Existem estradas que nasceram do caminho de índios

Geraldo Nunes

12 Agosto 2014 | 03h45

Um assunto sempre interessante diz respeito às estradas e avenidas que surgiram de antigas trilhas abertas inicialmente pelos índios e algumas para se descobrir era preciso se tornar amigo deles. São Paulo é a mais antiga cidade do interior do Brasil visto que para subir a Serra do Mar até o Planalto de Piratininga, de modo mais fácil e rápido era preciso recorrer aos índios e com eles aprender as rotas cuja subida era feita de cócoras ou engatinhando. Anchieta era especialista em descobrir esses caminhos e até por isso a antiga estrada de ligação São Paulo – Santos leva seu nome em justa homenagem.

Houve uma trilha conhecida somente pelos tupiniquins que se associaram aos tamoios e aos franceses que ocupavam parte do litoral norte paulista e o Rio de Janeiro. Esses indígenas eram inimigos dos portugueses não impedindo que eles seguissem por trilhas que só eles conheciam.

Os lusitanos criaram então outra rota. Estradas do Vale do Paraíba como a SP – 171 Cunha – Parati ou SP – 66 Estrada Velha Rio – São Paulo seguem em parte por antigos caminhos de índios. A SP – 99 ligando São José dos Campos a Caraguatatuba leva por causa disso o nome sugestivo de Rodovia dos Tamoios.

Mas a primeira via de ligação entre a capital e o litoral paulista, com planejamento de engenharia, foi a Calçada do Lorena por onde Dom Pedro, em 1822,  seguiu de Santos a São Paulo no dia em que proclamou a independência. Aberta em 1790 por determinação do governador da capitania de São Paulo, Bernardo José Maria de Lorena, as obras ficaram a cargo do Brigadeiro João da Costa Ferreira, engenheiro da Real Academia Militar de Lisboa. Concluída em 1792, tinha a extensão de 50 km, reduzindo em cerca de 20% o percurso entre Santos e São Paulo. Seu trajeto seguia uma antiga rota dos tupiniquins, aprendida por Anchieta.

O calçamento foi feito em pedras levadas por escravos ou no dorso de mulas e nas curvas do trecho de serra, caixas de dissipação desviavam, para fora da via, as águas conduzidas pelos canais pluviais. Foi este o primeiro caminho a possibilitar o trânsito de tropas consumindo apenas dois dias de trajeto. Uma das mais importantes viagens realizadas na calçada do Lorena foi a de Dom Pedro, então Príncipe-Regente, naquele 7 de setembro.

O que remanesce da calçada está tombado e preservado pelo Patrimônio Histórico e fica aberto à visitação turística em passeios monitorados a partir de um acesso pela SP – 148, a velha Rodovia Caminho do Mar, onde há belvedere construído a mando de Washington Luiz, chamado Recanto da Maioridade. Muitos pensam que ali morava a Marquesa de Santos e isso não é verdade. A Via Anchieta, SP – 160,  foi inaugurada em 1948 e a primeira perna da Rodovia dos Imigrantes, SP – 170, em 1976.  A pista de descida da Nova Imigrantes só ficou pronta em 2004.

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