Estadão Acervo reacende polêmica em torno do frevo

Geraldo Nunes

17 Fevereiro 2014 | 00h46

Em nosso programa pela Rádio Estadão, em FM 92,9 e AM 700 trouxemos de volta uma discussão ainda não esclarecida sobre o real surgimento do frevo que poder ter nascido na África, embora historiadores entendam que o ritmo nasceu mesmo nas ruas de Olinda e Recife pelo final do século XIX graças ao povo.

O carnaval brasileiro é mais longo que o de outros países porque no mundo a data oficial é na terça-feira, 4 de março, mas aqui a festa já começa na sexta, em 28 de fevereiro e só termina depois do meio – dia da quarta – feira de cinzas, dia 5 de março, especialmente em Recife onde o frevo explode para a alegria dos foliões e dos turistas que chegam de todas as partes. Por causa disso desde o início do ano grupos e bandas de frevo já desfilam pelas ruas da capital pernambucana.

Dançar o frevo é uma das coisas mais difíceis porque o ritmo é extremamente rápido e tem aproximadamente 120 passos de dança catalogados. Os passistas pulam se abaixam, levantam e caminham dobrando os joelhos e segurando sombrinhas. Historicamente o frevo é considerado um ritmo genuinamente brasileiro nascido por influência do maxixe e da capoeira.

A folclorista, professora e historiadora da Fundação Joaquim Nabuco, Rita de Cássia Araújo, informa que no final do século XIX já se dançava o frevo nas ruas de Olinda e Recife.  “Foi em um congresso carnavalesco promovido em 1911, que o frevo se tornou reconhecido como dança e música de característica própria”, explica a professora acrescentando que a palavra frevo, vem da pronúncia incorreta da palavra ferver. “O povo dizia, ‘frever’, por causa da fervura e efervescência da dança”. Na imprensa a palavra frevo aparece pela primeira vez no jornal Pequeno de Recife, em 9 de fevereiro de 1907, data utilizada pelo governo brasileiro para criar o Dia Nacional do Frevo, ritmo reconhecido pela Unesco como Patrimônio Imaterial da Humanidade.

 Há, no entanto, um emaranhado de intermináveis dúvidas sobre o verdadeiro nascimento do frevo que seria na verdade um ritmo africano. O embaixador e membro da Academia Brasileira de Letras – ABL, escritor Alberto da Costa e Silva esteve em 1972 na Costa do Marfim, onde o então presidente daquele país,  Houphouët-Boigny promoveu uma festa para homenagear a delegação brasileira e um grupo local executou um ritmo daquele país semelhante ao frevo. “Nós brasileiros ficamos entusiasmados com aquela apresentação e começamos dançar”, conta o embaixador que perguntou do que se tratava e lhe disseram que ser uma dança de máscaras cujo nome no país é ‘senufo’. “Lá são acrescidos aos instrumentos taróis, metais e madeiras, mas o presidente marfinense percebendo nosso entusiasmo pediu para a banda militar ali presente executar a mesma música com pistões e trombones e então o ritmo se tornou igualzinho ao frevo”.

De volta ao Brasil, o embaixador Costa e Silva publicou um artigo contando o que viu e recebeu de volta uma carta do maior africanólogo brasileiro que é Paulo Fernando de Moraes Faria, professor de história da África, na Universidade de Birmingham, no Reino Unido, contando que em 1966, em uma festa de casamento, dançou o frevo no Mali, outro país africano da mesma região cultural.

Ocorre que a origem do frevo já tinha a sua história muito bem contada e estabelecida. Para o historiador Valdemar de Oliveira, no livro ‘Frevo, capoeira e passo’, o ritmo surgiu das seguidas composições de música ligeira para o Carnaval, enquanto que o passo brotou mesmo do povo, sem regra, nem mestre, como por geração espontânea. Para Oliveira, o pernambucano tem orgulho de possuir uma dança e uma música características. Deste modo, a hipótese do frevo não ter surgido lá, pode ser visto por alguns, como um acinte ao povo de Olinda e Recife.

Apesar disso, a historiadora Rita de Cássia Araújo, da Fundação Joaquim Nabuco nos disse que não tinha conhecimento dessas informações do embaixador e escritor, Carlos Alberto Costa e  Silva, obtidas há mais de quatro décadas e se disse tentada em pesquisar mais sobre a origem do frevo, se possível viajando até os lugares onde ele esteve. Já o musicólogo Ricardo Cravo Albin, que reside no Rio de Janeiro entende que o frevo, apesar de sua possível origem africana não deixaria de ser brasileiro. “O samba também é um ritmo derivado do lundu, trazido da África pelos escravos e tem suas características próprias, assim também é frevo”, conclui o musicólogo lembrando que esses ritmos variam no formado de um lugar para outro e só no Brasil se dança o frevo da forma como fazemos.

Ouça a íntegra do programa: http://radio.estadao.com.br/audios/audio.php?idGuidSelect=7F3E34F3DD294EEF989EC8C0B7D126EC