Há 30 anos terminava a ditadura e Tancredo Neves era internado na véspera da posse

Geraldo Nunes

13 de março de 2015 | 08h50

15 de Março de 1985 estará para sempre na lembrança dos brasileiros que viveram aquele momento onde o povo após clamar por Diretas Já, via o regime militar chegar ao fim, sem nenhum tiro, graças a uma trama política que levou o Congresso Nacional a eleger Tancredo Neves presidente da República. Mas o destino impediu que o político nascido em São João Del Rei – MG, a 4 de Março de 1910 recebesse a faixa presidencial. Ele passou mal à noite, na véspera da posse, e quem assume em seu lugar é o vice José Sarney, para frustração geral de quase todos.

Nos dias seguintes sua saúde se complica e Tancredo é transferido ao Instituto do Coração em São Paulo morrendo pouco mais de um mês depois, a 21 de abril de 1985, com 75 anos de idade. Mais uma vez o povo sai às ruas, mas agora para chorar a despedida daquele que ajudara a reconstituir os rumos para a plena democracia no Brasil.

Todos esses episódios estão sendo contados na biografia de 868 páginas escrita pelo jornalista José Augusto Ribeiro, cujo título é, “Tancredo – A noite do destino”. O livro esclarece dúvidas do episódio até hoje nebulosas. Por exemplo, por que os médicos diagnosticaram ‘diverticulite’ se o mal que acometera Tancredo era outro? O autor conta que a junta médica que atendeu o presidente eleito, ainda em Brasília, diagnosticou uma inflamação no ‘divertículo de meckel’, ou seja, uma bolsa situada na parede do intestino delgado, “mas um dos médicos acreditou tratar-se de ‘leiolioma’ que é uma neoplasia benigna”, explica Ribeiro, acrescentando que essa informação assustou porque se tratava de um tumor e embora houvesse como estirpá-lo, se preferiu anunciar publicamente que se tratava de ‘diverticulite’. “O que matou Tancredo, no entanto, foi uma infecção adquirida no Hospital de Base de Brasília após a primeira operação devido à sutura mal feita que gerou, inclusive, briga entre os médicos”, informa. Transferido para o Instituto do Coração em São Paulo ocorreriam outras sete cirurgias na tentativa de eliminar a infecção que se multiplicava. Mais tarde a única médica que fez parte da equipe, doutora Angelita Gama, definiria. “Da maneira como ele chegou ao Incor nenhum hospital do mundo o salvaria, era um processo infeccioso agudo que se multiplicou e se transformou em uma septicemia”.

A eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral aconteceu ainda sob a vigência do regime militar. Na época a censura impediu que a votação da emenda Dante de Oliveira, que restabelecia as eleições diretas para presidente, fosse transmitida pelo rádio e pela TV e isso gerou desconfiança nem sempre se acreditando naquilo que a imprensa dizia, por causa da censura.

Esse talvez tenha sido o motivo de um boato que dava conta de um atentado para impedir a posse de Tancredo Neves. Dizia-se que na véspera o presidente eleito levara um tiro disparado dentro de uma igreja de Brasília, onde Tancredo fora para uma missa em ação de graças e que a repórter Glória Maria, da Rede Globo, também teria sido atingida. Não só pessoas menos esclarecidas mantinham essa convicção, mas também setores da classe média ainda hoje questionam essa hipótese.

O autor esclarece aos que ainda duvidam que nada disso aconteceu. “Aquele dia Glória Maria nem estava em Brasília e Tancredo após deixar o Santuário Dom Bosco foi para casa cantando, ao lado de Dona Rizoleta Neves”. Outro livro, ‘Assim Morreu Tancredo’ escrito por Antônio Britto, então assessor de imprensa do presidente, dá a mesma versão apontando que só depois de chegar em casa ele começou a passar mal.

Para José Augusto Ribeiro, no entanto, a noite do destino de Tancredo Neves foi a noite da rejeição da emenda que restabeleceria o voto popular. Ali Tancredo selou seu destino de ser presidente. Dispondo de simpatia entre a oposição e os membros do poder, lançou-se como candidato de consenso obtendo a adesão de parlamentares do PDS, partido do governo, junto aos que não simpatizavam com a candidatura de Paulo Maluf, surgindo a Frente Liberal. Uma curiosidade contida no livro é que ciente da derrota que viria, o presidente João Figueiredo telefona a Silvio Santos que apoiava Maluf abertamente em seus programas recomendando a ele, como empresário de mídia, que “tancredasse” e Silvio pergunta: “Mas como presidente eu apóio seu governo!” E Figueiredo responde: “Não seja tolo, faça isso para não ter problemas depois em manter o emprego dos antigos funcionários da Tupi”, motivo da concessão concedida pelos militares a Silvio”, conta Ribeiro.

Em 15 de janeiro de 1985 acontece a eleição indireta para presidente, onde os deputados e senadores votavam de viva voz o nome do candidato preferido. O “pleito” é transmitido ao vivo pela televisão e pelo rádio. Tancredo Neves, candidato da Aliança Democrática (união do PMDB com a Frente Liberal, formada por dissidentes do PDS), é eleito no Colégio Eleitoral, tendo como vice José Sarney. São 480 votos a favor (sendo 166 oriundos de deputados do PDS), contra 180 dados a Paulo Maluf, candidato do PDS, e 26 abstenções. O PT, contrário à eleição indireta e ao acordo feito com os governistas, opta pela abstenção e desliga do partido três deputados que votaram em Tancredo: José Eudes (RJ), Bete Mendes (SP) e Airton Soares (SP).

Confirmado como presidente Tancredo Neves faz um discurso histórico falando em justiça, dignidade e democracia e anuncia uma Nova República com a frase: “Não vamos nos dispersar.” Tancredo vence a eleição no Colégio Eleitoral, mas como não chega a tomar posse, assume em seu lugar o vice, José Sarney. O general Figueiredo recusa-se a transmitir a faixa presidencial alegando desrespeito à Constituição, mas o autor explica que a decisão foi correta e que houve um equívoco por parte de Figueiredo porque quem dá posse ao presidente é o Congresso Nacional e o vice – presidente José Sarney já havia feito o juramento em nome da chapa vencedora. “A passagem da faixa presidencial é mera formalidade do cerimonial”, conclui o escritor que pretende viajar o país divulgando sua obra.
Tancredo era um homem bem-humorado e de bem com a vida, mas permanentemente atento aos assuntos do país. “Era uma pessoa de diálogo e nunca se separou da democracia, analisa José Augusto Ribeiro que ao finalizar seu longo livro define, “Tancredo de Almeida Neves foi um dos maiores brasileiros de seu século”.

Serviço:
Título: Tancredo Neves – A noite do destino
Autor: José Augusto Ribeiro
Editora Civilização Brasileira
868 páginas
Formato: 16 x 23 cm
Preço: R$ 80