No dia da “Redentora”, as lembranças de um samba proibido

Geraldo Nunes

31 de março de 2015 | 04h54

“Samba dos Treze Anos”, é uma música de Luiz Ayrão, compositor e cantor de longa estrada que gravou em 1977, uma resposta aos preparativos do governo militar para as comemorações dos 13 anos do golpe ocorrido em 1964, ao qual chamavam de “Revolução” ou ainda de “Redentora”.

“Sempre houve a mística sobre o número 13 que o técnico Zagallo dizia dar sorte em vez de azar”, conta Ayrão informando que, no entanto,a censura da época percebeu e decidiu vetar sua música.

Milhares de discos do artista, que já estavam nas lojas de todo o país, tiveram que ser recolhidos e a gravadora EMI-Odeon precisou quebrá-los e derreter o “vinilite” para refazer tudo, excluindo a faixa vetada, um tremendo prejuízo.

O autor quem sabe, por um lampejo, decidiu trocar o título da música proibida para “O Divórcio”, em vez de “Samba dos Treze Anos”, para assim quem sabe driblar os censores em um próximo lançamento, fazendo alusão a um tema de separação de casais treze anos depois da união.

A letra seria novamente submetida aos censores mas em outra câmara avaliadora e esta, felizmente, não percebeu a artimanha e deixou passar. Mas, segundo o Dr. Cláudio Júlio, morador em Brasília e advogado à época da maioria dos artistas visados pela ditadura, a letra foi parar na mão do então Ministro do Exército, General Bethlem, que ficou irado e proibiu definitivamente a divulgação pelo rádio ou em televisão.

Fernando Belfort Bethlen, foi Comandante do III Exército, entre 11 de agosto de 1976 e 11 de outubro de 1977. Nesse período, eclodiu uma crise que culminou com a demissão do então ministro, general Sílvio Frota, pelo presidente Ernesto Geisel, em 12 de outubro de 1977.

Mesmo havendo redigido um manifesto dias antes onde defendia a linha dura, em sintonia com Frota, foi convidado a substituí-lo, permanecendo no cargo de Ministro do Exército, até o final do governo de Geisel.

Luiz Ayrão lembrou os acontecimentos e nos disse “trinta e oito anos se passaram e a insatisfação com os governantes permanece”. Com ressalva de que felizmente não há mais censura, pelo menos até agora, Ayrão confirma que treze é um número cabalístico, tanto que “oferece” sua música agora liberada ao atual partido do governo, cujo número é o mesmo.

Segue a letra abaixo e quem quiser ouvir a gravação, deve entrar no Youtube e colocar na rechteg: Luiz Ayrão – Samba dos Treze Anos.

O SAMBA DOS TREZE ANOS (O DIVÓRCIO)

Treze anos eu te aturo
Eu não aguento mais
Não há “cristo” que suporte
Eu não suporto mais
Treze anos me seguro
E agora não dá mais
Se treze é minha sorte
Vai, me deixa em paz!
Você vem me enclausurando
Como Alcatraz
Você vem me infernizando
Como satanás
Você vem me sufocando
Como o próprio gás
Ainda vive me gozando
Assim jé é demais
Você vem me tapeando
Como um pente-fino
E vem me conversando
Como a um bom menino
E vem subjugando
O meu destino
E vem me instigando
A um desatino
Um dia eu perco a timidez
E falo sério
E faço as minhas leis
Com o meu critério
Eu vou para o xadrez
Ou cemitério
Mas findo de uma vez
Com seu império.

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