Mário de Andrade: 120 anos de amor a São Paulo

Geraldo Nunes

08 de outubro de 2013 | 02h56

Explicar Mário de Andrade pelo rádio com poucas palavras foi complicado porque ele é poeta, romancista, musicólogo, historiador, folclorista, crítico de arte e fotógrafo tudo ao mesmo tempo e trabalhando de forma criativa e inovadora. Quem nos dias de hoje realiza atividade semelhante?

De fato poucos se comparam a Mário na atualidade, por isso não bastava ao programa Estadão Acervo levar ao ar apenas uma biografia, era preciso saborear os textos que versam sobre o contraditório. Assim sendo usamos vozes que interpretando as poesias e depois transcrevemos o que foi dito no programa para o blog. Assim você poderá ler aquilo que Mário escreveu e que no rádio foi recitado. Por exemplo a Ode ao Burguês, de Paulicéia Desvairada, que retrata os segmentos sociais da São Paulo que ele viveu com os barões do café, os imigrantes endinheirados ou sem dinheiro nenhum e os inúmeros operários. O texto original diz: “Eu insulto o burguês! O burguês-níquel, o burguês-burguês! A digestão bem feita de São Paulo! O homem-curva, o homem – nádegas! O homem que sendo francês, brasileiro, italiano é sempre um cauteloso pouco -a- pouco… Eu insulto as aristocracias cautelosas… eu insulto o burguês funesto!”

 Entre os fundadores do modernismo brasileiro, Mário de Andrade praticamente criou a poesia moderna com a publicação de Paulicéia Desvairada, em 1922.  O livro é composto de 22 poemas curtos, retratando um segmento da vida em São Paulo, para culminar em um longo poema.

“Profundo.  Imundo Meu Coração. . . olha o Edifício!  Os vicios me corromperam  na bajulação sem juros. . . minha alma corcunda como a avenida São João. . .” Ao recitá-los a princípio Mário foi vaiado.  Depois em casa, todos raciocinam melhor, meditam, deglutem as palavras e passam a admirar a poesia de Mário de Andrade que exerceu e ainda exerce influência enorme no modo de escrever de vários autores brasileiros.

“Eu sou a fonte da vida. Do meu corpo nasce a terra. Na minha boca floresce a palavra que será. Eu sou aquele que disse: “Os homens serão unidos se a terra deles nascida for pouso a qualquer cansaço”. Eu odeio os que se amontoam. Eu dei aos esquecidos que não provam desse vinho, o hino das multidões. É deles que nasce a terra. E são a fonte da morte. Força, amor, trabalho e paz. E se o amor se desperdiçar, e se a força esmorecer, e se o trabalho parar e a paz for gozo de poucos. Eu sou aquele que disse: “Eu sou a fonte da vida”. Não conte o segredo aos grandes e sempre renascerá força, amor, trabalho e paz”. (Mário de Andrade em Café – Hino Fonte da Vida)

Mário Raul de Morais Andrade, nasceu em São Paulo, a 9 de outubro de 1893. Seu pai Carlos Augusto de Andrade era jornalista e também escritor. Sua mãe, Maria Luísa de Almeida Leite Moraes de Andrade, entendia de música. Durante sua infância, Mário foi considerado um pianista prodígio e, adolescente, se matricula no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde já estava seu irmão mais novo Renato, também um exímio pianista.

Em 1913, Renato, então com quatorze anos, morre de um golpe recebido enquanto jogava futebol, causando profundo choque na família. O trauma deixa Mário com tremores nas mãos e por esse motivo abandona o piano, voltando-se à literatura e em 1917, publica seu primeiro livro com o título, “Há uma Gota de Sangue em Cada Poema”, sob o pseudônimo de Mário Sobral.

Passa então a escrever artigos para jornais quando surge a polêmica com Monteiro Lobato que faz dura crítica, a Anita Malfatti em artigo no Estadão, deixando Mário indignado.

 Da discussão surgem as iniciativas para a realização da Semana de Arte Moderna, que aconteceria em fevereiro de 1922 para reformular conceitos da literatura e das artes visuais.

A cultura brasileira antes centrada apenas no Rio de Janeiro voltaria suas atenções para São Paulo. As idéias por trás da semana seriam delineadas no prefácio do livro Paulicéia Desvairada escrito pelo próprio Mário e nos poemas. O prefácio não fala do livro, mas sim de uma atitude geral perante a literatura, numa espécie de manifesto poético, em versos livres. “Estou fundado o desvairismo, o meu texto é meio a sério e meio a brincar…” nas palavras do próprio Mário de Andrade.

Convém ressaltar que Paulicéia Desvairada é o primeiro livro que se refere a São Paulo como uma metrópole. Ao mesmo tempo o autor demonstra amor à cidade e a chama de “minha noiva, minha vida”.

Em 1927 Mário viaja pelo norte do Brasil coletando folclore e pesquisando um grande número de lendas e tradições. Lança ali as sementes de Macunaíma, sua grande obra.

“No fundo do mato virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Urariquera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma. Passou a infância a reparar no trabalho dos outros. Nem falar, falava o danado. Vivia entre os banhos no rio e as relações perigosas com a mulher do irmão Jiguê, Sofará. Transformava-se num príncipe e passava horas a brincar com ela. E a qualquer tentativa de fazer o pequeno reagir para a vida logo a frase vinha: ‘Ai, que preguiça’.”

A melhor definição de Macunaíma vem do próprio Mário que o interpreta como um herói que representa o povo brasileiro e por isso não tem nenhum caráter ao explicar. “Esse caráter nada tem a ver com moral. Falta caráter pelo fato de não haver nada que o caracterize, ou seja, o brasileiro ainda é um povo em formação.”

 O livro Macunaíma foi lançado em 1928 e na década de 1930, Mário se torna diretor-fundador do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo, formalizando um papel que ele já vinha desempenhando informalmente como catalisador da modernidade artística na cidade e no país. Mas por questões políticas é afastado e fica profundamente magoado. Logo em seguida é convidado por Gustavo Capanema e aceita convite do Ministério da Educação para atuar no Rio de Janeiro. Ali trava amizade com vários intelectuais entre outros Raquel de Queiroz que se tornaria amiga e confidente, mas Mário não suportava ficar longe de São Paulo e para cá retorna. De volta à sua Paulicéia, Mário de Andrade voltaria a pesquisar o folclore e fez isso até o dia 25 de fevereiro de 1945 quando então se calou como se calam os pássaros, ou seja, no silêncio das madrugadas. Ouça o Estadão Acervo todos os sábados e domingos às 6h00 e às 20h30. Estando em São Paulo sintonize FM 92,9 ou AM 700, ou ainda por este portal clicando no ícone Rádio.