Livro oficial da Revolução Constitucionalista é reeditado

Geraldo Nunes

17 Julho 2014 | 23h32

Com o título Cruzes Paulistas, uma publicação de 1936 promovida na época pela Campanha Pró – Monumento e Mausoléu ao Soldado Paulista de 32 que resultou no espaço construído hoje junto ao obelisco no Ibirapuera, culminou em um livro de honra que registra os nomes e uma pequena biografia de 634 soldados paulistas identificados que morreram na Revolução de 1932.

A compilação iniciada logo após a epopeia constitucionalista ajuda a elucidar fatos daquele acontecimento que aos poucos vai desaparecendo da memória da população. A reedição desse precioso repositório da memória, graças à Imprensa Oficial do Estado, ajuda resgatar a importância histórica desse acontecimento que mobilizou toda uma geração de brasileiros em defesa da causa da democracia.

Fonte documental de relevância para historiadores e estudiosos do assunto, Cruzes Paulistas é, segundo o poeta Paulo Bomfim, “A Bíblia da Revolução!” Daí a ideia de republicá-la. Esta edição facsimile contou com o apoio da Sociedade dos Veteranos de 32 – MMDC e do incentivo do Centro de Memória Eleitoral do TRE-SP e sua reimpressão autorizada pela Thomson Reuters – Revista dos Tribunais.

Em seu contexto os coordenadores do levantamento admitem que possa haver falhas por não constarem ali todos os que morreram nessa guerra civil. Estima-se em aproximadamente mil mortos. “Não obstante o acurado trabalho desenvolvido durante meses se fez constante pedido pela Imprensa e pelo Rádio para a colaboração do povo na indicação de nomes de parentes sepultados após o conflito… mesmo assim seria temerário afirmar que se conseguiu a biografia de quantos heroicamente caíram nos campos e nas trincheiras da luta”, explica o livro.

Já na apresentação a obra retrata passagens do acontecimento histórico ao contar que no último dia de setembro conhecemos a dor da derrota e diz o texto, “… um sentimento de decepção sacudiu a alma de todo o povo. Sofremos. Choramos. Por uns poucos toda a população se sentiu como manietada, incapaz até de uma repulsa à situação… mas os soldados chegavam da fronteira dia a dia, hora a hora, desembarcavam na capital do Estado. Suas almas sangravam. O grito, no entanto, foi ouvido… formou-se a Assembleia que elaborou a nossa Magna Carta. A 16 de julho de 1934 era assinada a Constituição dos Estados Unidos do Brasil…”

Quem compareceu em 8 de julho último à cerimônia promovida pelo Centro de Integração Empresa Escola – CIEE em comemoração cívica à Revolução Constitucionalista de 1932 recebeu gratuitamente um exemplar da publicação. Naquele mesmo dia aconteceria à tarde o fatídico jogo entre Brasil e Alemanha e ainda assim, diante da expectativa de uma partida decisiva de Copa do Mundo, o auditório estava lotado por uma maioria formada por estudantes interessados em entender os motivos da revolução dos paulistas, que se constituiu no maior conflito armado do Brasil no século XX.

Entre os discursos de integrantes da Academia Paulista de História – APH, entre os quais seu presidente, Luiz Gonzaga Bertelli e da Academia Paulista de Letras – APL, foi citada a figura de um paulista que encarnou a angústia do povo e se tornou porta-voz dele na praça pública, Ibrahim Nobre, um jurista e orador que não deixou obra escrita. Quem o conheceu, o considera, porém, o mais apaixonado entre todos os oradores que já se dispuseram a falar sobre as coisas de Piratininga. Ao fazer uso da palavra, o poeta Paulo Bomfim, evocou a figura do jurista contando uma passagem interessante em seu rápido discurso:

“Oito de julho de 1932, no Largo da Sé, o comício fervia indignação. Corria de boca em boca a notícia que Oswaldo Aranha, porta – voz do ditador Getúlio Vargas, encontrava-se em São Paulo, na Vila Kyrial, em Vila Mariana, residência de seu parente Freitas Valle. Os manifestantes enfurecidos saem rumando para esse local. O tribuno Ibrahim Nobre fala a seu amigo Menotti Del Picchia que o acompanhava: – Vamos pegar um carro e ir para lá. No relato que o poeta de ‘Juca Mulato’ me fez, chegaram quando o povo se preparava para arrombar os portões da histórica mansão. Ibrahim sobe numa mureta e encostando o revolver na têmpora brada: – Paulistas, se vocês mancharem as mãos num gesto de covardia eu me mato de vergonha! A multidão que o venerava, respeita sua voz e pouco a pouco vai se dispersando. O orador com aquele gesto salvara a vida do inimigo político. Anos mais tarde indaguei a ele o que haveria acontecido se sua ordem não fosse cumprida. E ele me diz: – Eu teria me matado, porque há passos que não tem retorno. Esse era o Ibrahim que quando promotor, a partir de 1930, bradava no Tribunal do Júri: Eu acuso a ditadura! Plantava-se no Palácio da Justiça a semente da revolução que lutaria pela lei e pelos brios de nossa gente.” Foram essas as palavras de Paulo Bomfim, largamente aplaudido.

Na cerimônia promovida pelo CIEE foram entregues aos profissionais da mídia e apoiadores da causa constitucionalista duas honrarias, o colar Carlos de Souza Nazareth e a medalha Hernâni Donato. Sobre o patrono da medalha, lembramos na oportunidade que ele é autor de vários livros sobre este movimento, em especial “Breve História da Revolução Constitucionalista de 1932”, verdadeiro documento de lembranças daqueles acontecimentos. Em nosso breve discurso fizemos questão de mencionar as mulheres residentes em São Paulo, em número acima de 100 mil, que ofereceram serviços às organizações de apoio, como por exemplo, na costura dos uniformes dos voluntários e na confecção de agasalhos, pois o inverno de 1932 foi dos mais rigorosos, além dos trabalhos de enfermagem. Foram mais de 440 mil fardas confeccionadas de graça, com as costureiras se revezando em turnos diurnos e noturnos à frente de 800 máquinas de costura sob os auspícios da Associação Comercial de São Paulo e da Indústria, na cruzada cívica de 1932, salientando aos jovens presentes que quando pensamos nos dias de hoje em transparência na política e honestidade para com os cidadãos estamos também expressando os ideais dos constitucionalistas. “Foi para isso que se lutou”, salientamos aos estudantes de hoje lembrando que os estudantes do passado, que tombaram mortos na Praça da República, em São Paulo, buscaram por objetivo estabelecer pela primeira vez a democracia no Brasil e assim se fez.