Você já ouviu falar no “Rei da Voz”?

Geraldo Nunes

28 Setembro 2014 | 07h57

Trata-se de um mito, alguém que já não se sabe se existiu ou não, mas que pode ser de mentira e de verdade, ou simplesmente fruto da imaginação.  Assim é Francisco Alves hoje, mas ele existiu e viveu, arrebatou plateias e morreu tragicamente.  Fez muito sucesso mas hoje alguns não sabem sequer que ele existiu. Outros o conhecem pelo ouvir falar dos pais ou dos avós.  O mundo também é outro e o avanço tecnológico, incrível.  Para se ouvir música hoje em dia é preciso apenas baixar a canção desejada no smartphone e pronto. Qualidade total sem riscos e nem chiados.

Francisco Alves é de outra época onde os discos que caiam no chão quebravam e para gravar era preciso ser cantor de verdade e ter, além de voz, interpretação, entonação, controle de  respiração, amplitude e impostação.  Francisco Alves tinha isso tudo e por esses atributos foi chamado o “Rei da Voz”, como Pelé foi aclamado, o “Rei do Futebol”. Mas a morte inesperada colidiu de frente com o lendário cantor no dia 27 de setembro de 1952, ou seja, há 62 anos.

Contratado pela então recém – inaugurada Rádio Nacional de São Paulo,  para uma série de shows ao ar livre na capital paulista, Francisco Alves fez sua primeira apresentação no Largo da Concórdia, no Brás, em 26 de setembro de 1952, uma sexta-feira. Também conhecido por Chico Viola, o artista se apresentou acompanhado pelo regional de Antônio Rago, um violonista de que teve longa trajetória no meio musical que costumava contar que o  show terminou dez da noite e recomendou a ele que descansasse em São Paulo e viajasse só no dia seguinte. “Mas o Chico disse ter compromissos no Rio e precisava estar por lá o quanto antes, chegou a me dar seu violão e pediu que eu guardasse para ele, mas depois voltou atrás e me pediu de volta, colocou no porta – malas do Buick e  partiu para nunca mais voltar”, disse Rago acrescentando que  a apresentação de São Paulo deveria ter sido a primeira de uma série, mas foi a última da vida do cantor. Antonio Rago, que morreu aos 91 anos em 2008, é também autor de um livro, “A Longa Caminhada de um Violão”, uma espécie de autobiografia com passagens interessantes sobre ele e o meio artístico entre os anos de 1930 a 1970.

Naquela madrugada fatídica, na viagem de volta ao Rio que não chegaria a seu final, pela Via Dutra, nas proximidades de  Pindamonhagaba, o carro do “Rei da Voz”, um Buick último tipo,  foi colhido de frente por um caminhão que vinha em alta velocidade na contramão da estrada. O carro se incendiou e o cantor morreu carbonizado no acidente. Acabava assim a vida de quem foi considerado em sua época, “o maior cantor brasileiro de todos os tempos” e que os críticos diziam parecer que não envelhecia, tamanha sua desenvoltura fosse cantando um samba dos anos 20 e ou uma valsa dos anos 40.  No dia 30 de setembro de 1952, uma terça-feira, o jornal O Estado de S. Paulo estampava detalhes do acidente e do sepultamento três dias depois no Cemitério São João Batista, cujo féretro foi seguido a pé por mais de 150 mil pessoas cantando suas canções e chorando ao mesmo tempo.

A vida do “Rei da Voz” daria um filme, pois nasceu pobre e filho de um português, dono de botequim, no Rio de Janeiro, em 19 de agosto de 1898. Ainda criança começou a trabalhar de engraxate, depois arrumou emprego em uma fábrica de chapéus e foi ainda chofer de táxi, onde aprendeu os caminhos da boemia e da malandragem carioca, a partir de 1920, mas não a ponto de se livrar de uma paixão avassaladora por uma prostituta de nome Ceci, que ele conheceu em um cabaré da Lapa. Sua família ficou desolada, porque a decisão de se casar com ela foi repentina, mas o matrimônio só durou uma semana, a própria Ceci decidiu pela separação. Nesse mesmo ano, conhece Célia Zenatti, dançarina e atriz de revista, o grande amor de sua vida, dizia. De fato, uma feliz união de vinte e oito anos, até que ele encontrasse uma jovem professora.

Frequentava o Teatro S. José porque não perdia as apresentações de Vicente Celestino, um outro cantor hoje quase desconhecido que também tinha voz forte e era tratado como uma espécie de Caruso brasileiro. Da admiração por Celestino veio sua decisão de também cantar e um diretor de uma companhia de teatro decidiu levá-lo aos palcos. Era 1922, ano de nascimento do Rádio no Brasil e Francisco Alves desde o princípio mostrou-se arrojado interpretando valsas e marchinhas e foi com uma delas, “Pé de Anjo”, de Sinhô, para o carnaval de 1928, que Francisco Alves obteve seu primeiro sucesso.

Conheceu os compositores Noel Rosa, Ismael Silva, Nilton Bastos, Herivelto Martins, Lupicínio Rodrigues e Cartola, entre outros, e de todos gravou alguma canção ou foi parceiro. César Ladeira, apresentador de programas de Rádio, foi quem o batizou de “O Rei da Voz”, em 1933 e desde então Francisco Alves colecionou sucessos e se tornou o artista brasileiro com o maior número de gravações em discos de 78pm. Ao longo de sua carreira, lançou 526 discos com 983 músicas, sendo 132 composições próprias. Foi também o descobridor de outras vozes como a de Orlando Silva que foi procurá-lo e Chico se não fosse sensível e honesto poderia não ter encaminhado um novo concorrente ao sucesso. Ao contrário, ajudou a transformar o jovem valor no conhecido “Cantor das Multidões”.

Em 1939 Francisco Alves gravou aquela se tornaria uma das mais famosas e emblemáticas canções de sua carreira, Aquarela do Brasil, composta por Ary Barroso. Depois de deixá-la pronta, Ary que também era radialista, narrador de futebol e apresentador de programas de calouros, precisou viajar para os Estados Unidos. Mas ao ouvir a música, Francisco Alves quis gravá-la de imediato e errou a letra. Em vez de dizer “meu mulato inzoneiro”, ou seja, mexeriqueiro, pronunciou “meu mulato risoneiro”, palavra que não existe no dicionário.

Mesmo assim o disco saiu sem que ninguém notasse o equívoco e quando Ary Barroso voltou ao Brasil ficou furioso e queria retirar o disco de circulação, mas a música já fazia sucesso sendo impedido pela gravadora. Sorte de todos, porque até hoje, poucos percebem.

Quem ouvir hoje algumas gravações de Francisco Alves, poderá considerar que os arranjos estão ultrapassados, mesmo assim algumas canções ainda resistem como “Fita Amarela” (de Noel Rosa, cantada em parceria com o amigo Mário Reis), “Confete” (David Nasser/J. Júnior) “Chuvas de Verão” (Haroldo Lobo), “Boa Noite Amor” (José Maria de Abreu e Francisco Matoso) e “Serra da Boa Esperança” (Lamartine Babo), entre outras. Gravou também versões interessantes como “Besame Mucho”, talvez a música mais cantada no mundo, composição da mexicana Consuelo Velásquez que no Brasil saiu em 1943 com o título “Beija-me muito”, versão de David Nasser, na voz do Chico Viola.  Dois anos depois ele gravaria outra versão do grande sucesso originalmente na voz de Carlos Gardel, cujo nome vertido para o português é “O dia que queiras”, da letra em espanhol escrita pelo poeta brasileiro Alfredo Lepera. A tradução foi muito fiel à original e nos ajuda a entender melhor o quanto é romântica essa canção, por isso fizemos constar nessa reportagem.

Outro grande sucesso, “Cinco Letras Que Choram – Adeus” (Silvino Neto), foi entoado pelo público que acompanhou comovido o transporte do corpo do cantor, no dia do triste adeus, atirando flores em seu caixão e lamentando sua inesperada e sentida morte. “Tu, só tu, madeira fria, sentirás toda agonia do silêncio do cantor”, escreveu o amigo e jornalista David Nasser após a morte de Francisco Alves.

Pouco mais de seis décadas depois da tragédia, fãs ainda visitam no Rio de Janeiro, o túmulo do inesquecível cantor se perguntando: “Se vivo como teria reagido à bossa nova, assimilaria também esse novo ritmo?” Acreditamos que teria dificuldades como tiveram os seus contemporâneos, devido ao estilo e timbre de uma fase da Música Popular Brasileira. Mais triste saber é que depois dela e da bossa nova,  surgiram poucos  talentos capazes de emocionar as plateias como naqueles tempos, mas Francisco Alves foi sem dúvida o “Rei da Voz”,

 

Aquarela do Brasil – Ary Barroso

Brasil, meu Brasil Brasileiro,

Meu mulato inzoneiro,

Vou cantar-te nos meus versos:

O Brasil, samba que dá

Bamboleio, que faz gingar;

O Brasil do meu amor,

Terra de Nosso Senhor.

Brasil!… Brasil!… Prá mim!… Prá mim!…

Ô, abre a cortina do passado;

Tira a mãe preta do cerrado;

Bota o rei congo no congado.

Brasil!… Brasil!…

Deixa cantar de novo o trovador

À merencória à luz da lua

Toda canção do meu amor.

Quero ver essa Dona caminhando

Pelos salões, arrastando

O seu vestido rendado.

Brasil!… Brasil! Prá mim … Prá mim!…

Brasil, terra boa e gostosa

Da moreninha sestrosa

De olhar indiferente.

O Brasil, verde que dá

Para o mundo admirar.

O Brasil do meu amor,

Terra de Nosso Senhor.

Brasil!… Brasil! Prá mim … Prá mim!…

Esse coqueiro que dá coco,

Onde eu amarro a minha rede

Nas noites claras de luar.

Ô! Estas fontes murmurantes

Onde eu mato a minha sede

E onde a lua vem brincar.

Ô! Esse Brasil lindo e trigueiro

É o meu Brasil Brasileiro,

Terra de samba e pandeiro.

Brasil!… Brasil!

 

O dia que me queiras – Alfredo Lepera

Eu sinto nos meus sonhos o suave murmúrio do teu suspirar.

Teus olhos parecem dois sóis resplandentes a me iluminar.

Teu riso é como a brisa que toca de leve, chegando do mar-

Alvorada de ternura, todo um sonho de loucura…

O dia que me queiras

No azul do Firmamento

Estrelas radiosas

Dirão ao nos ver passar

E a brisa perfumada

no aroma das roseiras

Transformarão em sonhos e glórias

a noite em que tu me queiras

O dia que me queiras

As rosas tão singelas

Vestindo-se de festas

terão mais linda cor