São Paulo de Todos os Tempos, o programa que ensinou o sentido de respeito à cidade

Geraldo Nunes

18 de outubro de 2014 | 05h41

Encontrei em uma gaveta uma fita K-7 e como ainda guardo um antigo gravador puder ouvir seu conteúdo. Era uma entrevista de 1995 que um dia copiei do arquivo da Rádio Eldorado com a ideia de transcrever as informações que obtive em uma entrevista rara que realizei para o programa São Paulo de Todos os Tempos, apresentado na emissora durante 14 anos tendo ajudado nesse período a resgatar um pouco da memória afetiva de inúmeros paulistanos que viveram o século XX quase em sua totalidade. O programa ajudou resgatar valores de estima a essa cidade que muitos costumam chamar de desumana.

Três lojas de discos chamavam a atenção de quem passava na Rua 24 de Maio até o final da década de 1970, a Brenno Rossi, a Bruno Blóis e a Casa Manon, essa também oferecia aos clientes partituras e instrumentos musicais. Brilho e glamour bem no caminho da República para o Teatro Municipal. Tive o prazer de conhecer o senhor Waldemar Rossi, um dos proprietários da Brenno Rossi, loja cujo nome pertencia ao irmão dele. Outro irmão era Spartacco Rossi, um famoso compositor.

Nascido em São Paulo, em 1907, o antigo comerciante compareceu à emissora quando tinha 88 anos. De memória invejável, Rossi contou que quando menino brincava embaixo do  viaduto do Chá projetado com vigas metálicas e que naquele tempo ainda dava para ver as águas claras do córrego do Anhangabaú e as tão faladas plantações de chá que deram nome ao lugar.

O viaduto do Chá ao qual se referia era o original, importado em 1892, depois substituído pelo atual, todo em concreto, projetado por Belisário Baiana e inaugurado na década de 1930. “Nas águas límpidas do Anhangabaú eu via peixinhos nadando, coisa que para um menino era uma maravilha”, lembrou Rossi, citando a inauguração do Teatro Municipal, que ele também presenciou, em 1911, bem como as obras de construção do Edifício Martinelli, iniciadas em 1916. “As pessoas achavam que aquele prédio tão alto não ficaria muito tempo de pé, cairia porque se dizia água minava nas fundações e aquilo tudo para mim, ainda criança, era motivo de curiosidade”, descreveu.  Para o menino dia da semana mais esperado era mesmo o domingo porque seus pais o levavam, juntamente com os irmãos, para brincar e mergulhar em algum dos cochos situados na orla de algum clube à beira do Rio Tietê então completamente limpo. Ouvindo essas histórias a impressão que eu tinha é que Waldemar Rossi falava de um outro lugar e não de São Paulo.

Filho de italianos, começou a gostar de música bem cedo, seu pai era um dos proprietários da Casa Beethoven, que antecedeu a Brenno Rossi na família. Essa loja era especializada na compra de partituras, todas importadas e raras. Grandes instrumentistas da época frequentavam sua residência, como Francisco Miglione, e ali tocavam ao piano. Miglione, foi maestro e um dos fundadores da Orquestra Sinfônica de São Paulo. “Ele era irmão de Domingos Miglione, também pianista e sócio de meu pai no comando da loja que ficava na Rua Direita”, informou o senhor Rossi, que fez o curso primário em um grupo escolar localizado ao lado da Catedral da Sé, “cuja construção apenas se iniciava”, disse.  Dona Aurora foi sua primeira professora, “uma mulher amorosa com as crianças e que jamais fez uso da palmatória”, salientou, lembrando que o diretor da escola era o Dr. Frontino Guimarães. “Antes das aulas as crianças ficavam em fila e cantavam marchas militares porque o hino nacional brasileiro ainda não tinha uma letra oficial”, explicou.

Outra fase de recordações se dá no ano de 1918 e de modo especial para Waldemar Rossi. Naquele ano o córrego Anhangabaú foi inteiramente canalizado.  “Nunca mais ninguém pôde ver os peixinhos nadando nas águas claras do córrego que foi uma referência para mim”, lamentou vaticinando, “e para sempre aquelas águas estarão confinadas”.  Dezoito foi também o ano da gripe espanhola onde muita gente morreu. “O cemitério São Paulo é desta época e foi inaugurado às pressas porque já não havia mais lugar para tantos sepultamentos e nem coveiros que infectados pela doença também morriam”, recordou Waldemar Rossi que era obrigado a tomar “Emulsão Scotch”, um remédio à base de óleo de fígado de bacalhau e totalmente amargo, mas assim se salvou da gripe juntamente com os irmãos. No ano seguinte, aos doze de idade começaria a trabalhar porque, este era um costume da época e quem não começasse até no máximo quatorze passava a ser mal visto. “Meus pais me orientaram a tirar a carteira de menor e saíamos procurando emprego de porta em porta”, contou ele ao lembrar que seu primeiro trabalho foi de contínuo externo, onde passou a ir a bancos, escritórios e assim começou a conhecer a cidade. “Ver vitrines para mim era algo maravilhoso nesse tempo onde a eletricidade era um requinte ainda caro e somente a Casa Alemã tinha vitrines com iluminação artificial”. Waldemar Rossi disse que a referida loja foi extinta durante a Segunda Grande Guerra e sua localização era na Rua Direita, ponto de encontro das pessoas elegantes onde também ficavam as concorrentes Mappin Stores e Mappin Webb, a primeira de departamentos e a outra loja, unicamente de cristais e prataria inglesa da mais alta qualidade, uma vizinha à outra, na esquina com a Rua 15 de Novembro, a mais requintada das ruas do triângulo.

O senhor Rossi justificava a escolha para trabalhar de contínuo, mesmo convivendo com a música pelo fato dele não se sentir um instrumentista de talento. “Eu sei tocar piano e ler uma partitura, mas não apreciava o que eu fazia tocando, ao contrário do meu irmão Spartaco que era multi –  instrumentista e compunha muito bem”, explicou avisando que é dele a Marcha do Expedicionário, cuja letra é do poeta Guilherme de Almeida. Brenno Rossi também foi um requisitado pianista.

Waldemar Rossi viveu o movimento modernista e conheceu  quase todos os participantes da Semana de 22.  “Foi nessa época que seu irmão Brenno Rossi decidiu abrir sua primeira loja de partituras do outro lado do Anhangabaú, mais propriamente na rua Marconi e com a popularização do rádio, começamos a vender discos e gramofones, contou”. O poeta Menotti Del Picchia e a pintora Anita Malfati eram clientes fiéis e apaixonados por música revelou Rossi acrescentando, “Anita Malfati era a mais conhecida dos modernistas porque o pai dela era um italiano que ocupava cadeira no Congresso Paulista e os demais viviam praticamente no anonimato, exceção a Mário de Andrade, que ocupou um cargo público na prefeitura”, explicou salientando que os efeitos da Semana de 22 só foram sentidos na cultura com o passar dos anos, enfatizou o nosso entrevistado.

Com o falecimento muito cedo do irmão Brenno, Waldemar Rossi assumiu os negócios da loja que se mudou para a Rua 24 de Maio e ali funcionou por mais de quarenta anos. Depois do fechamento da loja Brenno Rossi, perdemos o contato do senhor Waldemar Rossi que pelo passar dos anos não está mais em nosso convívio.

Ficaram as lembranças dessa entrevista memorável, transcrita graças ao arquivo da emissora Rádio Eldorado.  Guardo comigo alguns long – plays em vinil comprados na loja Brenno Rossi nos anos 1970. Depois viriam os calçadões e o centro mergulhou em uma decadência ao que parece irreversível.  Daquela São Paulo de Waldemar Rossi só resiste no centro o Teatro Municipal localizado às margens de um antigo vale onde peixinhos nadavam em um córrego.

 

 

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