Nos 460 anos de São Paulo abaixo Sampa

Geraldo Nunes

14 de janeiro de 2014 | 03h57

A cidade de São Paulo, fundada a 25 de janeiro de 1554, vai completar 460 anos e como se trata de um aniversário com números redondos a comemoração deve ser maior e aí surgem aquelas perguntas da mídia tipo: Qual é a música que mais representa São Paulo? Peço a você que não vote em Sampa de Caetano Veloso.

Respeito Caetano, curto outras músicas dele, mas ele nunca gostou de São Paulo o que é um direito dele, mas não precisa fazer média anunciando que hoje gosta daqui. Ele gosta porque o paulistano lota os espetáculos dele senão, não diria: “Chamei de mau gosto o que vi, de  mau gosto e mau gosto”, e insiste, “porque és o avesso, do avesso…” e só faz ressalvas a Rita Lee. Na hora da enquete dos programas de televisão sugiro que se responda “Trem das Onze”, de Adoniran Barbosa; Ronda, de Paulo Vanzolini; São Paulo da Garoa, de Alvarenga e Ranchinho ou São, São Paulo Meu Amor, de Tom Zé; cuja letra é primorosa, mas a canção geralmente passa esquecida nas enquetes.

Para sua análise irei fazer um um play – list que não é para tocar em nenhuma rádio, só para você apreciar porque há outras canções sobre São Paulo. O pesquisador musical Assis Ângelo mantém um catálogo com centenas  de músicas gravadas de músicas citando nominalmente a cidade ou fazendo alusão a ela. “São Paulo é o lugar mais cantado do Brasil”, diz o Assis, um paraibano que já não se sabe se adotou a cidade ou se foi adotado por ela, de tanto que gosta daqui.  Não faltam curiosidades para se cantar ou se escrever e pelo visto sempre assim.

Tenho lido antigos jornais para a preparação de meu programa, Estadão Acervo, e nas pesquisas reparo que no início do século XX já se reclamava do transporte público, dos bondes que demoravam, da sujeira na rua deixada pelos ambulantes e dos buracos em todos os tempos.

Antes ainda, pesquisando em livros, descobri uma antiga ata da Câmara Municipal publicada em 9 de abril de 1600, determinando que cada morador cortasse o mato e retirasse o lixo existente em frente à sua casa e levasse tudo para lugar bem longe.  Não se determinava um ponto exato de descarte, mas certamente era a margem de algum córrego porque os rios sempre foram encarregados de levar a sujeira para bem longe de nós, sempre foi assim daí a poluição de hoje de nossos rios e córregos.

As reclamações encaminhadas aos vereadores, no limiar do século XVII, davam conta também que alguns mamelucos, filhos não reconhecidos de portugueses com as índias,  perambulavam pela cidade, esparramando tranqueiras algumas que já não tinham uso e jogando o que não prestava na via pública, como fazem hoje alguns carroceiros e catadores de lixo. Coisas assim, causavam ‘espécie’ às famílias bem residentes do burgo de Piratininga.  No dia 6 de maio de 1600, o procurador Simão Ruiz Coelho requeria que o senhor Leonel Furtado não construísse mais casas no Largo da Misericórdia, para que a praça não ficasse tão movimentada de pessoas e se mantivesse o sossego público. Isso mesmo, São Paulo já pedia sossego ao final do século XVI.  

O calçamento das ruas só começou no século XVIII, em 1784, mesmo assim, muito longe do ideal tanto que aos domingos só era permitido passar com carroça pelas ruas centrais após as oito horas da manhã, por causa do barulho causado pelas rodas sobre o pavimento ruim. Problema esse que prosseguiu no século XIX a ponto de August Saint – Hilaire no livro Viagem à Província de São Paulo, escrever que “… as pedras são tão mal colocadas que o barulho de um carro puxado por burros, consegue acordar toda a vizinhança…” Saint – Hilaire aproveita para elogiar as moças paulistanas ao afirmar que “o pisar faceiro das jovens era atribuído, na verdade, às condições das ruas.” Mas Caetano Veloso, no século XX, só prestou atenção na “deselegância discreta de nossas meninas”. Desculpe, deselegante foi ele, aliás, Caetano anda pisando bola também em outras questões. Enfim, não votem em Sampa para nada, essa música faz mal à cidade. E, ainda que você discorde de mim, ousarei dizer “Parabéns São Paulo pelos seus 460 anos!”

Segue um play list improvisado que não é para tocar no rádio. Algumas são conhecida e até manjadas, outras nem tanto. É só para você ouvir, se quiser, canções feitas com carinho e respeito a São Paulo.

1 – Trem das Onze – Demônios da Garoa

http://www.youtube.com/watch?v=XoUtxWU8lW8

 2-  Ronda – Márcia

http://www.youtube.com/watch?v=6ACHKJqFBpw

 3 – São, São Paulo Meu Amor – Tom Zé

http://www.youtube.com/watch?v=SA3RPgbUJ9U

 4 – Sem São Paulo – Edgard Scandurra e Marcelo Jeneci

http://www.youtube.com/watch?v=xGVpG2ov0xw

 5- São Paulo da Garoa – Alvarenga e Ranchinho

http://www.youtube.com/watch?v=fcML1aYPoM0

 6 – São Paulo Terra da Garoa – Tonico & Tinoco

http://www.youtube.com/watch?v=eQ3IRbqjaO4

 7 – Envelheço na Cidade – Ira & Paralamas

http://www.youtube.com/watch?v=Nm8CdzMDH-s

 8 – Oswaldinho da Cuíca – Minha Vizinha

http://www.youtube.com/watch?v=BsWivnneD6A

 9 – Germano Mathias e Roberto Riberti – Tumulo do Samba

http://www.youtube.com/watch?v=fqsfdVu4Ck0

 10 – Fernanda Abreu – São Paulo SP

http://www.youtube.com/watch?v=-DQj6x0i9Zg

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