Grito do Ipiranga só virou notícia depois da Independência

Geraldo Nunes

08 Setembro 2014 | 06h37

Muito já se falou e se escreveu a respeito da independência do Brasil, mas um novo livro sobre Dom Pedro I, reascende as discussões nos meios acadêmicos em torno desse importante nome da história.

Para melhor informar os ouvintes, entrevistamos no programa Estadão Acervo, da Rádio Estadão, a professora Isabel Lustosa, pesquisadora da Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, autora da obra cujo título é Dom Pedro I –  Um Herói sem nenhum caráter, onde o imperador é descrito como uma espécie de “macunaíma”, ou seja, não como alguém de mau caráter, mas sem uma caracterização definida visto que, segundo ela, o menino que chegou com sua família ao Rio de Janeiro, aos nove anos de idade e não recebeu a formação intelectual necessária para um príncipe herdeiro do trono.

Além disso ele morava em um ambiente hostil, onde seus pais, Dom João e Dona Carlota Joaquina viviam informalmente separados em uma relação de quase confronto levando o jovem a crescer praticamente solto, especialmente depois que chegou ao Rio de Janeiro. “Isso não o livrou do temperamento difícil, intempestivo e cruel em suas relações pessoais, embora com os filhos fosse um pai amoroso”, ressaltou a autora.

Isabel Lustosa disse no programa que utilizou para a elaboração de seu livro uma informação que lhe foi passada pelo jornalista Alberto Dines, dando conta que  nenhum jornal publicado no Brasil, em 1822, noticiou o grito do Ipiranga. “O ato é descrito em uma carta deixada pelo padre Belchior Pinheiro, presente na comitiva onde estava Dom Pedro que voltava de Santos naquele sete de setembro”, lembrou a professora, acrescentando que na mesma carta se informava que o príncipe utilizou de uma mula gateada e não de um cavalo na hora de proclamar a independência e por isso fora alcançado pelo capitão Antonio Ramos Cordeiro, acompanhado pelo correio do Paço, Paulo Bregaro, que trazia as missivas de Lisboa e as mensagens de José Bonifácio e Dona Leopoldina sugerindo a proclamação da independência.

“Mas essas informações só ganhariam importância a partir de 1825, após o reconhecimento da independência do Brasil pela Inglaterra e Portugal, quando Dom Pedro busca se colocar como figura central do processo que levou o Brasil a se tornar uma nação livre e soberana”, conclui Isabel Lustosa.

O livro Dom Pedro I – Um Herói sem nenhum caráter, descreve também o momento da abdicação, em 1831, quando o imperador retorna à Europa deixando como herdeiro seu filho de cinco anos.

Ao lado de sua segunda mulher, Dona Amélia, Dom Pedro é recebido em Paris com todas as honras devidas a um monarca no poder. Os marinheiros ingleses da fragata Volage, que o trouxera, vestindo seus uniformes de gala, deram-lhe nove vivas, ao tempo em que a fragata e todas as fortalezas de terra o saudaram com uma salva de 21 tiros de canhão.

Nos discursos de boas-vindas, ele foi saudado como um defensor da liberdade e criador de constituições, visto que sua Carta Magna elaborada para o Brasil, em 1824, tinha um texto mais liberal que fugia à regra das Monarquias Absolutistas que declinavam na época. Sua ideia era retomar o trono de Portugal, ocupado pelo irmão Dom Miguel e entregá-lo à filha.

Montou um exército de mercenários e iniciou uma guerra que durou três anos e foi sangrenta. Dom Pedro venceu, derrotando um exército de 80 mil homens porque convenceu o povo a lutar com ele.

Ouça como essa entrevista foi ar ar no programa Estadão Acervo: http://radio.estadao.com.br/busca/acervo