Há 8 anos um “pouso forçado” na marginal

Geraldo Nunes

10 Novembro 2013 | 09h52

Minhas manhãs sempre começaram nas madrugadas. Trabalhar em rádio é acordar cedo ou dormir tarde, tudo depende daquilo que se faz dentro da missão imediata de informar.

Aquela sexta-feira, 11 de novembro de 2005 não começou para mim diferente de outros dias. Saí de casa às 4 da manhã para primeiro dar uma passada na emissora e apresentar um programa de atendimento a reclamações de ouvintes, o De Olho na Cidade. Depois seguimos a caminho do helicóptero que no caso era um aparelho Robinson R-22, aeronave de pequeno porte, mas ideal para a cobertura do trânsito por parte das emissoras de rádio. Toda aeronave é segura desde que respeitadas as instruções de seu manual de operações e obedecidos à risca os prazos de revisão periódica. 

Estávamos com uma nova locadora de helicópteros e eu ainda pouco habituado a sobrevoar com o comandante Leonardo Rebuffo, mas nem me importei quando ele desviou da rota que eu costumava fazer. É que após decolar do Campo de Marte, já nas proximidades da Rodovia dos Bandeirantes, ele mudou o trajeto e seguiu sobre a rodovia na direção do Rodoanel.

Não me importei porque naquele momento as duas marginais estavam se comportando bem em relação ao movimento de veículos, apesar de ser uma sexta-feira. Havia também um sol agradável e quase não ventava. Passamos por detrás do Pico do Jaraguá onde há uma densa camada de mata atlântica, uma queda ali é morte quase certa porque as pás (ou hélices) do helicóptero se entortariam no choque com as árvores e a força da gravidade inclemente nos levaria para baixo, mas na hora nem me dei conta, o helicóptero voava bem e eu já avistava Alphaville, um lugar arquitetonicamente belo, mas complicado para os motoristas que seguem por suas alamedas até a Rodovia Castelo Branco, essa sim complicada naquela manhã, garantindo meu boletim aéreo informativo do trânsito, veiculado entre um comercial e outro da emissora na qual eu seguia ouvindo o tempo todo.

De volta à marginal fomos sobre o Rio Pinheiros, vendo a raia olímpica da USP, o Parque do Povo, a Usina da Traição e depois Interlagos, as represas da zona sul. São Paulo é interessante vista do alto nessas regiões da cidade, eu gosto. Ainda sonho que estou sobrevoando, sabiam?

Meu pedido naquele momento foi para o comandante Leonardo Rebuffo sobrevoar a Avenida Washington Luiz. Eu queria passar sobre a Chácara Flora e sair na Avenida Roberto Marinho e dali seguir até o Palácio dos Bandeirantes para falar do trânsito nas saídas do Morumbi.

Foi então que sentimos um cheiro de queimado na cabine e uma luz amarela acesa no painel, “clutch”, que em inglês significa embreagem e isso me preocupou.

Sugeri que ele pousasse ali mesmo em algum canto da Roberto Marinho, mas o Leonardo disse que causaríamos um grande congestionamento e que ele buscaria um lugar seguro. Existem uns campos de futebol próximos da Ponte do Morumbi daria para pousar ali, mas o Leonardo pensou no Jóquei, porém o motor passou a perder potência e se ao cruzar o rio viéssemos a cair na água, eu fatalmente morreria afogado porque tive paralisia infantil e não teria condições físicas para sair da aeronave.

Ele permaneceu em sobrevoo na marginal e eu já sabia pela experiência de então 15 anos de helicóptero, que aquilo não ia terminar bem. Eram audíveis as falhas do motor, mas não me alterei, não queria desconcentrar o piloto. Só me perguntava o que seria depois, mas em nenhum momento pensei na morte, acreditem. Temia mais os transtornos de alguma fratura, de ter que ficar hospitalizado. Lembrei foi da minha mãe, a meu lado na infância quando eu me acostumava aos aparelhos ortopédicos, ela me amparando de braços abertos para me segurar se eu me desequilibrasse. Voltei a ser menino e fiquei com medo de não mais poder andar.  Foi então que o motor apagou e o helicóptero se inclinou em 45 graus na direção do solo.  Não sei precisar a altitude, mas estávamos abaixo da altura de qualquer arranha-céu das proximidades. Vi a ponte Eusébio Matoso se aproximando achei que fossemos bater nela, mas o nosso Robinson 22 desviou só que antes de cair, esbarrou o esqui em dois carros que seguiam no trânsito marginal e isso, acredito, amorteceu a nossa queda e quando houve o impacto no chão, me lembrei daquelas batidas dos carros de fórmula 1 em que eles vão se desmanchando e o piloto depois sai ileso. Depois que bateu no chão, vi cauda do helicóptero passar na minha frente e fomos deslizando para debaixo da Ponte Eusébio Matoso com rotor superior ainda girando e a hélice entortando. Ao parar estávamos literalmente embaixo da ponte, sãos e salvos, eu e o comandante Leonardo que tremia como uma vara. Eu fiquei pendurado pelo cinto de segurança em uma situação incomoda, mas sem nenhuma dor. Ele saiu do helicóptero pelo meu lado porque a porta do lado dele ficou no chão. O trânsito da marginal parou e os motoristas passaram a descer do carro e a dizer: “Vai explodir”! Só nessa hora que eu senti algum medo, porque se pegasse fogo eu não conseguiria sair sem ajuda. Era forte o cheiro de combustível, a gasolina desses helicópteros cheira a benzina, mas eis que surge entre os carros, um cidadão que primeiro descarrega seu extintor de incêndio sobre o motor da aeronave e em seguida me ajuda a sair. Ele pede: “Abrace o meu pescoço para você não sujar as suas botas nesse combustível”. Fiquei admirado com a sensibilidade dele, lembrar-se das minhas botinas ortopédicas. Acho que Deus coloca as pessoas certas no lugar em que vão precisar delas. Ele ainda me trouxe no carro dele, de volta à sede da emissora no prédio do Grupo Estado para que pudesse entrar no ar e dizer que estava tudo bem.

Seu nome é César Tavares Lugo, comerciante, morador de Bauru, veio a negócios e retornava para lá quando tudo aconteceu. “Sou um predestinado”, me disse no caminho para a rádio, pois já havia socorrido outras pessoas vítimas de acidente, inclusive em uma ocorrência envolvendo um avião na cidade dele. De tanto ter que ajudar as pessoas, fez um curso de primeiros socorros. Depois comentei tudo isso na programação e a rádio mandou publicar no Estadão, um agradecimento especial ao César.

No dia seguinte, 12 de novembro de 2005, um sábado, o jornal trouxe ampla reportagem sobre a nossa queda em plena Marginal do Pinheiros e um pedido de desculpas da emissora à população pelo transtorno causado. “… Ironia do destino: A Eldorado, pioneira no serviço de repórter aéreo, hoje virou notícia e causou transtornos ao trânsito”… E acrescentou: … “o anjo da guarda do trânsito de São Paulo mostrou que também tem um ótimo anjo da guarda”… 

 A perícia concluiu que apesar da aeronave estar revisada, as duas correias que transmitem a potência do motor para as hélices se romperam. Existem duas correias por redundância, por isso não é comum que as duas se rompam de uma só vez, mas naquele dia aconteceu. Não houve recuperação para aquele Robinson R-22 e o seguro ressarciu os carros atingidos.

 Dos personagens desse episódio, as notícias que tenho é que o comandante Leonardo Rebuffo se mudou para Macaé – RJ onde faz voos “off-shore” para a Petrobrás em helicópteros biturbina, levando funcionários do continente para as plataformas de petróleo. César Tavares Lugo continua morando em Bauru, mas há tempos não me dá um alô. Quanto a mim, sigo em São Paulo mantendo minhas atividades de jornalista agora na Rádio Estadão e agora sou membro honorário da Força Aérea Brasileira. O IV Comar – Comando Aéreo Regional decidiu me homenagear pela prestação de serviço que ofereci à população como repórter aéreo durante vinte anos. Depois desse incidente ainda sobrevoei por mais cinco. Outra coisa é que depois dessa experiência procuro sempre me lembrar do meu anjo da guarda para que ele continue atento a me proteger na terra ou nos ares da metrópole.  Caso queira ler a cobertura da época clique:http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/20051112-40933-nac-45-cid-c1-not