As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A eleição e o desinfetante

Haisem Abaki

20 Setembro 2014 | 10h33

Quando era criança, eu adorava ir à feira com minha mãe e ficar naquele ambiente agitado. Só não entendia direito como ela escolhia as frutas, as verduras e os legumes. Para mim, toda laranja era laranja e pronto. Batata era batata, alface era alface, abobrinha era abobrinha… O que me atraía mesmo era a sacola. Queria carregar tudo sozinho pra mostrar que era “forte”.
Hoje já nem tenho mais a lembrança de quando fui pela última vez ao lugar onde moça bonita não paga, mas também não leva. Virei frequentador de supermercado, meu programão de fim de semana, pilotando um carrinho com manobras radicais.
E a experiência me ensinou que laranja não é tudo igual. Uma apalpada é suficiente pra saber que uma tem caldo e a outra não. Da mesma forma, existem batatas e batatas, alfaces e alfaces, abobrinhas e abobrinhas. Modéstia à parte, tirando o dia em que levei coentro pensando ser salsinha, acho que não deixo a desejar nesse campo.
Meu terror é o fim da compra. É o momento que reservo para o tormento que é circular pelos corredores dos itens de limpeza. A mentora da lista de supermercado já se conformou e sabe que essa parte precisa ser escrita com todos os detalhes possíveis. Não adianta anotar qual é o produto e a marca porque aos meus olhos é tudo a mesma coisa. Detergente, sabão em pó, amaciante, alvejante, água sanitária, desinfetante…
Falando em desinfetante… Não basta a lista me explicar que é a embalagem do líquido verde com tampa vermelha. Como assim? O jeito é pegar o celular e perguntar se é o verde escuro ou o verde limão. Informação básica, fundamental, essencial. Era o verde escuro, mas se não tivesse poderia ser o limão mesmo. Eu apenas cumpro ordens.
E quando penso que já estou adestrado o fabricante muda tudo e me confunde com “nova embalagem”, “nova fórmula”, “rende muito mais”… Em pleno corredor da limpeza percebo que sujou pra mim. De novo ao celular, para pedir instruções ao oráculo e não ficar ainda mais perdidaço naquele mundo de pós e líquidos ameaçadores. Uma selva cheia de perigos e armadilhas.
Foi desse jeito que me senti, em dose dupla, ou tripla, por esses dias. Eu lá, procurando o tal desinfetante, e nada de verde escuro ou limão… Na TV do supermercado, um bombardeio de propaganda eleitoral, com cada estrategista genial querendo empurrar o seu “produto” e falando mal do concorrente.
Um dos gurus mandou a cliente repetir que nunca se havia desinfetado tanto neste país e que era preciso mais tempo para continuar a desinfetar. Outro ordenou a seu boneco que retrucasse que agora havia muita sujeira e que no tempo da turma dele, sim, é que se desinfetava pra valer. E um terceiro treinador de papagaio determinou a entonação do mantra de que os dois anteriores não desinfetaram nada e que era necessário um novo jeito de desinfetar.
E assim se vende um candidato a conduzir o presente e o futuro de milhões de pessoas. Como se fosse um troço qualquer, desses que um sujeito como eu só pega porque alguém escreveu na lista. Na volta para casa, meu amor pela democracia falou mais alto e me senti culpado por estar fazendo uma comparação entre campanhas patrióticas de salvação nacional e um mero frasco de gosma multiuso de limpeza. São coisas muito diferentes. O desinfetante, pelo menos, é cheirosinho… Limpeza pesada até para consciências. Nossa! Criei um slogan?