Até agora tudo igual como em 50. Só não queremos novo “maracanazo”

Geraldo Nunes

16 de junho de 2014 | 00h07

Estamos no início do Mundial de Futebol no Brasil e a alegria tomou conta dos corações. Nosso país é assim, de gente boa e hospitaleira e os torcedores estrangeiros estão gostando de nosso país graças ao povo hospitaleiro.  Os protestos da população que aqui vive, por sinal legítimos, deverão diminuir conforme a seleção canarinho vá evoluindo na competição, é o que avaliam especialistas.  O legado da copa será avaliado com o passar do tempo.                             

O Brasil concorreu com a Colômbia para promover a Copa do Mundo 2014 no continente sul-americano, como queria a FIFA. A proposta vencedora foi a brasileira porque previa doze cidades recebendo os jogos e mais de R$ 25 bilhões investidos em aeroportos, estádios e novos sistemas de transportes. A decisão da entidade, foi anunciada em 30 de outubro de 2007, na presença do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o rei do futebol, Pelé e o escritor Paulo Coelho.  Radiante e esperançoso pelo sucesso da copa em nosso país, Lula discursou emocionado aos presentes, dizendo acreditar que haveria uma expectativa positiva do povo que não veria a hora do campeonato começar, “afinal o brasileiro adora futebol”, comentou na época o ex-presidente. Mas ao longo de sete anos o que se viu foi o não cumprimento de promessas de melhoria na mobilidade urbana das cidades envolvidas no evento.  Lembram-se do “Trem Bala” que ligaria Rio – São Paulo e Campinas? Pois é, não saiu do papel.

Outro desencanto foi o fato dos governantes dizerem que não colocariam dinheiro público em nenhuma obra de construção ou reforma de estádios, cabendo tudo à iniciativa privada, mas o que se viu foi o uso do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, no financiamento justamente das obras nos estádios.

Por esses motivos e ainda pela aproximação das eleições presidenciais, manifestações passaram a acontecer desde de junho do ano passado, com a palavra chave “Não Vai ter Copa”.

 Com a chegada das primeiras seleções e dos turistas, as bandeiras verde – amarelas começaram a ser ostentadas ainda que timidamente. A alegria dos torcedores estrangeiros  contagiou a população, ruas começaram a ser decoradas e a Copa do Mundo passou a ser uma realidade.  O fato de termos deixado tudo para última hora, entretanto, mereceria uma profunda discussão com análise até do Congresso Nacional. O que acontece com o Brasil que não consegue tocar obras públicas. Incompetência, burocracia ou roubalheira? A experiência de promover outra Copa do Mundo, anterior a essa, em 1950, de nada adiantou e naquela oportunidade aconteceu a mesma coisa. Houve quatro anos de preparação, mas a construção do Maracanã só começou em agosto de 1948 e sua inauguração se deu em 17 de junho de 1950, faltando uma semana para a abertura do mundial. Foi um alívio para a Fifa porque ainda não havia ainda condições para grandes disputas na Europa, quase destruída durante a Segunda Grande Guerra.

A prefeitura do Rio foi quem tocou a obra do Estádio Municipal cujas obras foram iniciadas com atraso em agosto de 1948.  A sorte do Brasil é que o evento, inicialmente agendado para 1949, foi transferido para 1950, para que as seleções europeias pudessem se preparar. Cerca de quinhentos mil sacos de cimento, seis empreiteiras e 4500 operários trabalhando nos meses finais foram necessários para a construção do Maracanã. A obra do maior estádio do mundo durou 667 dias e depois beneficiou o Brasil que mostrou ao mundo ser capaz de ter um estádio de tamanha envergadura.  O Brasil vencia seus jogos de goleada: 7 a 1 sobre a Suécia e 6 a 1 sobre a Espanha. Essa vitória levou a torcida a cantar na arquibancada uma antiga marcha de carnaval, Touradas de Madrid, composição de Braguinha. Veio a grande final com o Uruguai e na Rádio Nacional o prefeito do Rio saudava a seleção brasileira como já sendo ela a campeã do mundo. Participaram do Mundial de 1950 os seguintes países: Brasil, Iugoslávia, Suíça, México, Espanha, Inglaterra, Chile, Estados Unidos, Suécia, Itália, Paraguai, Uruguai e Bolívia.

As cidades brasileiras que sediaram os jogos foram além do Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, São Paulo, Recife e Porto Alegre. Aquela foi a quarta Copa do Mundo realizada pela FIFA e a que teve o maior número de goleadas históricas como os 8 X 0 do Uruguai em cima da Bolívia, os 7 X 0 do Brasil na Suécia e 6 X 1 sobre a Espanha, na semifinal.

 Muitos craques foram revelados na copa de 1950, entre eles: Ademir de Menezes, Zizinho, Jair da Rosa Pinto, José Carlos Bauer e os uruguaios Obdulio Varela e Juan Alberto Schiaffino. Apesar da derrota do Brasil para o Uruguai por 2 x 1, a Copa do Mundo de 1950 em seu final rendeu elogios ao brasileiro pela receptividade aos visitantes em um evento internacional dentro do país. Acreditamos que tal orgulho também ficará para os brasileiros de 2014, com um diferencial. A seleção brasileira de 64 anos atrás começou arrasando e terminou desmoralizada e a dese ano começou vacilante e acusada de proteção da arbitragem. Esperamos que o time de Felipão se redima dos erros e chegue ao título.  O povo brasileiro suporta tudo, mas seria demasiado sofrimento ter um segundo “Maracanazo”.

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