Reflexões masculinas sobre o dia internacional da mulher

Geraldo Nunes

10 Março 2014 | 04h26

Houve tempo em que algumas feministas faziam um discurso na contramão dos homens e combatiam o machismo com atitudes do tipo “olho por olho – dente por dente” numa espécie de machismo às avessas. Este modo de ser feminino remota à década de 1960, época da “queima de sutiãs” e o desprezo ao batom, ao salto alto e à maquiagem. O tempo passou e as mulheres refletiram: feministas sim, mas sem deixar de ser feminina.

Aqui na Rádio Estadão a produtora Valéria Rambaldi promoveu uma pesquisa sobre acontecimentos relacionados ao Dia Internacional da Mulher, tendo como ponto inicial aquele 8 de março 1857 conhecido por quase todos, sobre as operárias de uma tecelagem, em Nova York, que fizeram uma greve sendo reprimidas com violência. Naquele dia todas as funcionárias foram trancadas dentro da fábrica que foi incendiada e  aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano.

Passados mais de 150 anos a mulher ainda enfrenta uma situação de desigualdade como salários mais baixos que os homens no exercício da mesma função, o exercício obrigatório de uma dupla jornada para ganhar o sustento e depois cuidar da casa, etc.  

No acervo digital de O Estado de S. Paulo, nossa produtora encontrou reportagens sobre manifestações alusivas ao dia da mulher de 1982, onde na edição do dia 9 de março, um sábado, o jornal O Estado de S. Paulo publica uma matéria informando sobre as manifestações ocorridas no mundo em prol da mulher. No Brasil multidões saíram em passeatas exigindo rapidez do governo na realização de estudos visando a implantação de programas de planejamento familiar e o fim da discriminação no trabalho, da opressão sexual, da violência física e pedindo a construção de mais creches, temais ainda recorrentes.

A cantora Elis Regina havia morrido em janeiro daquele ano e durante as manifestações homenagens foram feitas a ela. Em São Paulo cerca de 800 mulheres saíram da Sé em passeata e seguiram pela Rua Direita passando pelo Viaduto do Chá até a Praça Ramos cantando Maria, Maria, um sucesso de Elis.  Deve ter sido lindo ouvir uma multidão de vozes femininas cantando, “…uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta…”  Perguntada na reportagem sobre os motivos da homenagem à cantora, a então presidente da Federação das Mulheres Paulistas explicou que Elis comparecia e dava apoio aos movimentos feministas.

Pesquisando outros acontecimentos para ilustrar com informações o nosso programa de rádio, Estadão Acervo, a produtora levantou informações da publicação de 1963 da norte-americana Betty Friedan, autora do best-seller, “A Mística Feminina”, onde sugere a igualdade de direitos entre mulheres e homens de forma contudente. Na obra, Friedan critica a aceitação oprimida de certas mulheres ao assédio dos homens nos ambientes sociais e faz eclodir o movimento feminista causador do “Bras-Burning”.

A 7 de setembro de 1968 ocorre um protesto com cerca de 400 ativistas do Movimento de Liberação da Mulher em Atlantic City, contra o concurso de escolha da Miss América. Para chamar a atenção da sociedade que a escolha de uma americana bonitinha para representar o país em concurso de beleza internacional era uma forma de opressão à mulher, as ativistas colocam no chão da calçada em frente ao teatro onde se realizava o concurso, vários sutiãs, sapatos de salto alto, cílios postiços, sprays de laquê, maquiagens, revistas de moda, espartilhos, cintas e outros itens femininos.  Aí alguém sugeriu que tocassem fogo, mas isso não aconteceu naquele dia, porém criou-se o mito da “queima de sutiãs”.  É verdade que depois sutiãs foram queimados em vários cantos do mundo, mas o novimento que gerou o conhecido por “Bras – Burning” foi esse de 1968.  A Organização das Nações Unidas – ONU, reconhece em 8 de março de 1975, o Dia Internacional da Mulher, dando projeção à data e o assunto mulher passando a ser mais discutido, especialmente no Brasil.

Problemas ainda existem embora muito tenha sido conquistado graças às campanhas do dia da mulher, entre elas o fato de ter despertado nos homens o sentimento de respeito não só à mãe ou à musa, mas a toda mulher que poderia ser a sua irmã, a sua esposa e companheira dos bons e maus momentos.

A maioria das mulheres ainda sonha com a maternidade, boa parte  consciente da necessidade do planejamento familiar, valorizando deste modo o sentido feminista e feminino. Daí a importância do Dia Internacional da Mulher também para elas porque veio para não abolir o batom, nem o salto alto e nem a maquiagem garantindo à mulher aquilo que ela tem de melhor que é o fato de ser encantadora.