Ronald Biggs nunca se arrependeu de ter participado do assalto ao trem pagador, ao contrário sentia orgulho

Ronald Biggs nunca se arrependeu de ter participado do assalto ao trem pagador, ao contrário sentia orgulho

Geraldo Nunes

18 Dezembro 2013 | 23h38

Ronald Biggs, que morreu aos 84 anos, chegou a ter  notoriedade no Brasil ao aparecer na televisão como um dos britânicos que participaram do famoso assalto ao trem pagador londrino, em 1963. A trama para o roubo foi quase perfeita e se tornou uma das maiores histórias policiais da Inglaterra em todos os tempos. O dinheiro nunca foi recuperado.

Dos 17 participantes do roubo, só três agora sobrevivem e Biggs embolsou ainda mais, recebendo royalties pela “venda de suas memórias” que estão presentes nos inúmeros livros que falam sobre o crime lendário. Agora a BBC prepara um novo filme sobre o tema que deverá estar pronto em breve.

Depois de 50 anos, a Inglaterra ainda comenta esse assalto que ficou conhecido como ” o crime do século”. A ação durou pouco mais de uma hora, mas até hoje é alvo de debates acalorados e virou tema para pesquisas, documentários e filmes de ficção.

Tudo aconteceu na madrugada de 8 de agosto de 1963, uma quadrilha liderada por Bruce Reynolds parou o trem que viajava de Glasgow para Londres carregado de dinheiro em espécie após um feriado bancário. Os ladrões adulteraram um sinal para fazer o trem parar, golpearam o maquinista Jack Mills com uma barra de ferro e tomaram o segundo vagão, que transportava os valores. Passando a grana de mão em mão, levaram £$ 2,6 milhões em dinheiro vivo, o equivalente a £$ 46 milhões ou R$ 158 milhões, a serem repartidos igualmente. Aí começa a polêmica porque todos fugiram sem que nenhum passageiro do trem notasse o assalto. Funcionários do correio que seguiam a bordo do vagão com os valores chegaram a ser amarrados e amordaçados e quase nenhuma pista conseguiram passar. Tudo foi feito com tamanha precisão que fez o episódio se tornar um caso lendário. Depois, um julgamento à revelia, condenou os integrantes da quadrilha a 30 anos de prisão e a uma série de fugas espetaculares aumentando o interesse popular na história. Diversos documentários foram produzidos e em um deles o ex-ladrão, parceiro de Biggs no assalto, Gordon Goody, contou que havia um informante “The Ulsterman” e este teria garantido o sucesso da ação.

 Aos poucos a crônica policial foi transformando os bandidos em heróis e o público passou a vibrar a cada aparição na mídia de figuras como Ronald Biggs, que fugiu para o Brasil e foi descoberto aqui em 1974, pela Scotland Yard.  Ele estava casado com uma dançarina brasileira chamada Raimunda Castro, com quem teve um filho e, de acordo com as leis do Brasil, a criança garantia a ele o direito de permanecer no país.

Em 2001, entretanto, após sofrer um derrame, Biggs decidiu por vontade própria se entregar à polícia de seu país. Ele viajou à Inglaterra em um avião fretado pelo tabloide The Sun que, segundo dizem, pagou a ele cerca de R$ 1 milhão para ter exclusividade na cobertura de seu retorno.  Debilitado e doente pelo derrame, Biggs morre aos 84 anos, sem quase ficar preso. Ao chegar na Inglaterra foi solto logo depois por estar debilitado e passou seus dias em um asilo onde se internou em 2009, após obter liberdade por compaixão das autoridades britânicas, devido a seu delicado estado de saúde. 

Segundo pesquisadores do caso, o assalto já deu origem a pelo menos 27 livros, 17 documentários de TV e a quatro longas – metragens. Em março deste ano, o funeral de Bruce Reynolds, o chefe da gang, virou uma espécie de celebração ao crime considerado perfeito. Naquele dia Ronald Biggs compareceu à cerimônia fúnebre em cadeira de rodas e disse aos jornalistas, “não tenho nenhum arrependimento por ter participado do roubo, me sinto é orgulhoso de ter feito parte do grupo, eu estava lá naquela noite de agosto e isso é tudo que eu tenho a dizer.”

ronald biggs no Rio de Janeiro, na praia de copacabana. foto: Carlos Chicarino/AE. 1974.