Diário de uma vitoriosa

Geraldo Nunes

04 Julho 2014 | 09h33

 

Costumeiramente quando assistimos às imagens da eletrizante final da Copa do Mundo de 1958 vemos nas arquibancadas elegantes senhoras assistindo à partida. Entre elas está uma brasileira Naydina Aranha de Freitas que em 1958 escreveu um diário daquela viagem inesquecível onde é colocado o olhar feminino de 50 anos atrás a respeito daquela que foi nossa primeira grande conquista no esporte.

 

 Tivemos acesso a este diário de viagem através de Michel Gorski, editor da Revista Arquiteturismo e amigo de Diogo Figueiredo de Freitas que é neto de Naydina Aranha de Freitas. Esta senhora já falecida foi viúva do jornalista Clóvis Glicério de Freitas que viajou à Suécia, como enviado especial do jornal O Estado de São Paulo levando consigo a esposa. Ela por sua vez escreveu aqueles acontecimentos envolvendo a decisão, de maneira sensível e pessoal visto que não tinha por costume assistir a jogos de futebol.  Leia como foram os dias finais da viagem de Naydina Aranha de Freitas e seu marido Clóvis, na Suécia.

Estocolmo, 28 de Junho de 1958.

“ Sábado! Véspera do grande jogo. Todos já se sentem um pouco nervosos, mas com grandes esperanças. Saí com Clovis e fomos à Panair cuidar da passagem de volta. Ficamos na mesma, sem conseguir nada. Estou começando a ficar preocupada sem saber como iremos sair da Suécia. Os vôos estão todos tomados e só nos resta a esperança de voltar com os jogadores.

Andamos fazendo compras e fomos almoçar num restaurante muito simpático que nós apelidamos de ovos estalados pela maneira curiosa do toldo da frente… parecendo um ovo… Gosto de sueco!

Enquanto comíamos desabou uma chuvarada e ficamos preocupados com o estado do campo para amanhã… Saímos às 16 horas de lá e andamos pisando pela grama dos parques para calcular a profundidade do enxarcamento… Parecíamos uns tontos.

Chegamos ao hotel e foi só o tempo de trocar de roupa para irmos ao cocktail da Embaixada Brasileira. Celina e Fraga (embaixatriz e embaixador) resolveram homenagear os brasileiros todos que foram assistir à copa e eu ajudei-a a fazer os convites. Encontramos todos os amigos e foi uma recepção muito simpática.

Voltamos ao hotel às 20 horas e fomos para o bar tomar um drink com a turma de São Paulo e resolver onde iríamos jantar.

Decidimos ir a um lugar onde Lily Zvedelius (anfitriã sueca) tinha nos indicado: Den Gyldene Freden – Paz de Ouro (em português, está claro!). Como éramos em um grupo enorme, foi preciso dividir em várias mesas.

 O lugar é uma beleza, era uma caverna, cavada na rocha com vários planos e muito bem decorada. Comida excelente e saímos de lá à meia noite e fomos para o hotel. Está claro que as conversas só giravam em torno da partida de amanhã.”

Estocolmo, 29 de Junho de 1958.

“Domingo. Dia do jogo final!… Stockholm amanheceu sob uma chuva torrencial. Cheguei mesmo a acordar durante a madrugada e a chamar Clóvis para que visse o tempo que nos era tão pouco propício para o futebol. Fui à missa das 11 horas com Dea, Dona Yara e as meninas.

Mudaram o horário da partida para as 15 horas e resolvemos almoçar muito cedo. Comemos no próprio hotel em Smorsgnbord na companhia do Dr. Luiz Mesquita, sua mulher Maria Alice e Pedrinho Leardi. Ainda ficamos no Hall a espera do Erik Zvedelius e turma para sairmos para o campo.

Às 14 horas saímos do hotel em três automóveis. Fomos, confessam nervosos e apreensivos.

A chuva tinha parado, mas o campo deveria estar ainda encharcado. Tomamos os nossos lugares e as pernas começaram a tremer na expectativa. A torcida sueca era impressionante, aos gritos e aos urros cantavam o hino sueco. Isso foi nos enervando, cada vez mais e quando os nossos jogadores entraram em campo estávamos super excitados.

Ao som do hino nacional brasileiro a emoção era tal que chorei feito uma louca. Levava comigo o papelzinho que tem me acompanhado em todas as partidas uma espécie de talismã que tem dado muita sorte.

A presença do Rei Gustavo deu certa importância à peleja e foram executados os hinos da Suécia e do Brasil.

Iniciado o jogo, logo nos primeiros minutos os suecos marcam o primeiro goal, o que fez a torcida delirar. Fiquei até atordoada… Clovis e Luiz Mesquita pareciam uns leões na jaula. Não paravam quietos nas cadeiras. Logo depois, no entanto, marcamos o goal do empate. Foi a nossa vez de gritar, pular, fazer sinais com as bandeiras, imediatamente de vários pontos das arquibancadas ouviam-se vozes pedindo “mais um”, “mais um”, eram os brasileiros que se uniam engrossando cada vez mais a torcida. Daí a pouco, como que coroando o desejo desses corações que batiam em uníssono, os rapazes marcaram o goal da vitória. Crescemos em campo, dominamos os nervos, firmamos o pé e ninguém mais nos segurou. Nem torcida contrária, nem campo molhado, nem Lindholm, Gunar Gun ou outros fantasmas que há minutos antes nos assustavam. Queríamos voltar ao Brasil triunfantes, levando a taça há tanto tempo almejada.

E conseguimos nosso intento: 5×2 foi a sonora contagem. Delírio dos brasileiros ao término da partida. Choro convulsivo de jogadores, emoção geral. Ficamos eufóricos, abraçávamos-nos, ríamos parecíamos uns doidos. O Rei desceu ao gramado para cumprimentar os vitoriosos.

Podíamos voltar à nossa terra de cabeça erguida, pois tínhamos sabido defender as nossas cores dentro de uma perfeita harmonia, debaixo de exemplar comportamento.

Saímos pelas ruas radiantes, empunhando as bandeiras. Nos dirigimos diretamente à Embaixada, onde fomos tomar a taça da champagne bem merecida. Cada um que entrava pelo apartamento de Celina era aquela algazarra. Há horas tantas chegaram os jogadores e a delegação. Vivas ecoaram de todos os cantos, hip-hip-hurras, uma bela acolhida. O Embaixador fez um pequeno discurso que foi agradecido por Paulo Machado de Carvalho. Leram-se os telegramas de congratulações e convidaram à embaixatriz como representante da mulher brasileira para beber em 1º lugar na “Coupe du Monde”. Em seguida o Paulo de Carvalho, o Embaixador, o Bellini como capitão do team e o Feola como técnico. Foi uma cerimônia comovente. Abracei a todos os jogadores e estávamos quase sem fôlego e roucos. Às 20 horas todos se retiraram.

Nós fomos ao hotel trocar de roupa, pois combinamos a comemoração num restaurante Hassel Becker aonde iam todos os torcedores. Tinham nos reservado uma sala e foi uma festa maravilhosa. Champagne a rodo, hurras, vivas, cantoria, fogos de artifício, sendo que os suecos que nos rodeavam aderiram plenamente, demonstrando que são verdadeiros sportsman, sabendo perder com dignidade. Chegamos a puxar cordão, pular, cantar, todos alucinados de alegria.

Quando terminou o jantar resolvemos assistir à festa dos jogadores que estava sendo realizada no Press Club, no Hotel Malmen. Ficamos lá mais ou menos uma hora e nos divertimos em ver nossos heróis sendo assaltados por loiras infernais!

Chegamos ao hotel às 3 horas, mortos de canseira de tantas emoções passadas….”

Essa publicação foi uma homenagem a Naydina Aranha de Freitas que chegamos a conhecer em visita a seu marido Clóvis e a ela, em companhia do poeta  Paulo Bomfim e do cronista Antonio Penteado Mendonça.

Que a alma vitoriosa da Seleção Brasileira sempre campeã, desde 1958, permaneça em nossos corações.