Vereadores pediam proteção à santa para falta de chuva

Geraldo Nunes

21 Julho 2014 | 06h42

A seca em São Paulo é a pior desde 1930 e um ouvinte da Rádio Estadão lembrou que em um de meus livros faço referências a uma santa que era evocada pelos vereadores paulistanos toda vez que havia uma estiagem prolongada como essa de agora.

 De fato, se trata de Nossa Senhora da Penha chamada em auxílio da população do passado não apenas nos períodos de seca, mas também durante as epidemias de varíola, ou bexiga como se dizia, que assolavam a cidade vez por outra.

 Atas da Câmara Municipal de São Paulo informam que por seguidas vezes os vereadores solicitavam a vinda da imagem da santa em procissão, desde a Penha até o Brás, ou em caso mais grave até a Sé, para minimizar os males das doenças ou das secas que atingiam a cidade.

 A tradição de se pedir à santa da Penha nessas ocasiões vem de Portugal onde a imagem sempre era colocada na parte mais alta do morro, ou do penhasco.

 Diz a lenda que um viajante do século XVII pernoitou na colina onde hoje está a igreja velha da Penha. Ele tinha na bagagem uma imagem de Nossa Senhora. Seguiu viagem no dia seguinte, mas logo sentiu falta dela e lá voltou para buscá-la, partiu novamente e léguas depois, sentiu novamente a ausência da santa. Lá voltando a encontrou, percebendo assim que era desejo da santa permanecer naquele local. Então para homenageá-la construiu uma capela.

 A fundação da Penha é incerta, porém a data mais citada é 5 de setembro de 1668, quando foi concedida uma sesmaria ao padre Mateus Nunes da Siqueira que, conforme esclarece o próprio documento já possuía uma fazenda no local que, por iniciativa de seu irmão, o padre Jacinto Nunes da Siqueira, foi construída uma capela para Nossa Senhora da Penha.

Os moradores dos dias atuais ainda cultivam devoção a Nossa Senhora da Penha, se reunindo anualmente para as festas todo 8 de setembro, dia da natividade da santa, mas já não se pedem procissões pelo fim da estiagem ou das pestes como no passado. Por tais motivos alguns entendem ser Nossa Senhora da Penha, a padroeira da cidade de São Paulo.

 Mas Dom Odilo Scherer, cardeal arcebispo de São Paulo, em 2008, nem tomou conhecimento ao anunciar que o padroeiro da cidade seria mesmo o apóstolo Paulo e por conseguinte, padroeiro oficial da arquidiocese também.

 O historiador da Penha, advogado Silvio Bomtempi, afirma por sua vez que “Nossa Senhora da Penha continua sendo padroeira da cidade sim, no sentimento popular, mas não canonicamente”.

 Para o teólogo Luiz Felipe Pondé, professor da PUC – SP, “quanto mais padroeiros uma diocese tem melhor é para a vida daquela comunidade”.  O teólogo entende que a referência aos santos é essencial para o cristianismo, cuja ética principal é justamente a santidade, “faça chuva ou faça sol”, brinca.

 Cabe agora aos fiéis evocar Nossa Senhora de Penha para ajudar a cidade que se vê diante mais uma vez dessa condição dramática da seca, porque acredito eu, se depender dos atuais vereadores vai continuar sem chover.