Gregório de Matos Guerra, o nosso primeiro poeta.

Geraldo Nunes

23 de março de 2015 | 05h39

No programa Estadão Acervo deste último final de semana lembramos que em todos os anos, em 21 de março, se comemora o Dia Mundial da Poesia. A data foi criada na trigésima Conferência Geral da Unesco, órgão da Organização das Nações Unidas – ONU, a 16 de novembro de 1999. Desde então a cada ano se celebra a efeméride em homenagem à diversidade do diálogo, a livre criação de ideias através das palavras, da criatividade e da inovação.
Neste dia os países signatários da ONU, devem promover; sobretudo nas escolas, bibliotecas e espaços culturais eventos em homenagem aos poetas ou à poesia. Escolhemos a oportunidade para falar de um poeta irreverente em seu tempo que agora vem sendo lembrado e citado pelos jovens, especialmente nas redes sociais.

Trata-se do poeta Gregório de Matos Guerra, alcunhado de “Boca do Inferno” ou “Boca de Brasa”, pela palavra ácida com que dizia frases e escrevia num tempo onde a imprensa era precária e nem se sonhava com o surgimento do rádio ou da televisão. Ele viveu no século XVII e pode ser considerado o primeiro poeta brasileiro. Surgido no período barroco está sendo reconhecido ainda que tardiamente como o mais importante poeta satírico da literatura em língua portuguesa, na fase colonial. Nasceu em Salvador, a 23 de dezembro de 1636 e morreu em Recife – Pernambuco, em 26 de novembro de 1696.

Gregório de Matos, como ficou conhecido, nasceu em uma família abastada e seu pai, português natural de Guimarães, levou o filho para estudar em Lisboa, na Universidade de Coimbra. Por influência do pai, Gregório teve a seu dispor vários cargos públicos, mas foi destituído de todos porque satirizava os superiores, caçoava dos costumes das altas classes sociais e da corte lusitana. De volta ao Brasil desenvolve uma poesia corrosiva, erótica (quase ou mesmo pornográfica), apesar de romancear também por caminhos mais líricos.

Certa vez um promotor eclesiástico da Bahia o denunciou à Inquisição por seus costumes livres de escrever e falar. Acusou-o, por exemplo, de difamar Jesus Cristo e de não mostrar reverência, tirando o barrete da cabeça ao passar uma procissão. A acusação não teve prosseguimento, mas as inimizades cresceram em relação direta com os poemas que ia concebendo. Ameaçado de morte, acabou deportado para Angola.

A condenação tida como branda foi obtida graças ao amigo e protetor D. João de Lencastre, então governador da Bahia. Comentava-se que o governante mantinha consigo um livro no qual eram copiadas as poesias de Gregório. Tempos depois o poeta recebe a permissão de voltar ao Brasil, mas fica proibido de entrar na Bahia, fonte de seus amores e de sua inspiração poética “pecaminosa”. Morreu no Recife, aos 60 anos, vitimado por uma febre que segundo se dizia contraiu em Angola. A alcunha “Boca do Inferno” foi dada a Gregório por sua ousadia nos versos eróticos e critica contundente à Igreja, em especial ao comportamento de certos padres desafetos.

Até hoje Gregório de Matos é um poeta visto como “rebelde” que, apesar de constar entre os clássicos, muitos ainda o consideram maldito. Foi, no entanto e, essencialmente, o primeiro poeta do Brasil que se tem notícia. Perceba como sua poesia permanece atual.

“A Jesus Cristo Nosso Senhor”
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque, quanto mais tenho delinqüido,
Vós tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra História,
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

“As Cousas do mundo”
Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.
Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.
A flor baixa se inculca por tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa,
Mais isento se mostra o que mais chupa.
Para a tropa do trapo vazo a tripa
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.

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