Declaração de amor ao Rádio

Geraldo Nunes

04 Novembro 2013 | 00h43

 Hélio Ribeiro foi um grande cronista do rádio. Apresentador de programas se notabilizou por traduzir as canções em inglês que tocavam na programação. Eu sei quase decorada a tradução de “Imagine”, composição de John Lennon, de tanto ouvir nos programas dele. Seu nome verdadeiro é José Magnoli e o nome artístico veio por sugestão de Blota Jr.

 Considerado um dos maiores comunicadores que o rádio brasileiro já teve, Hélio Ribeiro trabalhou e dirigiu a maioria das emissoras por onde passou, rádios como Record, Piratininga, Tupi, Difusora, Bandeirantes, Capital, Gazeta e Globo. Faleceu em 6 de outubro de 2000 deixando uma legião de fãs que montou para ele um portal com inúmeras gravações de seus programas, onde pode-se ouvir as traduções de canções em inglês e francês e ainda suas inúmeras crônicas. O endereço:http://www.helioribeiro.com/v4/

 Para aproveitar mais uma data comemorativa ao Dia do Radialista, criada a partir do governo Lula para ser comemorada em 7 de novembro, trago uma crônica de Hélio Ribeiro redigida nos anos 70 que serve como declaração de amor a esse veículo de comunicação. O leitor deve compreender que se trata de um texto antigo, assim algumas formas de comunicação utilizadas pelo rádio naquela época se modificaram. Também era de conhecimento apenas restrito que um brasileiro, o padre Roberto Landell de Moura, foi o verdadeiro descobridor do rádio e por isso Marconi é citado no texto inúmeras vezes. Mas vale a pena sentir “o poder da mensagem”.

 Crônica de Hélio Ribeiro alusiva ao Dia do Rádio

“O meu nome é Rádio…
Eu não envelheço…me atualizo. Materialmente, eu sou aperfeiçoado a cada dia.
As grandes válvulas da minha cabeça foram substituídas por minúsculos componentes eletrônicos.
Os satélites de comunicação gigantescos girando ao redor desse planeta, permitem-me a ser hoje mais universal, dinâmico e menos complicado. Como o meu pai Marconi, queria que fosse.
A minha forma técnica tem sido aperfeiçoada a milhares de anos luz, mas acho que no todo, o meu conteúdo ainda necessita ser melhorado e aperfeiçoado.
Tenho noção…mas já perdi a conta do número de pessoas que já ajudei indicando caminhos, devolvendo esperanças, anulando a tristeza, conseguindo remédios, sangue, achando documentos perdidos, divulgando nascimentos e passamentos.
Mas, eu não sou tão sério como possa estar parecendo. Na verdade, um dos meus principais interesses é fazer com que as pessoas vivam mais alegres. Por isso, passo a maior parte do tempo ensinando as pessoas a cantar e dançar.
A minha grande vontade é de ser amigo…sempre. O amigo que todos gostariam de ter: útil nas horas sérias, alegre nas brincadeiras e responsável…sempre.
No esporte, tô sempre em cima do lance!! Dos dois lados da rede das bolinhas de tênis ou do voleibol…E lá vem a bola na área do futebol, jogou na cesta?…tô lá!! Nadou, pulou, saltou, girou, pegou ou roubou?…tô lá!!
Pode ser no pequeno clube da periferia ou nos grandes estádios olímpicos, tenho noção da minha força política.
Com um notícia que dou, posso ajudar a eleger um Diretor ou derrubar um Presidente.
Entendo da minha grande responsabilidade de agente acelerador das modificações sociais e morro de mêdo que me transformem em um mentiroso alienador.
Sem querer ser vaidoso, eu posso até afirmar que se eu não tivesse nascido, o mundo não seria o mesmo.
O meu nome é Rádio…
Eu não quero ser mal entendido. Eu sou apenas um instrumento. Para fazer tudo que eu disse que faço, eu preciso de uma equipe de seres humanos…humanos!!
Preciso de pessoas que não tenham medo do trabalho, que entendam de alegria, emoções e fraternidade. Que saibam sentir o pulso do campo e o coração da cidade e que tenham noção básica de que tudo aquilo que fazemos, é para conquistar ouvidos e melhorar pessoas.
O que jamais conseguiremos se nos esquecermos que a minha existência se deve ao número daqueles que me ouvem? O Rádio vale pelo volume e qualidade de seus ouvintes.
Eu poderia fazer muito mais, mas às vezes falta dinheiro para fazer tudo aquilo que eu quero. Eu sei que posso realizar o sonho do meu pai Marconi e mudar o mundo para melhor.
Outro dia, fiquei muito triste quando ouvi um tal de Hélio Ribeiro dizer que eu…o Rádio, sou a maior oportunidade perdida de melhorar o mundo.
Eu sou apenas um instrumento que preciso de gente que entenda e respeite e que me ajude a cumprir a minha missão…Ahh!!!…Com alegria…muita alegria…se possível.”
HR