Os jingles já existiam antes do Rádio

Geraldo Nunes

25 Novembro 2013 | 01h10

 Um pesquisador encontrou em anúncios comerciais de jornais e revistas publicados entre o final do século XIX e o início do século XX a indicação de partituras contendo músicas de propaganda. São cançonetas de choro, valsas, polcas e mazurcas anunciando produtos voltados à beleza da mulher, à saúde ou ainda a uma melhor qualidade dos dentes.  O Brasil já produzia jingles antes do surgimento do Rádio e o interessante é perceber que o piano funcionava como veículo de mídia. No século XIX ter um piano em casa era símbolo de status, assim como foi ter um carro no século XX. Oferecendo partituras, os anunciantes sabiam o público que queriam atingir.

 Agora toda essa pesquisa está sendo lançada em um livro e CD com 15 faixas disponíveis também no site da ESPM –  Escola Superior de Propaganda e Marketing. O projeto recebeu o nome Partituras Publicitárias e os arranjos ficaram por conta do pianista Amilton Godoy. Nós entrevistamos no programa Estadão Acervo, da Rádio Estadão, o pesquisador Paulo Cesar Alves Goulart que explicou, “a partitura vinha de presente a quem comprasse o produto através do anúncio do jornal e a música levava o nome do produto, mas não falava dele.” Paulo César acrescenta que a primeira referência musical a um produto aconteceu em 1894, para o Formicida Guanabara, mas de modo tímido, apenas com uma saudação.

 Além desse produto para matar formigas, uma boa ideia foi anunciar as águas cristalinas da Fonte do Lambary, vendidas em garrafas, através de um anúncio composto ao por Ernesto Nazareth, um dos grandes nomes da música brasileira do início do século XX, tendo sido o compositor de Odeon, em 1910 para agradar o dono do cinema em que ele trabalhava, no Rio de Janeiro e tinha esse nome. Os pianistas eram importantes nos cinemas no tempo dos filmes mudos, dentro e fora da sala de projeção. Do lado de dentro, o pianista seguia uma partitura de trilha sonora, conforme o andamento do filme, mas Ernesto Nazareth foi contratado para animar o lado de fora, ou seja, a sala de espera, onde as pessoas ficavam aguardando o término da sessão. Relatos dão conta que muitos compareciam só para vê-lo tocar deixando às vezes de assistir o filme. Ernesto Nazareth morreu em 1934 e Vinicius de Moraes feita nos anos 60, fez uma letra para Odeon gravada com sucesso por Nara Leão.

Paulo César Goulart é formado em arquitetura e dessa formação nasceu o interesse por pesquisar. Falei a ele do acervo digital de O Estado de São Paulo e ele contou que pesquisando em antigas páginas do Estadão descobriu que o primeiro jingle gravado no Brasil aconteceu em 1935, para promover no carnaval daquele ano, o chopp da Brahma que seria vendido em garrafa veiculado no carnaval de 1935 na voz de Orlando Silva. “Dali para frente o jingle seguiria cada vez mais depressa para o formato que ele tem hoje, curto, agradável e objetivo”, nos contou Paulo César Alves Goulart que encontrou a maioria das partituras no arquivo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Quanto a nós, encontramos a gravação do primeiro jingle gravado no youtube.

Para você ouvir os jingles em partituras pesquisadas por Paulo César Alves Goulart acesse o Portal da ESPM no link abaixo:

http://www2.espm.br/espm/instituto-cultural/publicacoes/partituras-publicitarias?utm_source=Webdoor&utm_medium=Webdoor&utm_campaign=Webdoor_partituras_nac