Cartola: Um sambista delicado e elegante

Geraldo Nunes

03 Dezembro 2013 | 04h19

Sou apresentador na ‘Rádio Estadão’, de um programa chamado ‘Estadão Acervo’, que vai ao ar aos sábados às 6h e às 14 horas e aos domingos às 7 horas tanto na FM 92,9 como em AM 700 na capital paulista. Nele ressaltamos através das ondas sonoras o que há de mais interessante no arquivo digitalizado de  ‘O Estado de São Paulo’, mas neste fim de semana destacamos o acervo da rádio que em parte também já está na era digital.

Lá falamos de um tal de ‘seu Agenor’ que descobriu não ter esse nome, no dia em que ele foi se casar. No cartório o informaram que seu nome verdadeiro era Angenor, ou seja, havia um “n” no meio e desse modo ele passou a assinar, Angenor de Oliveira, mais conhecido por Cartola. Ele ganhou esse apelido ao trabalhar em uma obra, onde foi contratado como servente de pedreiro e para se proteger da cal, que sujava o cabelo, passou a usar um chapéu coco. Os colegas de trabalho o passaram a chamar de Cartola, mal sonhando que, na verdade, estavam dando o nome artístico a um grande compositor da música brasileira, o nosso mestre Cartola que está entre os sete fundadores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira.

Ao longo de seus 72 anos de vida, o mestre compôs cerca de 500 sambas.  Entre as canções onde houve, de fato, parcerias estão nomes como Elton Medeiros, Carlos Cachaça, Dalmo Castello e até Noel Rosa.  O compositor dizia, quem gosta de homenagem póstuma é estátua. Apesar disso fizemos menção aos 33 anos de se passamento, buscado no arquivo da emissora uma entrevista dele para o programa FM Inéditos da Rádio Eldorado, gravado em 1978,  com produção de Aloízio Falcão.  Lá o mestre Angenor falou de sua vida citando curiosidades como, por exemplo, a venda de algumas parcerias em suas músicas para artistas já consagrados, como Mário Reis.  Ocorre que o samba escolhido acabou não ficando bem na voz dele e Francisco Alves foi quem gravou a composição “Divina Dama”, de 1933. O pesquisador musical Ricardo Cravo Albin, a considera o primeiro sucesso popular de Cartola que ainda assinava Agenor de Oliveira.

 No mesmo programa que teve uma edição especial para o nosso ‘Estadão Acervo’ radiofônico, o compositor Cartola conta que foi ele quem deu o nome Estação Primeira à escola de samba surgida no Morro da Mangueira e que as cores verde e rosa vieram por sugestão dele por causa do bloco ‘Arrepiados’ onde ele desfilava e tinha essas cores.
 Dona Zica, sua célebre companheira, ele já a conhecia desde a infância, porque quando menina ela desfilava no bloco ‘Seu Júlio’, concorrente do ‘Arrepiados’, mas só foram namorar muitos anos depois. “Nos unimos em 1952, mas só fomos nos casar oficialmente em 1964”, contou enfatizando que “As Rosas não Falam”, uma de suas mais belas músicas, foi feita para ela.

O casal passou por dificuldades com o restaurante Zicartola, que não dava lucro, mas  permitiu ao compositor se tornar mais conhecido entre os artistas, porque a maioria dos frequentadores vivia da música e lá puderam desfrutaram de momentos musicais inesquecíveis. “O sol Nascerá”, parceria com Elton Medeiros e sucesso na voz de Nara Leão, é dessa época. Também é “O Mundo é um Moinho” gravada por Cartola em 1976, foi regravada depois por Ney Matogrosso e o cantor Cazuza.

Há uma versão que Cartola teria feito essa música para sua enteada, filha de Dona Zica, que teria o propósito de sair de casa para se prostituir.  Ao ouvir os versos escritos pelo mestre, percebe-se o quão plausível pode ser essa versão, mas nunca houve uma confirmação, embora se saiba que a música foi feita para essa enteada, mas motivada por uma decepção amorosa.

A letra.

“Ainda é cedo, amor Mal começaste a conhecer a vida Já anuncias a hora de partida Sem saber mesmo o rumo que irás tomar Preste atenção, querida Embora eu saiba que estás resolvida Em cada esquina cai um pouco a tua vida. Em pouco tempo não serás mais o que és Ouça-me bem, amor Preste atenção, o mundo é um moinho Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho Vai reduzir as ilusões a pó Preste atenção, querida De cada amor tu herdarás só o cinismo Quando notares estás à beira do abismo Abismo que cavaste com os teus pés”.

Durante a entrevista ao FM Inéditos, Cartola também cantou ao violão.  O programa depois de ter ido ao foi editado em LP e CD, pela Gravadora Eldorado se transformando em um disco depoimento póstumo, pois seu lançamento aconteceu em 1982, e Cartola faleceu em novembro de 1980.  O sonho de gravar um disco só dele foi realizado em 1974, quando o compositor já estava com 65 anos.  Sua vida humilde e a falta de oportunidades fizeram com que sua obra só se tornasse conhecida num disco lançado pelo produtor Marcus Pereira.  Depois que sua obra veio ao público jovens cantores passaram a regravar essas músicas e assim vai até hoje, embora a saudade de Cartola esteja cada vez maior a cada dia.

Cartola está sepultado no cemitério do Cajú, no Rio de Janeiro. Na edição de 2 de novembro de 1980 de ‘O Estado de São Paulo’, uma terça-feira, o jornal estampava uma análise sobre a vida do compositor com os dizeres: “Lindo, delicado, elegante: as marcas do seu samba”.

Confira essa reportagem: http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19801202-32431-nac-0023-999-23-not