Quem souber pode me ajudar a explicar o Brasil

Geraldo Nunes

06 de agosto de 2015 | 07h04

Procuro fazer da programação em meus horários na Rádio Estadão um espaço para que todos interajam e façam perguntas sobre todos os assuntos e os ouvintes questionam cada vez mais os motivos que levaram a nação a chegar a este ponto de quase insolvência governativa. Perguntam: Se a Polícia Federal trabalha para o governo, porque a Operação Lava – Jato, no momento em que começou a incomodar os integrantes do partido governista, não entrou na política do “abafo” como em tantas outras crises?

Realmente é estranho em país corrupto como o nosso. Tentando explicar, rememorei aos ouvintes que a Operação Lava – Jato começou próxima do início da campanha eleitoral, em março de 2014, para desvendar um grande esquema de lavagem de dinheiro envolvendo a Petrobrás, grandes empreiteiras e políticos.
Durante o ano passado foi discutida e votada uma MP que retirava de militares o comando da PF passando para as mãos dos delegados que evoluíam na carreira MP 657 aprovada pelo Congresso e sancionada pela Dilma resultado na lei 13047.

A partir daí talvez o governo tenha perdido o controle do comando da PF e a queda de braço entre Dilma e Eduardo Cunha ocupou os governistas logo após a eleição. O PT queria como presidente da Câmara, o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) que já havia presidido a casa, com a intenção de se desvencilhar do PMDB que sempre apoiou o governo em troca de cargos e comando de ministérios.

A tentativa, errada por sinal, do ponto de vista político, foi de dar mais poder a partidos aliados menores como PR e PP. O PMDB fechou questão e elegeu Eduardo Cunha (PMDB-RJ) como presidente por saber que ele, ligado a ala dos evangélicos inimigos dos petistas, seria uma pedra no sapato da presidente.

O governo tomou posse e já na primeira semana, Dilma teve problemas por causa do novo Ministro da Educação, Cid Gomes, indicado pelo PR, que se indispôs com os parlamentares chamando-os de “achacadores” sendo imediatamente destituído sendo nomeado um novo ministro fora dos quadros do PMDB, Renato Janine Ribeiro, um educador sem vínculos partidários.

Em seguida surgiu a tal lista do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, que indicaria os nomes dos políticos que estariam no crivo da operação Lava – Jato, entre os quais Eduardo Cunha e o presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-RJ).

Dilma comete mais um erro porque já estava indisposta com o presidente da Câmara e aí se indispõe com o presidente do Senado também. O ministro da Justiça conversa com representantes da Polícia Federal. Ao sair do encontro, o ministro Cardoso diz que não iria interferir no andamento das investigações. A Lava – Jato prosseguiu culminando na prisão de José Dirceu com Eduardo Cunha levando adiante sua fúria indomável contra os que o acusam de envolvimento em propinas.

O governo para fechar o caixa no azul em 2014 praticou “pedaladas fiscais” e se o Tribunal de Contas da União, em futuro próximo, vetar as contas de Dilma, fatalmente surgirão motivos para se pedir o impeachment. Entendo que seria melhor para a Dilma renunciar, mas o orgulho a impedirá de fazer isso porque se continuar irá somente administrar crises até o final de seu governo. Michel Temer já propõe um “chamamento” à nação para que o país volte a funcionar. A economia pode parar como já há uma porção de obras públicas paradas também.

Para o ex-presidente Lula, nada mais será como antes. Numa eventual nova eleição terá que enfrentar agora o PMDB frente a frente com candidato próprio, especialmente se Michel Temer por algum motivo vier a assumir. Quanto ao PSDB? Bem, como sempre em cima do muro esperando os acontecimentos para se posicionar, disputar a eleição e mais uma vez chegar ao segundo turno e perder. Se alguém tiver algo a acrescentar tem aqui espaço aberto. Assim me ajuda a explicar esse Brasil sem solução.

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