As lembranças de Pagu na Rádio Estadão

Geraldo Nunes

09 Março 2015 | 00h58

Toda a programação desta semana na Rádio Estadão foi destinada a enaltecer a importância do Dia Internacional da Mulher e no programa Estadão Acervo, que apresento na emissora, ressaltei a figura de Patrícia Galvão, mulher pensante em uma época onde o sexo feminino só servia para comandar o lar e ser mãe de muitos filhos. Militante política engajada e preocupada com o futuro do Brasil, foi ela a responsável pela introdução da soja em nosso país, como discorrerei.

Seu filho, o jornalista Geraldo Galvão Ferraz, depois de guardar durante anos, textos e fotografias do acervo particular da família, conseguiu criar o Centro de Estudos Pagu, na sede da Unisanta – Universidade Santa Cecília, em Santos e para lá destinou o acervo.
O apelido Pagu, pelo qual ficou conhecida, foi sugerido pelo poeta Raul Bopp.

O biógrafo de Pagu, Augusto dos Santos, escreve que a ideia nasceu de um equívoco. “Bopp aconselhou que ela usasse um pseudônimo literário formado pelas duas primeiras letras de seu nome e as duas primeiras do sobrenome, mas o poeta achou que fosse Patrícia Goulart e propôs Pagu, mesmo assim pegou.” Mulher pouco convencional para o seu tempo, Patrícia Galvão teve uma trajetória ímpar na história da literatura sendo uma das poucas escritoras brasileiras que atraem o interesse de estudiosos estrangeiros. Paulista, ela nasceu na cidade de São João da Boa Vista, em 9 de junho de 1910 e morreu em Santos, a 12 de dezembro de 1962.

Seu acervo mostra fotos da época em que ela, aos 18 anos de idade, bela e atraente, conhece Oswald de Andrade, então com 38 anos e casado com a pintora Tarsila do Amaral. Pagu começa a colaborar como desenhista na segunda fase da “Revista de Antropofagia”, que passa a ser publicada no “Diário de S. Paulo”, entre março e agosto de 1929. Ao mesmo tempo, o casamento de Oswald entra em convulsão, depois de um “affair” do escritor com a jovem Patrícia, anunciam seu casamento, para comentário geral na imprensa e na sociedade.

Em Buenos Aires, Pagu manteve contato com o grupo da revista “Sur”, que reunia escritores como Victoria Ocampo e o poeta Jorge Luis Borges entre outros nomes que hoje fazem parte da história da literatura argentina e volta convertida ao credo comunista ao qual se dedicaria com paixão por muitos anos. Foi nessa fase, ao visitar a China, que trouxe para o Brasil as primeiras sementes de soja e as introduz na agricultura. Seu feito representa hoje divisas ao país que se tornou um dos maiores exportadores de soja do mundo.

Não houve reconhecimento a esse feito e Patrícia em vez condecorada, acaba presa e submetida a torturas físicas e psicológicas pelo Estado Novo, uma das maiores ignomínias da História brasileira. Antes, em 1933, lançaria o “Parque Industrial”, livro ao qual ela qualificava de “romance proletário”. A edição saiu publicada sob o pseudônimo Mara Lobo, em edição financiada por Oswald de Andrade com tiragem limitada, quase clandestina, com capa da própria autora.

Ao fazer uma auto – avaliação de seu passado marxista-leninista ortodoxa, em 1938, Patrícia se torna dissidente e acaba expulsa do Partido Comunista Brasileiro. Passada a fase ativista, já separada de Oswald, Pagu torna-se jornalista em tempo integral e defensora do teatro. Casa-se com Geraldo Ferraz, também ligado ao jornalismo e com ele trocaria São Paulo pelo litoral paulista onde o marido é contratado para comandar a redação de “A Tribuna”, em Santos.

A escritora passaria a desenvolver nesse jornal uma crônica teatral por semana para em seguida criar uma função ainda inédita, de analista dos programas de TV, uma vez que a televisão brasileira ainda engatinhava na década de 1950 unicamente com as TVs Tupi, Paulista e Record.

Tentou se eleger deputada estadual pelo Partido Socialista Brasileiro, lançando um panfleto eleitoral “Verdade & Liberdade” onde fazia críticas à direita e ao getulismo e à toda a violência contra os direitos humanos durante o Estado Novo, condenando a postura do Partido Comunista Brasileiro que chegou a fazer conchavos com o caudilho e confessa, “…dos vinte aos trinta anos, eu obedeci às ordens do partido, assinara declarações que me entregavam com o pedido, assinar sem ler…”

A última etapa da vida de Patrícia Galvão é marcada por sua atuação cultural. Em “A Tribuna”, a 27 de novembro de 1955, escreve uma página dedicada ao poeta Fernando Pessoa para assinalar os 20 anos de sua morte. Em 1956, faz outra página dedicada a Dostoiévski, por ocasião do 75º ano de sua morte. Em 1959, Pagu passou a defender que a função da imprensa, num país de tamanha pobreza, era a de estimular a cultura. Mais de meio século depois, essa proposta continua atual.

É claro, que uma vida multifacetada como a de Patrícia Galvão não caberia aqui em poucas e resumidas palavras. Mas a tentativa de passar uma visão mais nítida de sua trajetória é extremamente válida para o engrandecimento da memória sobre os grandes personagens da cultura brasileira.

Ouça o Estadão Acervo nos finais de semana pela Rádio Estadão: Sábados das 6hs às 7hs e das 14hs às 15hs. Domingos das 7hs às 8hs. ou pelo link os programas que já foram ao ar:

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