Estados Unidos reabrem embaixada com festa e desconfiança mútua

Geraldo Nunes

24 de agosto de 2015 | 04h02

Um dia histórico, 14 de agosto de 2015. Depois de 54 anos, a bandeira dos Estados Unidos voltava a tremular em solo cubano e numa cerimônia com a presença do secretário de Estado norte – americano John Kerry e autoridades cubanas, uma cerimônia marcou a reabertura da embaixada em Havana.

Decidimos contar pelo rádio de modo ilustrado e musical a trajetória desses acontecimentos envolvendo EUA e Cuba desde 1959 até os dias atuais, com sucessos de época não só da música americana, mas do repertório cubano repleto de ritmos latinos como a salsa, o mambo e a rumba.

Tudo foi ao ar no Estadão Acervo programa que apresentamos nos finais de semana pela Rádio Estadão, mas que você pode ouvir novamente em nosso portal, acessando:

http://radio.estadao.com.br/busca/acervo

Entre os convidados estavam três fuzileiros aposentados que em 1961 baixaram a bandeira americana pela última vez. Décadas depois esses mesmos soldados passaram uma nova bandeira aos jovens que hoje servem o exército dos Estados Unidos que a hastearam a bandeira de listras brancas e vermelhas e 48 estrelas no jardim do prédio da embaixada em frente para o mar.

Falando em espanhol aos presentes, John Kerry reconheceu que o isolamento, segundo ele mútuo, entre Estados Unidos e Cuba não foi o correto e que o momento de se seguir a uma direção mais promissora, complementou John Kerry. Se novos tempos sinalizam para um convívio pacífico, quais os motivos que levaram a um rompimento de relações que durou tanto?

A Revolução Cubana foi um movimento armado e guerrilheiro que culminou com a destituição de um presidente que tinha apoio dos Estados Unidos. Os cubanos estavam descontentes com a política do ditador Fulgêncio Batista, que na verdade havia sido eleito pelo voto popular em 1951, mas destituído do cargo, retornara ao comando do país com poderes ditatoriais a partir de 1955. Foi quando um grupo guerrilheiro comandado por Fidel Castro, opositor do regime, entrou em luta armada em Sierra Maestra, contra a guarda nacional do presidente e a 1º. de janeiro de 1959, enquanto o mundo saudava mais um ano novo, Fidel e seus liderados se apossaram de Havana, capital do país e destituíram Batista que por sua vez, se refugiaria nos Estados Unidos.

Outro comandante do exército rebelde era, Ernesto “Che” Guevara, médico e argentino que ajudou os guerrilheiros a se tornarem mais populares. Se referindo aos Estados Unidos, Guevara dizia que a Revolução Cubana significava a vitória do menor sobre o maior bem como a primeira derrota do imperialismo na América Latina.

Guevara era um político diferente dos demais. Dono de um carisma excepcional, emocionava as plateias com seu discurso firme e ao mesmo tempo romântico em que citava por vezes versos poéticos escritos por ele ou outros autores. Chegou a ser condecorado no Brasil, pelo então presidente Jânio Quadros , que se dizia seu admirador. É o autor da célebre frase “seja duro, mas sem perder a ternura.” Acredita ser possível ampliar a revolução a outros países, passando a organizar um movimento guerrilheiro na Bolívia, onde foi morto pelo exército boliviano em La Higuera, a 7 de outubro de 1967.

A política de Cuba especialmente na área econômica desagradava os Estados Unidos, pois até a revolução se mantinha no país uma verdadeira máfia que administrava hotéis, cassinos e casas noturnas. Eram muitas as pressões de ambos os lados e os Estados Unidos acabaram rompendo relações diplomáticas até que 1962, espiões americanos descobrem a presença de mísseis nucleares em Cuba. Este é o princípio da chamada “crise dos mísseis” com os Estados Unidos bloqueando a costa cubana.

Havia o prenúncio de um confronto entre russos e americanos de sérias conseqüências. O impasse começa a 23 de outubro de 1962 e após 13 dias à beira de uma guerra nuclear, o impasse é resolvido em 16 de novembro com o governo soviético concordando em retirar seus aviões pousados em Havana.

Mesmo com o impasse solucionado os norte – americanos decidem impor um embargo ao comércio e repor definitivamente relações comerciais com os cubanos, situação que ainda permanece. Este embargo dificulta outros países que mantêm relações com os Estados Unidos estabelecer relações comerciais com Havana.

Fidel Castro se tornaria o inimigo número um de Washington nos anos 60 pela reputação de esquerdista, especialmente nos países latino-americanos onde por precaução os militares assumem o comando em diversos países do cone – sul. Ao povo cubano Fidel fazia discursos que duravam seis até oito horas sempre criticando os Estados Unidos. No Brasil falar em Cuba era querer ser comunista até que um jornalista brasileiro resolve em plena ditadura visitar a ilha de Fidel Castro. Fernando Morais visitou Cuba e escreveu um best-seller, “A Ilha” virou ícone da esquerda brasileira e entre os estudantes universitários após a abertura política.

O livro aborda a Cuba pós-revolução sob diversos aspectos: cotidiano dos anos 70; cultura e relações com o mundo, urbanização, eleições ou a falta delas, reforma agrária e economia. O livro ressalta: “Cuba eliminou o analfabetismo e reduziu a mortalidade infantil acima de qualquer outro país latino – americano, bem como nos aspectos educação; saúde e esportes.

Por causa do boicote americano, Cuba estabeleceu um rigoroso racionamento, inclusive de comida que persiste até agora. Isso tornou a economia cubana dependente da União Soviética. A queda do Muro de Berlim, que estabeleceu o fim do regime comunista, representou um duro golpe ao que se mostrava no livro de Fernando Morais. Toda a ajuda financeira recebida por outros países comunistas desapareceu. Atualmente em Cuba os empregos são escassos, o comércio é pequeno, não há lojas de grife e o principal produto de exportação continua sendo a cana de açúcar.

A internet ainda é discada e só há banda larga só nos hotéis de turismo internacional. O salário médio de um cubano é 480 pesos ou US$ 20 aproximadamente. Por isso os automóveis continuam sendo a principal atração de quem circula por Havana. São quase todos fabricados nos Estados Unidos antes de 1959, ano da revolução. Também há carros soviéticos como o Lada e o Moscovich. Ter um carro em Cuba é como ter uma casa ou apartamento, é um bem passado de pai para filho. Por isso todos consideram que uma viagem a Cuba pode significar uma viagem no tempo, mas é importante citar que a embaixada cubana em Washington reabriu, mas o secretário de Estado, John Kerry, também deixou claro que, apesar do histórico acontecimento, seu país ainda mantém críticas à política de Cuba no que diz que respeito aos direitos humanos.
Por outro lado, o ex-presidente Fidel Castro veio a público defender uma indenização pelos prejuízos do embargo imposto há mais de 50 anos.

Vale lembrar que apenas 90 milhas de mar separam Miami de Havana e agora as portas estão abertas novamente para ir e vir, mas só a passeio. Dificilmente cubanos voltarão a fixar residência com facilidade nas terras de Tio Sam.

Ouça o Estadão Acervo aos sábados às 6 e 18 horas com reprise no domingo também às 6 da manhã na Rádio Estadão – FM 92,9 mHz.

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