O sonho de uma estátua para São Paulo no Pico do Jaraguá

Geraldo Nunes

09 Fevereiro 2015 | 03h56

Sonhar com uma estátua para São Paulo que possa ser vista como o Cristo Redentor no Rio de Janeiro, é um direito de todo paulistano.

O Pico do Jaraguá é o marco zero do bandeirismo e berço do ciclo do ouro no Brasil, porque as primeiras 900 arroubas de ouro enviadas da então colônia até Portugal, partiram de território paulista sendo boa parte desse ouro extraído das terras do Jaraguá cujo proprietário era Afonso Sardinha, considerado o pioneiro na descoberta de minas de ouro, prata e ferro no Brasil, cuja data remonta a 1589.

Sardinha foi minerador, lavrador de cana de açúcar e soldado que pegou em armas para defender suas terras e ao mesmo tempo em que escravizava índios, Afonso Sardinha dominava imensa propriedade que se estendia, de parte do atual bairro do Butantã até Guarulhos, mas a sede da fazenda ficava às margens do Jurubatuba, que é o Rio Pinheiros de hoje, na altura da Ponte Cidade Universitária. A palavra Jaraguá, em tupi, significa “Senhor do Vale” e, dizem os cronistas, a tradução é extremamente apropriada porque realmente com 1130 metros de altura, o Pico do Jaraguá domina toda a região em sua volta e serviu durante séculos de marco das distâncias aos bandeirantes que partiam da São Paulo de Piratininga rumo ao desconhecido sertão. “Avistá-lo na volta era algo ansiosamente aguardado, representava o indicativo para aqueles viajantes o retorno às suas famílias, meses depois de terem partido”, explicam historiadores.

Por tudo isso o Pico do Jaraguá é estreitamente ligado às tradições de São Paulo e um antigo morador de Pirituba defende a ideia de se construir um memorial para São Paulo Apóstolo no Alto do Pico Jaraguá. Fui procurado tempos atrás na redação da Rádio Estadão pelo Sr. Wilson Alves de Castro, que se apresentou como sendo memorialista e escritor por ter publicado o livro, “Morro do Jaraguá – O Senhor dos Vales” onde além de contar a história desse lugar sugere um projeto de construção para a estátua a São Paulo. “O acesso ao monumento se dará pela estrada turística ali existente e a obra terá três andares, com um templo ecumênico, saguão de acesso a um elevador interno, sala de máquinas e centro administrativo”.

O lugar proposto por Wilson ainda está ocupado por torres de TV que estão desativadas e também há antenas parabólicas e de emissoras FM, mas ele entende que agora a obra já é possível porque os transmissores se mudaram definitivamente para a Avenida Paulista e as torres reservadas para uma situação de emergência podem ser retiradas sem prejuízo às emissoras ou ao telespectador.

Wilson Alves de Castro me disse que esteve no Palácio dos Bandeirantes e entregou ao governador Geraldo Alckmin seu projeto depois de uma solenidade. “Depois, o Alckmin visitou o Parque Estadual do Jaraguá, mas nunca obtive do governo uma resposta sobre a aprovação ou não da proposta”, explicou.

A primeira ideia para a implantação de um monumento no Jaraguá foi apresentada a Adhemar de Barros que encaminhou a competência da obra à “Comissão Organizadora dos Festejos do IV Centenário da Cidade de São Paulo” que chegou a estabelecer como data de inauguração o dia 25 de Janeiro de 1954, sendo transferida depois para a festa dos 160 anos da cidade, em 1964. “Os anos se passaram e os trabalhos não seguiram à frente”, escreve Castro salientando que a proposta estabelece uma estátua a São Paulo Apóstolo com 54 metros de altura para “servir de identidade e cartão postal à cidade e Estado de São Paulo em amplitude superior ao Cristo Redentor, cuja altura é 33 metros.”

No livro “Morro do Jaraguá – O Senhor dos Vales”, lançado por iniciativa independente, Wilson Alves de Castro declara seu sonho com um monumento para São Paulo Apóstolo, acrescentando que “no Pico do Jaraguá ele poderia ser visto de vários pontos da cidade, enaltecendo o orgulho de quem é cidadão paulistano”. Depois dessa visita onde me deixou vasto material não mais o avistei, mas ouvintes me disseram que o sonho permanece.

O nome Jaraguá aparece também como bairro vizinho a Pirituba e ao Parque São Domingos. Quanto a Pirituba, existem duas versões que explicam a origem do nome. Em tupi, “piri” significa taboa e “tuba” igual à grande quantidade. Na região existia uma lagoa que os índios chamavam de “Pirituba” e nela existiam taboas em grande número. Para quem não sabe taboa é uma planta do brejo, ou seja, na versão para o português, Pirituba igual a “muitas taboas”. A lagoa e o brejo, resultantes de um dos braços do rio Tietê que passava próximo, daí o brejo e a lagoa de Pirituba.

A localidade surgiu no século XIX do loteamento dos terrenos de fazendas onde antes e plantava café. Com grande influência política esses fazendeiros se beneficiaram com as estações de trens da região onde embarcavam suas mercadorias que se destinavam ao Porto de Santos pela antiga Estrada de Ferro São Paulo Railway.

Pirituba teve um dos primeiros times de rugby do Brasil. Há uma forte tradição em beisebol, sendo o distrito de São Paulo com o maior número de praticantes não – nipônicos deste esporte tradicional.
A região também tem duas aldeias indígenas, Tekoa Ytu e Tekoa Pyau, chefiada pelo cacique Fernandes. Pirituba nasceu a partir de uma fazenda adquirida pelo coronel Anastácio de Freitas, que veio a ser comprada posteriormente pelo brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar e a Marquesa de Santos.

Em 1917 a fazenda foi adquirida pela Companhia Armour, e a área destinada à criação de gado de corte foi adquirida pela Companhia City, que urbanizou esta região onde hoje está o Alto da Lapa. A sede da fazenda ainda se encontra de pé e pode ser vista por quem trafega pela Marginal do Tietê sentido Castelo Branco, proximidades da ponte de acesso à Via Anhanguera. Pirituba ainda é um polo industrial da cidade, com várias empresas instaladas, residências e agora um grande número de edifícios sendo construídos.

Possui um dos clubes holandeses mais tradicionais de São Paulo, a Casa de Nassau, e no decorrer dos tempos sofreu influência de colônias de ingleses, de russos e de italianos que vieram trabalhar nas indústrias da região. O distrito é cortado pela linha A da CPTM, da antiga Santos-Jundiaí.