Republica foi proclamada por disputa de uma mesma dama

Geraldo Nunes

19 Novembro 2013 | 04h12

Apresentamos pela Rádio Estadão no programa Estadão Acervo uma reportagem especial sobre a Proclamação da República baseada em edições do jornal “A Província de São Paulo” que noticiou aqueles acontecimentos em 1889.  Na edição do dia 16 de novembro, um sábado, é publicada a manchete de página inteira “Viva a República”. Manchetes não eram comuns naquele tempo e na página 2 a informação, “… recebemos hontem o seguinte telegramma: Foi proclamada a republica no Brazil. Consta que o governo será organisado com o general Deodoro e Quintino Bocayuva… a republica significa a paz, o progresso e a civilisação… Nunca uma republica foi proclamada com tanto brilhantismo e em tanta paz…”

http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/18891116-4373-nac-0002-999-2-not

 Na mesma reportagem colocamos trechos de uma entrevista concedida pelo jornalista Laurentino Gomes, autor de “1889” título do livro dele que fala dos bastidores do império e os motivos que levaram os republicanos de ideais civis, como o da liberdade do voto e a participação do povo nas decisões, a ingressar em um movimento golpista comandado por militares como o Deodoro da Fonseca. Entrevistado pelo apresentador Emanoel Bonfim, o escritor conta        que Deodoro nunca foi um republicano convicto, “mas os militares estavam descontentes com o tratamento dado pelo governo que havia congelado os soldos e diminuído os efetivos”. Ele entende que a ideia inicial era simplesmente depor o gabinete do primeiro – ministro, Visconde de Ouro Preto, em 15 de novembro de 1889, “mas ao final acabou sendo dado um golpe de estado pondo fim definitivo à monarquia no Brasil”.

 Para o escritor o que levou Deodoro mudar de ideia foi uma antiga contenda de amor. “Na madrugada do dia 16, quando o marechal soube que o novo primeiro – ministro seria o senador Gaspar da Silveira Martins, se decidiu a proclamar a república”, explicou informando que os dois haviam disputado o coração de uma mesma mulher, a Baronesa de Triunfo, uma gaúcha fazendeira, muito bonita, com idade em torno dos 40 anos e Silveira Martins levou a melhor na disputa. “O marechal Deodoro inconformado, preferiu destituir Dom Pedro a ver seu rival à frente do governo”, concluiu Laurentino Gomes considerando a baronesa uma espécie de “madrinha anônima da república”.

 “A Província de São Paulo”, entretanto, já estampa no dia 16 a proclamação da república porque, como diz o texto, houve um telegrama informando a decisão e só depois o jornal foi para a gráfica. Deodoro, portanto, não poderia ter tomado sua decisão na madrugada seguinte.

No dia 20 de novembro de 1889, uma quarta-feira, o jornal noticia o embarque de Dom Pedro e toda sua família para o exílio com uma declaração dele que desabafa ao dizer que reinou durante 50 anos e “consumi-os em administrar maus governos, estou cansado, tudo isso foi uma surpresa para mim, não sabia de nada”. O jornal também conta que ao deixar o país o ex- imperador recebe cinco mil contos oferecidos pelo governo provisório, “para o estabelecimento de Pedro de Alcântara e sua família no estrangeiro”. A surpresa dele dá a entender que ao não esperar a destituição, contava apenas com a queda de mais um gabinete e não a mudança completa de regime.

http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/18891120-4387-nac-0001-999-1-not

 Nesta mesma edição o jornal informa também que os vereadores paulistanos davam início à mudança nos nomes das ruas com motivos ligados à monarquia. A Rua do Imperador passava a se chamar Marechal Deodoro; Rua da Imperatriz – 15 de Novembro; Rua da Princesa – Benjamin Constant, Rua do Príncipe – Quintino Bocaiúva e Rua Conde D’Eu – Rua Glicério. O Largo 7 de abril passaria a se chamar Praça da República. Todos esses logradouros paulistanos permanecem com essa nova denominação até hoje e apesar das festividades, o regime republicano no Brasil nasceu cheio de contradições e muito mais autoritário que a monarquia.