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A garota mais linda do mundo

Haisem Abaki

07 de agosto de 2015 | 10h48

Era para ser um passeio quase sem compromisso, apenas uma ida ao shopping, talvez pra ver um filme. Qualquer filme. Aquele que estivesse mais fácil no horário.

A companhia eu conheço muito bem, mas fazia um tempo que não tínhamos um programa a sós, um momento exclusivamente nosso. A garota é bem mais nova do que eu. E daí? Qual o problema? Nenhum. Normal pra ela também andar de mãos dadas com um véio.

No caminho, o que mais me chamou a atenção, além dos lindos olhos, da expressividade do rosto, do gestual seguro e da doçura da voz, foi o papo reto e com conteúdo. E a variedade de assuntos também. Literatura, música, projetos de vida e até reflexões filosóficas e comportamentais.

Eu ouvia tudo atentamente, fascinado com aquele jeitinho meigo e ao mesmo tempo firme e decidido. Primeiro ela falou sobre os livros de John Green e as adaptações feitas para o cinema. Tínhamos assistido “A Culpa é das Estrelas” na TV na véspera e minha parceira havia avisado que eu ia chorar.

Depois, fez comentários sobre “Cidades de Papel”, que ainda não li nem vi no cinema. Chegou até a explicar um pouco da concepção da obra do autor ao contar particularidades do livro “O Teorema Katherine”, cheio de notas de rodapé que segundo ela complementam e dão sentido ao texto.

Em seguida, a garota que me provoca suspiros falou sobre a necessidade de expor sentimentos e sensações, “sem bloqueio emocional”. Caraca! Uma menina tão novinha me dando aulas de maturidade… Aí, demonstrou a intenção de realizar algum trabalho voluntário e revelou a vontade de escrever um livro com histórias de pessoas anônimas. É um projeto tão bom e original que não posso dar mais detalhes aqui pra não estragar a surpresa que um dia espero ver impressa.

A conversa fluiu para algumas bandas que ela curte, mas não vou me arriscar nesse tema porque ela falava muito depressa e fazia conexões que nem sempre consigo captar. Como estávamos no metrô, a mocinha mudou de assunto na Estação Sé ao se lembrar do concerto “O Diário de Anne Frank”, que assistiu na Catedral da Sé.

E quando ela reparou nas placas de “Proibido Fumar” me surpreendeu de novo, dizendo que o cigarro foi historicamente um símbolo de afirmação para a mulher. “Mas as feministas de hoje perderam o foco. O que elas fazem é promover o machismo ao contrário”. Palavras da mulher (zinha) que estava ali ao meu lado, não minhas. Só estou reproduzindo…

Chegamos ao cinema e, pelo horário, a opção mais próxima era “Homem- Formiga”, com óculos 3D. Uma garota com tanta bagagem toparia essa aventura? Topou e se divertiu muito. E mostrou o lado ainda criança se empanturrando de m&m’s! Ah, eu confesso: também liberei minha infantilidade de cinquentão.

Fim do filme e fomos para um lanche, com ela sempre carinhosa e de mãozinha dada comigo. Uma mocinha delicada, cativante. E aí percebi que o que me mais me encanta, além do conteúdo, é o jeito “variado” com que ela começa as frases. “Pai…”, “Ô pai…”, “Mas pai…”, “Paiê…”.

Então, contei uma cena do filme “Antes de Partir”, aquele em que o Morgan Freeman e o Jack Nicholson estão para morrer e decidem fazer uma lista de loucos desejos enquanto a hora não chega. Um deles era “beijar a garota mais linda do mundo”. E o doido do Nicholson percebe no fim que não era uma gostosona qualquer como ele imaginava, mas a neta que não conhecia. Ganhei de brinde um sorriso, um beijo e um abraço da “minha garota mais linda do mundo”. Não é pra ficar aPAIxonado?