Fechado, Museu do Ipiranga só deve reabrir em 2022

Geraldo Nunes

16 Agosto 2014 | 06h45

Seu nome verdadeiro é Museu Paulista, mas todos o conhecem pelo nome do bairro onde foi proclamada a independência, um lugar visitado na infância, pelos que fizeram seus primeiros estudos na cidade de São Paulo, nas excursões escolares ou com os pais no feriado de 7 de setembro. Depois de adultos muitos para lá retornam levando seus filhos ou netos e viajam no tempo novamente, dentro das carruagens e das liteiras que integram o acervo e ajudam a contar a história do Brasil.

Fechado há um ano para reformas o museu voltará a reabrir só em 2022, ou seja, daqui a oito anos quando estaremos comemorando o bicentenário da independência. O mais assustador é que quase todo o acervo terá de ser transferido para edifícios próximos que estão sendo alugados. Quem confirma a transferência é a diretora do museu, Sheila Walbe Ornstein, alertando que o prédio necessita de reformas estruturais, em razão, entre outras coisas, do uso indevido do subsolo como área expositiva e para salas de administração. “No projeto original, o subsolo serviria para ventilação e saída de umidade ascendente”, disse Sheila em entrevista à Rádio Estadão.

Ouça no programa Estadão Acervo: http://radio.estadao.com.br/audios/audio.php?idGuidSelect=AB7636C1975647F498BF3303A7487304

O jornalista Laurentino Gomes, que algumas vezes visitou o museu durante as pesquisas para seus livros de história do Brasil, voltou ao prédio a convite da Revista Veja e relatou que a intervenção é mesmo necessária. “No salão nobre, cuja parede principal ostenta o quadro Independência ou Morte, do paraibano Pedro Américo, o teto descolou-se e ameaçava cair sobre os visitantes. O forro de salas vizinhas está prestes a desabar por causa da infiltração de água da chuva. A pintura de vários ambientes se encontra rachada e apresenta mofo. As portas, com fechaduras antigas, emperram. Manchas de sujeira cobrem tanto um busto do marechal Floriano Peixoto, o segundo presidente da República, no subsolo, como um espelho que pertenceu à marquesa de Santos, amante do imperador Pedro I, em uma sala da torre leste do 1º andar. Uma carruagem do século XIX, no térreo, está com a forração rasgada em vários pontos. Na fachada do edifício, trechos sem reboco deixam os tijolos à mostra. Na parte dos fundos, onde bate menos sol, a tinta descascou e as paredes foram tomadas pelo musgo. O precioso acervo, é composto de 150 mil peças, uma biblioteca com mais de 100 mil volumes e um centro de documentação com 40 mil papéis e manuscritos”, relatou Laurentino à revista.

Preocupação maior de nossa parte é com a manutenção do acervo visto que em setembro de 2009 parte dele chegou a ser roubado sendo recuperado depois pela polícia na feira de antiguidades da Praça Benedito Calixto, em Pinheiros. Na época foram levadas cerca de 900 peças do século XIX, entre cédulas raras e moedas de ouro. Imagine agora com o acervo tendo que deixar o museu indo para outros imóveis, o risco será grande.

O prédio do Museu Paulista foi projetado pelo italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi. Em uma época onde ainda não havia a eletricidade, foram projetados telhados de vidro e amplas janelas para facilitar a penetração de claridade e melhorar a visibilidade interna. A criação jurídica do Museu Paulista aconteceu no dia 3 de fevereiro de 1894, ficando a inauguração para o dia 7 de setembro do ano seguinte. Os jardins franceses fronteiriços ao museu, assim como o Parque da Independência, foram projetados pelo belga Arsenius Puttemans e a obra realizada entre 1907 e 1909.

Ao longo de sua existência, o acervo do Museu Paulista recebeu coleções como as dos presidentes da República Washington Luiz, Prudente de Moraes e Campos Sales; dos governantes de São Paulo, Bernardino de Campos e Pedro de Toledo; do inventor Alberto Santos Dumont; do arquiteto Gaudenzio Bezzi e de várias famílias e instituições, incluindo objetos, roupas, imagens e documentos escritos que pertenceram à marquesa de Santos, ao Padre Diogo Antônio Feijó e à Força Pública de São Paulo. Formaram-se também conjuntos temáticos como a Independência, a Guerra do Paraguai e a Revolução Constitucionalista de 1932.

O quadro original “Independência ou Morte” de Pedro Américo, pintado em Florença – 1888, é uma das peças que deverá permanecer nas dependências durante a reforma. Outro original bem conhecido do Museu Paulista é a tela “Fundação de São Paulo em 1554”, de Oscar Pereira da Silva, executado em 1909. Uma maquete da cidade de São Paulo em 1841, executada por Henrique Bakkenist, em escala de 1:170, entre 1921 e 1922, sob a orientação de Affonso de Escragnolle Taunay, mostra como era o centro da cidade. Já estavam de pé as igrejas do Largo São Francisco e o solar da marquesa. Ainda eram vistas a céu aberto as águas do córrego do Anhangabaú se juntando ao rio Tamanduateí rumo ao Tietê.

Apesar de o museu estar fechado à visitação pública é possível visitar o Parque da Independência. Nos fundos do prédio encontra-se um bosque, o antigo Horto do Ipiranga, que por muito tempo serviu às pesquisas botânicas. Ali ainda existem espécies nativas como pau-ferro, sapucaia, cedro, figueira e araribá, além de árvores frutíferas.