Mário de Andrade canta na Rádio Estadão

Geraldo Nunes

04 Maio 2015 | 05h09

Mesmo quem não conviveu com Mário de Andrade, falecido há 70 anos, pode agora saber como era sua voz e isso se deve a um disco de alumínio encontrado na Universidade de Indiana nos Estados Unidos, que reproduz em seis músicas cantadas em português e sem acompanhamento uma parte da pesquisa sobre cantigas folclóricas que o autor de Macunaíma desenvolveu durante a década de 1930.

Mário canta três músicas, entre as quais uma canção de mendigos, enquanto Raquel de Queiroz, outra escritora renomada, canta mais três, havendo uma canção que aprendeu com um palhaço de circo no Ceará. Também na gravação aparece a voz de Mary Pedrosa, então casada com o crítico Mário Pedrosa, em um encontro no Rio de Janeiro, em julho de 1940.

A descoberta foi anunciada em 18 de abril último, pelo Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo – USP, através do pesquisador Xavier Vatin, que obteve as gravações com um professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia que mantém correspondência com Indiana – USA.

As gravações foram feitas pelo linguista norte-americano Lorenzo Turner na época em que Mário de Andrade estava morando no Rio. Em Catolé da Rocha, cidade do interior do Nordeste, Mário de Andrade recolheu uma canção que os mendigos cantavam que se chama, “Deus lhe pague a Santa Esmola.” A outra canção ter por nome “Zunzum” e sempre foi muita cantada nos festejos de roda no interior de Minas Gerais, embora se trate de uma canção inserida em uma peça teatral do século 18, cuja letra diz “… como pode um peixe vivo viver fora da água fria…” “…como poderei viver sem a sua companhia…” Portanto não se trata de uma canção folclórica, como Mário atribuía. Outra música na voz dele é “Toca Zumba”, composta por Gomes Cardim após a Abolição.

Raquel de Queiroz foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, em 1976. Natural de Fortaleza, foi amiga pessoal de Mário de Andrade e o recebia costumeiramente em sua casa no Rio de Janeiro quando da permanência do poeta na então capital do Brasil.

Falecida em 2003, Raquel de Queiroz interpreta no disco a melodia que se chama “Aribu” e ainda “Tava Muito Doentim”, colhida por Ascenso Ferreira e Mestre Rozendo do folclore pernambucano.

No outro lado desse disco de alumínio, o lingüista Lorenzo Turner grava Mário de Andrade, Raquel de Queirós e Mary Pedrosa em uma rápida entrevista onde respondem às perguntas de um entrevistador, possivelmente Mário Pedrosa. Esse depoimento não deixa dúvida de que se trata mesmo de Mário de Andrade que começa falando de suas pesquisas sobre o folclore brasileiro, não deixando dúvidas que se trata documento sonoro histórico e que até chegar às nossas mãos foi inédito no rádio.

Esse disco em alumínio da Universidade de Indiana – USA roda em 78 rotações por minuto e não teve finalidade comercial e sim acadêmica, daí o fato das músicas serem cantadas sem acompanhamento.
Como se trata de um material raro que a universidade norte –americana disponibilizou na internet, decidimos apresentar em primeira mão aos ouvintes.

Essas gravações foram inseridas na edição 121 do programa Estadão Acervo que vai ao ar pela Rádio Estadão em FM 92,9 ou AM 700 – SP aos sábados 6 hs e 14 hs com reprise aos domingos às 7 hs.
Para ouvir aqui entre nesse link: http://radio.estadao.com.br/audios/detalhe/radio-estadao,ouca-a-integra-do-estadao-acervo,401172