Uma ode a Chico Buarque

Geraldo Nunes

25 Julho 2014 | 07h43

Olhar de menino, jeito comportado, mas no fundo traquinas. Humor afiado e as notas musicais na polpa dos dedos. O verbo vadio na ponta da língua, tudo à flor da pele, do coração e em carne viva. Isto é Chico Buarque de Hollanda. Sem ele, o Brasil estaria mais pobre, mais vazio, desbotado, sem tijolo, sem desenho lógico e sem construção.

O homem, o corpo e o cidadão Chico Buarque completaram 70 anos em19 de junho, mas artista não tem idade e suas canções estão ai sendo cantadas e suas letras citadas nas conversas dessa roda vida. Aos oito já inventava marchinhas de carnaval e foi campeão de futebol de botão várias vezes. Nesse tempo sonhava ser cantor de Rádio e saiu com seu violão no início imitando João Gilberto. Pouco depois compôs A Banda e com ela sagrou-se campeão de um festival televisivo de música popular brasileira e segundo ele foi a canção que mais lhe trouxe dinheiro.

Filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, começou na música tocando para as irmãs, mas as visitas que iam à sua casa, intelectuais como Vinicius de Moraes, por exemplo, elogiavam o jeito dele tocar sem imaginar que um dia aquele menino cantaria em protesto contra a ditadura militar e perseguido pela censura. Chico compôs o tema musical da peça Roda Viva, cujos atores seriam  espancados por paramilitares em um episódio que antecedeu ao AI-5 e após isso resolveu se auto – exilar na Itália e lá ficou dois anos. “Apesar de Você” foi uma canção feita protestar contra as decisões de um general, embora o autor negasse. “Certa vez ligaram da censura para o Chico perguntando se era verdade que a música tinha sido feita para um general e alegou que a letra abordava generalidades”, conta Wagner Homem, no livro Chico Buarque – Letra e Música, que trás a história das composições do artista, destacando que não teve jeito e depois da conversa censuraram definitivamente a canção que só voltaria a ser cantada após a abertura política.

Na infância, Chico morou na Itália onde seu pai se mudou a trabalho.  Ainda garoto a família retorna ao Brasil e passa a viver em São Paulo, onde, morando no Pacaembu, frequentava o estádio. Lá o garoto assistiu a muitos jogos de futebol e se tornou ídolo de um centroavante do Santos de codinome Pagão. Nesse período, foi preso tentando furtar um Fusca junto com um amigo, coisas de menino burguês. Como ainda era menor de idade, o pai o proíbe de circular sozinho até que completasse 18 anos. Anos depois ganharia de presente a foto tirada naquela noite na delegacia, fato que o inspirou a compor “Foto da Capa”, outro sucesso.  Depois do auto – exílio, entre 1969 e 1971, Chico lança Construção, música de uma poesia concreta que revela as esperanças do brasileiro daqueles tempos que morrem na contramão da vida, atrapalhando o tráfego e o sábado.  Daí para frente o rapaz de jeito tímido e olhos verdes que impressionavam as meninas, se torna unanimidade nacional. Falar mal de Chico Buarque se tornaria quase um pecado e duvido que alguém na música tenha gozado de tanto prestígio no Brasil até hoje. Foi a fase de seu envolvimento com o teatro e a participação no enredo de peças como Calabar, Gota D’Água e Ópera do Malandro.

Mesmo prestigiado pelo público ainda sofria com a censura e apostou que se mandasse uma música em nome de um pseudônimo ela passaria. Surgia, Julinho da Adelaide e com ele a canção Acorda Amor, onde se pede que em vez de se chamar a polícia que se chame um ladrão e mesmo assim, a música passou. O rebuliço no meio cultural é enorme e o escritor Mario Prata convence Chico a dar uma entrevista para o jornal alternativo “O Pasquim” se passando por Julinho da Adelaide e ele fala aos jornalistas como sendo filho de uma senhora moradora da favela da Rocinha e ele, mais presente nas páginas policiais passaria a sair agora nas páginas musicais. Desconfiados, os censores começaram a exigir dali em diante o número do RG de cada compositor e Julinho da Adelaide teve que se aposentar, mas ainda deu tempo de se registrar para Julinho da Adelaide uma nova composição.

O ex-presidente Ernesto Geisel não era apreciador do trabalho de Chico Buarque, mas em uma entrevista, a filha do então chefe do governo se disse fã dele que em agradecimento compôs para ela em nome do pseudônimo, a música Jorge Maravilha cuja letra diz “… mais vale uma filha na mão, do que dois pais sobrevoando… você não gosta de mim, mas sua filha gosta…” primeiro e talvez o único rock gravado por Chico Buarque de Hollanda.

Com o fim da censura e o término da ditadura não foi mais necessário se fazer música de protesto, afinal já se podia cantar livremente e para comemorar veio a composição “Vai Passar” que diz, “… num tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória das nossas novas gerações. Dormia, a nossa pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações…”

Surgiria depois o Chico Buarque escritor com três títulos já publicados; “Estorvo”, “Benjamin”e “Leite Derramado”, além de uma promessa de um novo título até o final deste ano. Sobre o fato de estar compondo menos e se dedicando mais à atividade de escritor, Chico Buarque garante que a nova função vai mais de encontro à condição em que ele vive agora, de um senhor de 70 anos. Seu carisma ao que parece continua mesmo entre os mais jovens.

Li impropérios sobre Chico Buarque no facebook partindo de gente que desconhece a extensão de seu trabalho músical, mas de um ouvinte que nos acompanha pelo rádio eu vi: “Não há palavras para definir o trabalho musical e artístico de Chico Buarque, um dos mais importantes compositores de nossa música em todos os tempos”. De fato, nesse caso, não há porque discordar.