior dos meus medos: ir ao hospital. Pior ainda: duas entradas na UTI. A avó dos dançarinos estava bem e perguntou dos netos. Depois, quis saber se tínhamos notícias de dois irmãozinhos gêmeos que choravam no centro cirúrgico. Eram judeus e tinham ido fazer a circuncisão. A generosa árabe ficou preocupada com eles… Caramba, eu estava sem o lenço de pano!
No caminho para casa mergulhei na memória, mas não me veio nenhuma lembrança. Será que ela também ficou tensa por causa da minha? A minha o quê? Ué, a minha circuncisão… É outra fraqueza. Às vezes um assunto puxa o outro e quando vejo faço revelações sem perceber.
Foram instantes curtos, mas de puro espírito natalino. Estou tentando me controlar pra não dizer mais nada, a não ser um Bom Natal e um Feliz 2014 a todos que vão “tirar férias de mim” por alguns dias agora em janeiro. Até a volta.
Tá bom, a fraqueza de não conseguir ficar quieto falou mais alto. Por experiência própria, como “beneficiário” e “usuário”, recomendo as duas coisas. Como, que duas? A generosidade e a circuncisão. Elas fazem muito bem. Deixam a gente livre, leve e solto…