Morre Antonio Ermírio, gigante e humilde

Geraldo Nunes

25 de agosto de 2014 | 05h58

Noticiei na Rádio Estadão no início da madrugada desta segunda-feira, 25 de agosto de 2014, a morte de Antonio Ermírio de Moraes de quem comecei recordar antigas passagens, como no dia em que o conheci pessoalmente, na sede do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, ainda hoje localizado na Rua Benjamin Constant, entidade à qual era colaborador como em tantas outras. Naquela oportunidade lá estava ele para prestigiar o lançamento de um memorial em homenagem aos heróis da Revolução de 1932, criado nas dependências do instituto.  Ele sentou-se ao lado de Esther de Figueiredo Ferraz, primeira mulher a ser ministra de Estado e do poeta Paulo Bomfim de quem foi colega de escola no curso primário. O poeta lembrou alegremente da primeira professora que ao revê-los, já adultos, numa tarde de autógrafos, reclamara da caligrafia deles, segundo ela, “com muitos garranchos”, recomendando que “voltassem a escrever com capricho”. Naquele dia o Dr. Ermírio soltou-se e riu a valer recordando aqueles bons momentos da infância.

Antonio Ermírio nasceu  sem um rim e isso o ensinou a ser cuidadoso com a saúde e não abusar. Formou-se em engenharia metalúrgica em 1949, na Colorado School of Mines, mesma universidade que o seu pai, José Ermírio de Moraes que comprara as ações de uma empresa de tecelagem localizada na cidade de Votorantim, em São Paulo, que pertencia ao seu sogro, o imigrante português António Pereira Inácio, diversificando o negócio e criando assim o Grupo Votorantim, em homenagem à cidade onde tudo começou.  Sua mãe, Helena Rodrigues Pereira, nasceu em Boituva – SP e teve com o pai José Ermírio, quatro filhos, dos quais Antônio Ermírio foi o segundo.

Antonio Ermírio de Moraes, por sua vez, casou-se em 1953 com Maria Regina que lhe deu nove filhos. Na década de 1950, sua família foi taxada de louca por querer concorrer com os grandes produtores de alumínio, Alcan, Alcoa e Vale, fundando a Companhia Brasileira de Alumínio que de início produzia apenas 4 mil toneladas ano. Cinquenta anos depois produziriam 400 toneladas ano.  Certa vez visitando uma unidade do grupo Antonio Ermírio sofreu um acidente sendo queimado por soda cáustica e precisou ficar um mês de cama. Isso o ajudou a compreender o sentimento que passa pela cabeça de um trabalhador vítimas de uma situação parecida. Sensível, escolheu para sede do grupo o antigo prédio que abrigou o Hotel Esplanada, atrás do Teatro Municipal. Costumava ir de condução ao trabalho e caminhava a pé pelas ruas do dentro não ostentando relógios nem roupas caras e dispensando os seguranças. Esbanjava humildade com sua maneira simples de conversar e seu raciocínio rápido. Não temia ser sequestrado e ao que me parece isso de fato nunca ocorreu. Cansado de esperar uma solução para o abandono do conjunto de esculturas em torno do municipal e no belvedere do Anhangabaú, decidiu providenciar por conta própria a recuperação e limpeza das estátuas.  Apesar do Grupo Votorantim possuir um banco, Ermírio foi  um crítico do sistema financeiro e disse certa vez: “Se eu não acreditasse no Brasil, seria banqueiro.”

Assim como o pai, aventurou-se na política , se lançando candidato ao governo do Estado de São Paulo em 1986, por uma coligação que reunia três partidos ( PTB, PL e PSC ). Perdeu a eleição para Orestes Quércia, do PMDB, em uma época em que não havia segundo turno. Depois da campanha eleitoral se disse chocado com as manobras políticas e fisiológicas, todos que o abordavam pediam cargos para depois, segundo ele, “poder ficar sem trabalhar”.

A frustração com a política o levou a escrever peças teatrais, porque dizia “a política é o maior de todos os teatros”.  Colocou três encenações em circuito comercial; Brasil S.A., Acorda Brasil e S.O.S Brasil. Todas as peças acabaram virando livro, a peça “Acorda Brasil” foi vista por 26 mil pessoas.  O empresário sempre dedicou parte de seu tempo no apoio administrativo à Sociedade Beneficência Portuguesa de São Paulo , entre outras organizações.

Em 2001 deixou a presidência do conselho de administração do Grupo Votorantim e entregou o comando do conglomerado aos filhos e sobrinhos.  Com a idade passou a desenvolver o Mal de Alzheimer e embora uma nota de Grupo Votorantim tenha confirmado sua morte na noite de 24 de agosto de 2014, a causa do falecimento não foi divulgada. Antonio Ermírio de Moraes entra para história como um empresário gigante de coração humilde.

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