Há 25 anos os roqueiros ficavam órfãos de Raul

Geraldo Nunes

21 Agosto 2014 | 06h45

Rita Lee disse em uma canção que “além de guerrilheiro e maconheiro, roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido”. Raul Seixas tinha quase tudo desses adjetivos. Usava blusão de couro, óculos escuros e usava uma barba crescida como se fosse a de um cubano vestido de americano, defendendo a revolução de Fidel Castro. Raul era contraditório mesmo e preferia de fato ser como ele dizia em uma de suas músicas, uma espécie assim de “Metamorfose Ambulante”.

No centro de São Paulo, as escadarias do Municipal, serviram de ponto de encontro dia desses, para um grupo de fãs vestidos de preto, reverenciar o grande ídolo que certa vez naquele mesmo lugar com um violão nos braços cantou “Ouro de Tolo” e protestou contra o “sistema”. Com isso conseguiu como poucos artistas, agradar todas as classes sociais e faixas culturais, dos intelectos aos rejeitados, dos burgueses aos moradores de rua, transitando entre roqueiros, punks, beatnicks, metaleiros, sambistas, sertanejos, bregas e apreciadores do gospel. Todos esses segmentos também curtem Raul Seixas.

Nascido em Salvador a 28 de junho de 1945, cresceu ouvindo os xotes e baiões de Luis Gonzaga que fazia muito sucesso em seus tempos de menino onde também era comum se ouvir rock’n roll e assim que aprendeu a tocar violão, decidiu misturar a música do nordeste ao rock de Elvis. Fez muito bem, não desprezou o que era nosso e curtiu o que vinha de fora. Nesse tempo é possível que seus amigos já o chamassem, com certeza de “Maluco Beleza”. Ainda na adolescência formou uma banda com o nome “Os Relâmpagos do Rock” que depois virou “Raulzito e Os Panteras” e com ela, chegou a lançar um disco em 1964.

Na Bahia de Dorival Caymmi e Jorge Amado, nem todos entenderam o que se queria dizer naqueles rocks pirados e lá foi ele de novo, brasileiro nato dizendo, “se eu não morro eu mato essa desnutrição” e argumentou ter passado fome na cidade maravilhosa. Na verdade chegou consciente do que queria e atacou de produtor musical para ídolos da Jovem Guarda, como o grupo Renato e seus Blue Caps. “Doce, doce amor”, sucesso na voz de Jerry Adriani, é uma composição assinada como Raulzito. No mesmo nome está a versão “Você ainda pode Sonhar”, da música dos Beatles “Lucy in the Sky with Diamonds”, que o próprio gravou.Em 1972 acontece o VII Festival Internacional da Canção Popular promovido pela Rede Globo e Raul Seixas, que nunca usou colírio e só óculos escuros, arrasou, cantando “Let me Sing”, onde mistura o rock ao baião e ao maxixe assim definidos como “rockxixe”. Raul não ganhou o festival, precisava? Ali conquistou à primeira vista o coração dos roqueiros e se tornou a “Mosca na Sopa” da MPB.

“Krig-ha, bandolo”! Era este o grito de guerra de Tarzan nas histórias em quadrinhos, significando algo como, “cuidado, aí vem o inimigo”. Foi esse o título que Raul Seixas, deu a seu primeiro álbum que explodiu nas paradas e classificado hoje no ranking brasileiro da revista Rolling Stone, como o 12º melhor disco da música brasileira todos os tempos. De fato o disco é uma paulada de estontear com suas faixas antológicas, entre “Al Capone” e outros verdadeiros hinos do rock nacional. Raul tinha parceria com Paulo Coelho em algumas das letras e “Gita”, que mergulha fundo no esoterismo inspirado pelo inglês Aleister Crowley,  faz sucesso em um long-play que reunia baladas lindíssimas como, “Medo da Chuva” e “Trem das Sete”, além da faixa anárquica, “Sociedade Alternativa”, onde se propunha liberdade ao agir para fazer coisas do tipo, “tomar banho de chapéu, discutir Carlos Gardel ou esperar Papai Noel, porque é tudo da lei”. Da lei?

O Brasil vivia uma ditadura militar e de olho nele, Raul Seixas passou a ser “melhor” observado pela censura e pelos censores e suas canções começaram a ser proibidas, ou vetadas parcialmente. Ele não gostou e saiu dizendo que buscava o autoexílio e foi para os Estados Unidos onde tentou conhecer John Lennon.  Ficou pouco tempo lá e de volta ao Brasil lançou em menos de um ano dois álbuns muito elogiados:  Novo Aeon e Há Dez Mil Anos, o último da parceria com Paulo Coelho. Raul ainda emplacaria “O Dia Em Que a Terra Parou”, celebrando uma espécie de greve geral, alimentando o sonho de sonhador na terra dos generais. Desse álbum também faz parte, a música que hoje é o seu verdadeiro sinônimo, quem diria uma balada, cujo nome é “Maluco Beleza”.

Com o passar dos anos o equilíbrio entre a maluquez e a lucidez foi se tornando cada vez mais difícil e o ídolo de uma geração se entregou à bebida por não admitir que uma canção de sua autoria não fizesse sucesso. Passou a não comparecer em shows já agendados ou quando aparecia, entrava em cena bêbado. Certa vez irreconhecível, os fãs disseram que tinham sido enganados, que não era Raul e sua apresentação terminou em tumulto.  Mesmo assim buscou se esforçar e fez dois shows maravilhosos, nos  woodstockianos festivais de Águas Claras e Iacanga, no interior paulista, entre 1981 e 1984. Mas como o vício na bebida é implacável, caiu de novo.

Cristo também caiu a caminho do calvário e a providência divina também levou ao “sonhador maluco” um homem que o auxiliasse a carregar a cruz. Para Raul Seixas, o “Cirineu” foi o cantor Marcelo Nova e juntos lançaram, “A Panela do Diabo”. O disco foi o canto do cisne de nosso roqueiro maior com músicas de qualidade como, “Pastor João e a Igreja Invisível” e “Carpinteiro do Universo”.

Era uma segunda-feira, 21 de agosto de 1989, quando ele saiu de cena em definitivo. Os laudos concluíram que o cantor foi vítima de uma parada cardíaca, gerada pelo consumo excessivo de álcool e por ser diabético.  No dia seguinte à sua morte uma surpresa positiva, o disco com o parceiro Marcelo Nova atingia a vendagem de 150 mil cópias, rendendo à dupla um disco de ouro, o primeiro disco de ouro pós-morte do rock nacional. Nos bares de hoje se pede ao final da noite, “Toca Raul!” A frase se tornou bordão e faz dele uma lenda entre os que nasceram depois de sua partida. No último Rock and Rio, o americano Bruce Springsteen fez uma homenagem ao artista brasileiro, cantando em português “Sociedade Alternativa”.

A Gravadora Eldorado, uma das quais Raul Seixas passou, lançará no início de setembro uma caixa com 6 CDs e 1 DVD documentário sobre sua trajetória musical.

No box haverá os 4 discos lançados pela Eldorado entre 1983 e 1994 e mais dois novos lançamentos com shows inéditos em CD – “Eu Não Sou Hippie”, gravado nos bons tempos, em Patrocínio – MG, em 1974 e “Isso Aqui Não É Woodstock, Mas Um Dia Pode Ser”, gravado em 1981 no Festival de Águas Claras.

O DVD contém depoimentos e imagens de raridades em fotos de objetos que pertenceram a Raul, além do áudio de uma entrevista exclusiva para a Rádio Eldorado, em 1983, no programa “Galeria”.

Raul Seixas foi assunto no programa Estadão Acervo –  Ouça: http://radio.estadao.com.br/busca/acervo