Nheengatu: a língua geral dos povos do Brasil colônia

Geraldo Nunes

20 Agosto 2014 | 06h14

Imagine as caravelas de Cabral se aproximando de uma praia com pessoas inteiramente nuas, curiosas, inocentes, presenciando a chegada daqueles homens grotescos com roupas pesadas e olhar assustado. A princípio alguns dos descobridores acreditaram estar chegando ao paraíso, pois a descrição a Adão e Eva nos textos bíblicos era bem parecida. A notícia se espalhou pela Europa a ponto da Inquisição promover a chegada dos jesuítas para “catequizar” aquela gente sem pecado.

A princípio foi difícil para os padres europeus entenderem os indígenas, mas depois com a escravidão de índios de várias etnias e mais a presença do europeu surgiu uma língua geral das misturas de tantas pronúncias, esta língua é o nheengatu cujo nome foi utilizado pela banda de rock Os Titãs, para batizar seu novo álbum cuja capa ostenta a pintura de 1563 da Torre de Babel, do belga, Pieter Brueghel, em 1563. “O nheengatu é uma língua que se originou entre os povos da Amazônia, especialmente pela presença de holandeses e franceses, mas nos Estados do sul também surgiu uma língua geral paulista que influenciou o dialeto caipira praticado entre os séculos 19 e 20”, explica o professor de línguas indígenas da Universidade de São Paulo, Eduardo Navarro, acrescentando que “ao pé da letra a palavra nheengatu, significa língua boa”.

Em Gênesis, capitulo 11, a Bíblia diz que a confusão entre as línguas dividiu os homens que construíam a Torre e Babel. “Daí o apelo musical dos Titãs ao nheengatu, sugerindo uma forma subjetiva para o entendimento da sociedade brasileira hoje”, entende o professor que comenta ainda o modo ruim de falar do povo paulista, que no princípio do século 19 colaborava para a cidade de São Paulo ser considerada um dos lugares mais atrasados do Brasil. “Quando Dom Pedro I decidiu implantar os cursos jurídicos em Olinda e São Paulo, uma parte da corte reclamou, dizendo que São Paulo não merecia ter uma faculdade de direito porque sua população era muito ignorante”, diz o professor Navarro citando exemplos de erros que os caipiras cometiam e que se repetem até hoje. “Ainda há pessoas que não conjugam corretamente os verbos e pronunciam ‘nós vai’, ‘eles vai’, etc. e também alguns que esquecem de  pronunciar o plural, soltando coisas do tipo ‘um real’, ‘dois real’ e por ai adiante”.

O professor da USP, Eduardo Navarro conclui que esses erros de pronúncia são resultado ainda da influência da língua geral paulista surgida do tupi antigo misturado a outras linguagens. O nheengatu foi falado durante séculos em toda a região amazônica, mas a partir do ciclo da borracha houve a chegada dos nordestinos que falavam o português e não a língua geral. Hoje cerca de 170 línguas indígenas ainda são pronunciadas no Brasil, entre elas o xavante e o yanomami, além do nheengatu, falado por cerca de seis mil pessoas na região do Rio Negro em meio urbano, como em São Gabriel da Cachoeira, maior cidade ribeirinha depois de Manaus,  que no caso lembra o Paraguai, onde a língua guarani também é falada no meio urbano, inclusive na capital do país, Assuncão.

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