As eleições e as histórias curiosas que ficaram na lembrança

Geraldo Nunes

03 de outubro de 2014 | 09h11

Na década de 1950 a população elegeu para vereador o Cacareco, um rinoceronte recém – chegado ao Jardim Zoológico de São Paulo que num ato de protesto foi levado pelo povo à edilidade paulistana. Obviamente, o bicho não foi diplomado e nem chegou a tomar a posse porque afinal não havia se candidatado. Essa é só uma das muitas curiosidades que acontecem no período de eleições. Há outras e a Câmara Municipal de São Paulo é uma das campeãs em fatos curiosos. Por exemplo, em sua história iniciada em 1560,  traz nomes de vereadores hoje conhecidos nos livros escolares como os vereadores Antônio Raposo Tavares e Fernão Dias Paes que eram analfabetos.

Séculos depois, o massagista da seleção brasileira nos três primeiros campeonatos mundiais de futebol, o simpático Mário Américo, ao encerrar a carreira, se candidatou a vereador em São Paulo e se elegeu com expressiva votação. Como era um homem simples e não sabia discursar, passou quatro anos em silêncio, só votando com a bancada de seu partido. Outro vereador que entrou mudo e saiu calado foi Biro – Biro, um meio – campista do Corinthians, muito querido pela torcida. Ele não tinha intimidade com os microfones e durante todo o seu mandato só comparecia ao gabinete, mas não assinou presença em quase em nenhuma das seções de sua legislatura. Além dele um humilde coletor de lixo cujo apelido era “Baratão” se elegeu puxado pelos votos de sua legenda. Ele também quase não sabia ler.

Já Eder Jofre, o rei do ringue, campeão mundial de boxe nas categorias dos galos e dos penas, ao terminar sua carreira se candidatou e se elegeu por dois mandatos seguidos, apresentando projetos e comparecendo em todas as seções. Jeito simples, mas pessoa honesta, foi um bom vereador. Certa vez,  revoltado com a prefeitura que não tapava os buracos das ruas, fez um protesto e desfilou pela cidade em uma carroça puxada por dois cavalos pois, segundo ele, somente em um veículo daquele tipo ainda era possível transitar por São Paulo, tamanha a buraqueira.

Eduardo Matarazzo Suplicy que já havia sido eleito deputado federal em pleitos anteriores ao de 1987,  se candidatou naquela oportunidade a vereador e se tornou presidente da Câmara Municipal na gestão de Luiza Erundina, primeira mulher a governar a cidade. Um ano depois concorreria ao Senado Federal e seu nome aparece entre um dos notáveis da casa. Outro notável é Jânio Quadros que começou vereador e passou por todos os cargos do executivo e legislativo até chegar à presidência da República. Mas nem tudo aconteceu na câmara paulistana.

Em 1978, Fernando Henrique Cardoso, que havia sido aposentado pelo AI-5, retornou à cena política como candidato pelo MDB ao Senado. Não se elegeu naquele momento, mas se tornou suplente de Franco Montoro que havia sido eleito, assumindo depois o cargo quando Montoro optou em sair para ser governador.  Por antever que assumiria o Senado em 1981,  FHC declinou ao convite para se filiar a um novo partido que nascera do movimento grevista do ABC, um tal Partido dos Trabalhadores.

No ano seguinte, 1982, aconteceu a eleição histórica que elegeria o primeiro governador de Estado pelo voto direto desde 1964.  O senador Franco Montoro concorreria ao Palácio dos Bandeirantes pelo PMDB, enfrentando como principal adversário, o ex-prefeito da capital, Reynaldo de Barros, do PDS, novo nome da ARENA, o partido dos militares. Só que antes ainda da campanha eleitoral, a TV – S promoveu um debate entre Montoro e Reynaldo. A emissora de Silvio Santos tinha um nome diferente ao de hoje, SBT – Sistema Brasileiro de Televisão. Em sua fase inicial a emissora ainda buscava uma melhor qualidade técnica e partidários de Montoro chegaram a acusar o canal de favorecer Reynaldo com uma câmera de melhor qualidade quando o focalizava. Barros aparecia na telinha, “mais bonito” que Montoro.

Ciumeiras sempre existiram, tanto que em 1989, no último  debate antes do segundo turno entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva, pela presidência da República, houve a acusação pelos petistas que Jornal Nacional teria apresentado uma edição do debate manipulada para favorecer Fernando Collor. Analisando pelos olhos de hoje, percebe-se que não houve tal intenção. Durante o embate Collor não respondia ao que lhe era perguntado e só atacava o adversário e Lula, por sua vez,  demonstrava um nítido nervosismo. Na mensagem final para completar o candidato do PT  afirmou que o oponente em vez de ser um “caçador de marajás”, como apregoava, era na verdade um “caçador de maracujás”. Como alguém que pronuncia uma afirmação sem sentido como essa, pode depois reclamar de manipulação?

Antes Fernando Henrique Cardoso já havia cometido um erro fatal, pousando para uma foto na cadeira do prefeito de São Paulo, sem ter ainda vencido a eleição de 1985. Seu adversário, Jânio Quadros, se aproveitou da situação para chamá-lo de arrogante e de contar com “os ovos na barriga da galinha”. Jânio com isso acabou virando o jogo e ganhou a eleição para a prefeitura da capital paulista. Depois chamou os jornais e tirou fotos com um spray às mãos, desinfetando a cadeira do prefeito, segundo ele, “utilizada por nádegas indevidas”.

Na eleição seguinte Paulo Maluf que liderava as pesquisas perdeu para Luiza Erundina. Desolado dizia, “vamos aguardar até o último voto!” Depois daria o troco sendo o sucessor da mesma na eleição de 1992 sempre com o bordão “Foi Maluf que fez”. Para fazer o sucessor, porém, apelou para que todos votassem em Celso Pitta “porque se Pitta fizer um mau governo, ninguém mais precisa votar em mim”, colhendo depois os frutos da frase infeliz. Nas disputas com Marta Suplicy havia muitas discussões. Narta chamava Maluf de “nefasto” e ele fazia insinuações moralistas sobre as posições defendidas por ela. Dos debates ficaram algumas frases como, “a Marta bate como homem e quer apanhar como mulher” ou ainda durante a administração da petista, “meus viadutos não caem e meus túneis não enchem d’água”. Uma outra frase infeliz do ex – prefeito, “em defesa da vida”, não iremos escrever aqui em respeito ao leitor.

Interessante também é lembrar que dois dos condenados no processo do “mensalão” foram candidatos ao Palácio dos Bandeirantes.  Em 1994, José Dirceu, foi candidato ao governo do Estado de São Paulo pela Frente Brasil Popular, ficando em terceiro lugar. Após as eleições, passou a coordenar o Programa de Combate à Corrupção, proposto pelo Instituto da Cidadania, presidido por Lula. O vencedor da eleição foi Mário Covas seguido de Francisco Rossi. Já em 2002, José Genoino surpreenderia deixando para trás Paulo Maluf e disputaria o segundo turno com Geraldo Alckmin. Na votação, Alckmin marcou 58,6% dos votos e Genoino, 41,3%, (12.008.819 votos a favor do tucano, contra 8.470.863 votos atribuídos ao candidato do PT). Neste mesmo pleito, em nível federal, Luiz Inácio Lula da Silva, bem mais lapidado politicamente, se elegeria pela primeira vez, presidente da República.

Enéas Carneiro não poderia deixar de ser citado, afinal ganhou fama mesmo com pouco tempo no horário eleitoral gratuito graças à frase “Meu nome é Enéas!” Certa vez se candidatou a prefeito de São Paulo, eleição da qual Fernando Collor tentava participar após sua cassação por oito anos em 1992. Ocorre que o período de afastamento político não tinha sido completado, mas assim mesmo foi convidado para um debate na televisão. Pelas regras, Collor tinha que fazer uma pergunta para Enéas, mas o ex-presidente não perguntou, preferindo zombar do adversário dizendo, “fale qualquer coisa”. Acostumado com poucos segundos na propaganda eleitoral, naquele dia, Enéas Carneiro deitou e rolou no seu um minuto e meio de “tema livre”.

Agora para esta eleição de 2014, a Justiça Eleitoral proíbe qualquer manifestação a favor dos candidatos. A propaganda boca de urna é considerada crime eleitoral e pode resultar em prisão em flagrante e pena de seis meses a um ano de detenção, além de multa de R$ 5 mil a R$ 15 mil. Neste pleito, o eleitor pode comparecer à seção de votação usando broches, adesivos, bandeiras, desde que manifeste sua preferência de forma silenciosa.

 

 

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