O Dia de Finados e as lembranças de Santo Antoninho no Cemitério da Consolação

Geraldo Nunes

31 de outubro de 2014 | 04h32

Conheci o professor de memória cemiterial, Délio Freire Santos que também administrou o Cemitério da Consolação e por gostar de história, ele atendia às pessoas que visitavam o lugar interessadas em conhecer detalhes dos túmulos onde repousam figuras ilustres dos séculos XIX e XX, visto que o Consolação é o mais antigo cemitério da cidade. Ali estão obras de arte de rara beleza, feitas por artistas de renome como Victor Brecheret e Francisco Leopoldo e Silva, entre outros.

Quem visita o Consolação se dá conta da importância dos cemitérios para o estudo do crescimento e da transformação da cidade.  Um dos túmulos mais visitados é o de dona Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos que morreu em 1869. Antes, fez benemerências, entre outras, acolher em sua casa o poeta Álvares de Azevedo, estudante na Academia de Direito, vítima de uma violenta febre. Foi a marquesa quem doou o dinheiro para a  construção da capela do Cemitério da Consolação, inaugurado oficialmente em 10 de Julho de 1856, durante uma epidemia de varíola que atingiu São Paulo. Por ter sido amante de Dom Pedro, a marquesa é figura ainda hoje controversa, talvez por isso seu túmulo seja um dos mais procurados pelos visitantes e receba muitas flores.

O ex-presidente da República Washington Luiz e o fundador da Faculdade de Medicina, Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho, também repousam no Consolação, entre outros nomes famosos da política como Antonio Agu, fundador de Osasco e de industriais, como o Conde Matarazzo. Mas entre os túmulos mais procurados ainda está o do menino Antoninho da Rocha Marmo, ou Santo Antoninho, como também é chamado. Sua localização é nos fundos do cemitério, para os lados Rua Mato Grosso.

Era um menino religioso, que sofria de bronquite e por causa disso não saia à rua. Em sua inocência, colocava várias imagens de santos no parapeito da janela da casa onde morava, Rua Machado de Assis, no bairro da Aclimação e ficava rezando em voz alta para chamar a atenção das outras crianças para que o ouvissem. Um senhor que o conheceu também menino, Waldomiro Franco, me disse que o via com curiosidade porque os adultos diziam que todos deveriam ser religiosos como ele e “de fato sabia rezar como um adulto”, explicou.

Antoninho morreu com 12 anos de idade, e sua morte comoveu a todos. “Foi então que muitas pessoas começaram a rezar no túmulo dele e passaram depois a chamá-lo de santo porque eram muitas as pessoas que recebiam graças e a fama do menino santo Antoninho se espalhou por vários lugares, contou Waldomiro. O contabilista Antoninho Marmo Trevisan, nascido em Ribeirão Bonito, no interior paulista, tem esse nome pelo fato de sua mãe ter feito uma promessa que daria o nome do novo santo se seu filho nascesse saudável. No túmulo do menino Antoninho, contam os devotos, surgiu uma planta que passou a ser popularmente chamada de “flor de santo Antoninho”, que não é reconhecido pela Igreja Católica, mas que se tornou santo pelo crendice popular e melhor ainda “um santo genuinamente paulistano.”

Antonio da Rocha Marmo nasceu em 19 de outubro de 1918, ano da gripe espanhola e veio ao mundo prematuro. Ele não contraiu a gripe, mas sempre teve a saúde debilitada, contraia doenças facilmente e na idade de ingressar no primeiro ano do curso primário foi impedido de frequentar a escola por estar febril e com sarampo. “Haverá tempo para alfabetizar-se”, recomendou o diretor da escola aos pais de Antoninho, mas o menino morreria analfabeto, tamanha a quantidade de doenças que contraia, uma após outra.O mal que o vitimou, entretanto, foi a tuberculose, fazendo com que a família buscasse outras cidades para seu tratamento como São Roque, São José dos Campos e Campos do Jordão. O menino apesar dos sofrimentos era muito alegre, otimista e demonstrava grande fervor religioso, fazendo com que os adultos vissem nele, um ser dotado de um espírito especial e superior. Morreu em 21 de Dezembro de 1930, sendo sepultado no túmulo número 6 da quadra 80 do Cemitério da Consolação, local onde muitos devotos levam flores diariamente, gratos que são pelos milagres alcançados, graças ao Santo Antoninho de São Paulo.

No Cemitério da Consolação também há histórias policiais. No túmulo de Moacyr Toledo Piza, há uma estátua de mármore de uma mulher nua sentada na posição de um ponto de interrogação. A pergunta que todos fazem ao ver o túmulo que trás essa escultura de Francisco Leopoldo e Silva é: Por que, esse ponto de interrogação?  A explicação envolve uma tragédia amorosa que teria entre Moacyr, um dos mais brilhantes advogados de sua época e Romilda Machiaverni, conhecida nos círculos sociais como  Nenê Romano, uma das mulheres mais lindas de São Paulo, e musa inspiradora de escultores, pintores e poetas.

A presença dela nas recepções iluminava as colunas sociais da São Paulo na década de 1920, despertando paixões e inveja.  Nenê Romano, chegou a ser vítima de um atentado. Alguém cortou seu rosto com um navalha que lhe custou uma feia cicatriz. As principais suspeitas recaíram sobre outra socialite da época, por motivos fáceis de supor. Moacyr Toledo Piza, advogado, foi procurado pela moça para tocar uma ação indenizatória contra a suspeita. Deslumbrado com sua beleza Moacyr apaixonou-se de forma arrasadora o levando a abandonar tudo em nome da linda moça que de sua parte não demonstrava o mesmo interesse no advogado e o tratava em determinados momentos com ares de superioridade irritando os amigos dele que o viam como tribuno dos mais brilhantes. Existem nesse caso versões dando conta que Nenê Romano chegou a humilhá-lo publicamente sem que, no entanto, o advogado se desse por vencido. Moacyr chegou mesmo a recusar um cargo na embaixada no México para não ficar longe dela e a morte dos dois aconteceu em 25 de outubro de 1923.

Romilda deixara uma recepção no Jockey Clube e pediu seu carro onde Moacyr também embarcou levando um buquê de flores. Ao chegar na casa dela localizada na avenida Angélica, com Rua Sergipe, Nenê Romano foi morta com quatro tiros e Moacyr foi encontrado a seu lado com um tiro na cabeça. O que parecia ter sido no princípio um assalto seguido de morte transformou-se num intrincado caso policial que levou os investigadores à conclusão que o advogado praticou o crime suicidando em seguida, fato contestado pelos familiares do advogado. Foram enterrados em lugares diferentes. Por ironia do destino Moacyr, recebeu um túmulo no Consolação até hoje é bem cuidado e protegido, com a referida escultura que chama a atenção dos visitantes. Já a bela Romilda Machiaverni, ou Nenê Romano, está sepultada no Cemitério do Araçá, em um túmulo sem nenhuma decoração. Mas como diz o analista policial Newton Bednarski, “ela está em um lugar mais alto, no espigão da Avenida Paulista e de lá ainda  pode olhar Moacyr no Consolação com ar de superioridade, como fazia em vida, de cima para baixo, ou seja, de olhar em riste.” A morte porém é a maior de todas as anistias e estas são apenas algumas das muitas histórias ouvidas pelos que visitam o Cemitério da Consolação porque há muitas outras mais.

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