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A boa notícia é que tem notícia boa

Haisem Abaki

26 Agosto 2016 | 09h46

O garoto pediu pra ir comigo ao trabalho e o chato aqui já foi colocando o primeiro obstáculo: acordar de madrugada. Ele topou. Bicampeão em chatice, avisei que não podia ter atraso. Ele topou. Fui para meu tri em “chatologia” dizendo que não teria como esperar em caso de enrolação no cobertor. Ele topou. E ganhei mais uma medalha no revezamento chato por quatro alertando que estaria muito frio. Ele topou.

No dia seguinte, que ainda parecia noite, o moleque acordou na hora combinada, tomou o “café da madrugada” e lá fomos nós. Sei que o desejo dele teve um atrativo a mais: caçar pokémons num lugar diferente. Não sou aquele tipo clássico de jornalista que fala mal da profissão e que não quer que o filho a siga. E nem o contrário. Ele e a irmã apenas sabem que amo o que faço. Ah, e que não sei fazer outra coisa também…

O rapazinho ficou quieto no estúdio e assim mesmo virou o centro das atenções dos meus colegas de trabalho. O noticiário mais forte ainda era sobre a Olimpíada, mas o popular esporte nacional corrupção nas alturas e outras tragédias nossas de cada dia estavam ali, firmes e fortes como sempre.

E estes foram os temas de uma entrevista com um ministro liso, daqueles com resposta pronta pra tudo, um superatleta da verborragia. Depois de 20 minutos de falação, perguntei ao moleque se havia entendido alguma coisa e ouvi um “só a parte da Olimpíada”. Confesso que fiquei aliviado. Não quero um filho iludido e alienado, mas também não pretendo deixar pra ele um legado de amargura com tudo e todos. Missão cumprida e fomos ser adolescentes (sim, os dois) caçando pokémons, lanchando, “sorvetando” e vendo o Brasil ganhar ouro no vôlei numa TV de loja de shopping com a torcida em volta.

A cena me trouxe a lembrança de um site que visito com frequência. É de dois amigos que não vejo há um tempão, o Rinaldo de Oliveira e a Andrea Fassina, com quem trabalhei na CBN nos anos 90. Eles criaram o Só Notícia Boa quando o Rinaldo percebeu que o programa de TV que apresentava em Brasília só tinha notícia ruim. Bom, não foi beeeeem assim. Jornalista engolido pelo turbilhão da profissão não se dá conta dessas obviedades. Quem sacou foi a filha deles, que na época tinha só 10 anos. É a idade ideal para uma compreensão que os adultos não costumam ter.

Atleta leiloa medalha para tratamento de menino com câncer. Carteiro escreve cartões para cão que gosta de pegar cartas. Menina de 12 anos abre biblioteca no sertão da Bahia. Sonho realizado: idosa se torna bailarina aos 71 anos. Crianças criam grupo “carona a pé” e vão juntas para a escola. Globo dá parabéns ao SBT por seus 35 anos: gentileza! É esse o tipo de manchete que sai no Só Notícia Boa. E nem por isso é um mundo falso e imaginário. Faz parte da realidade, sim. E é  com alegria que já vejo notícias boas em sites de “notícias ruins”. O próprio portal do Estadão já faz isso. A história do carteiro “cãopanheiro” estava lá também, amenizando as outras leituras obrigatórias.

Valorizar notícia boa não significa ignorar o que existe de ruim. Dá pra fazer isso e ser engajado, politizado, combativo, desconfiado e até chato, como eu. Hoje vejo que o amigo Rinaldo já dava sinais desse “jornalismo do bem” quando trabalhávamos juntos. Foi de autoria dele um belo texto que a CBN levou ao ar em novembro de 1991 ao noticiar a morte do Freddie Mercury. Vi que foi escrito às lágrimas e o choro do Rinaldo continuou no estúdio. Mas as palavras eram sobre a vida e não a morte.

Quase 25 anos depois ainda me faz bem ler sem medo da ingenuidade as boas notícias do Rinaldo. Afinal, alguém tem que fazer o “serviço limpo”. Nossos filhos agradecem. Eles sabem das coisas. Tomara que os meus não puxem o pai “chatonauta”.