Conheça a Igreja das “boas notícias”

Geraldo Nunes

23 Fevereiro 2015 | 01h07

A igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, construída em 1810 no alto da Tabatinguera, tem esse apelido. O ponto de sua construção era considerado estratégico para a São Paulo antiga. Dali se via do alto de sua torre, toda a Várzea do Carmo e o caminho do Lavapés, um córrego que desaguava no então sinuoso Tamanduateí, nessa época também chamado de Rio das Sete Voltas. Por esse trajeto entravam no burgo paulistano os tropeiros e demais viajantes provenientes de Santos.

Apesar de essa paróquia ter um nome que hoje desperta uma sensação mórbida, o fato é que no século 19, o ato de morrer bem significava uma graça divina, destinada a poucos. Não havia antibióticos e nem analgésicos, muito menos vacinas ou tratamentos dentários. Ou seja, uma gripe mais forte ou até uma infecção provocada por um dente cariado podia significar a sentença final. Vivia-se praticamente à sorte da natureza e por este fato morria-se muito mais cedo por doenças simples, que se tornavam incuráveis, geralmente acompanhadas por sofrimentos e dores horríveis.

Morrer sem sofrimentos era uma graça de Deus o que fazia desta humilde construção, erguida em taipa de pilão e adobe, na esquina com Rua Carmo uma das mais queridas da cidade. Desta época resulta o apelido carinhoso “igreja das boas notícias”, porque dela se via quem chegava e quem saía, diz o livro “Igrejas de São Paulo”, de Leonardo Arroyo, um dos clássicos da literatura paulista.

Com o avanço da medicina e o aumento da longevidade, a igrejinha tornou-se quase esquecida e viveu momentos de abandono com a falta de conservação. Pelo final do século XX quase veio abaixo, mas acabou passando por um processo de recuperação e a reabertura da Igreja da Boa Morte aconteceu em 2009.
A obra de restauro foi muito bem sucedida, dizem os entendidos em arquitetura e história da São Paulo antiga. Sua recuperação passou despercebida pela maioria dos paulistanos, atrás dos tapumes e andaimes que a encobriam, numa obra de minucioso restauro que durou quase três anos e realizado por cerca de 60 pessoas a um custo de R$ 6,5 milhões, bancado pela iniciativa privada através das leis de incentivo. Desde a reinauguração vem funcionando no atendimento da população carente.

Tombada pelos órgãos de proteção ao patrimônio municipal e estadual, a igreja de arquitetura colonial, foi fechada após interdição por problemas na estrutura e no teto que ameaçavam ruir. “Toda a madeira da estrutura interna das paredes de taipa de pilão foi tomada por cupins e houve a necessidade de se retirar cerca de dez toneladas de madeira apodrecida”, contou o engenheiro Ronaldo Dias, responsável pela execução do restauro.
Durante os trabalhos houve surpresas como uma pintura barroca, do coroamento da Virgem Maria, encontrada sob camadas de tinta cinza, em tábuas do forro de madeira sobre o altar. O antigo forro, anteriormente desmontado no chão da igreja, foi restaurado e recolocado no local. Também foram restauradas 13 imagens sacras do século XIX pertencentes ao acervo da igreja e entregue aos padres da Aliança da Misericórdia, que atuam com a população carente.

A veneração a Nossa Senhora da Boa Morte é uma tradição da Igreja Católica. No ano de 1661, no sítio do Cabo, na freguesia da Ponta do Pargo Portugal, já existia uma capela de Nossa Senhora da Boa Morte, fundada por Francisco Homem de Couto.

O louvor a essa santa chegou ao Brasil por meio dos portugueses e a imagem de Nossa Senhora da Boa Morte também é venerada em Salvador, Bahia, na igreja da Glória e Saúde, mas é na cidade de Cachoeira – BA, no recôncavo baiano, que são realizadas as maiores celebrações organizadas anualmente pela Irmandade da Boa Morte. Existe também na cidade de Santos – SP, uma Confraria de Nossa Senhora da Boa morte, localizada no Convento de Nossa Senhora do Carmo.