Aquifero Guarani: pode resolver falta d’água em São Paulo

Geraldo Nunes

29 Março 2014 | 12h05

Dia desses um ouvinte da madrugada na Rádio Estadão me perguntava o porquê da não utilização do Aquifero Guarani pelo governo do Estado de São Paulo como solução definitiva para o problema de abastecimento de água na capital e outras regiões. “Tal solução resolveria nosso problema sem ter que incomodar os governantes do Rio de Janeiro, preocupados com uma eventual transposição das águas do rio Paraíba do Sul para uma das represas do Sistema Cantareira”, sugeriu. Para respondê-lo sai um busca de informações. Eis o resultado.

Aquifero Guarani foi o nome que, em 1996, o geólogo uruguaio Danilo Anton propôs para denominar um imenso lençol subterrâneo de água que abrange partes dos territórios do Uruguai, Argentina, Paraguai e principalmente Brasil, ocupando cerca de 1.200.000 km² na América do Sul.

Na ocasião chegou a ser considerado o maior do mundo, capaz de abastecer a população brasileira durante 2.500 anos, mas novos estudos revelaram não ser bem assim. Um estudo desenvolvido pelo geólogo José Luiz Flores Machado, do Serviço Geológico do Brasil, concluiu que 70%  de fato, o aquifero existe no subsolo do centro-sudoeste do Brasil alcançando oito Estados. Em território paulista Ribeirão Preto, São José do Rio Preto e Presidente Prudente, se abastecem por água subterrânea extraída dele. Já em Santa Catarina e Paraná, o aquífero não é potável, por excesso de sais. Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais são estados que requerem mais estudos, embora neles as águas tendam a ter boa qualidade, estando a melhor parte mesmo em São Paulo.

O governo paulista parece desconhecer o assunto. Em recente reunião do Conselho Estadual do Meio Ambiente – Consema foi aprovado um plano dentro da Área de Proteção Ambiental – APA Botucatu, na região central do Estado de São Paulo, que mantém a permissão do uso de agrotóxicos numa das principais zonas de abrangência potável do Aquifero Guarani. Entidades ambientalistas propunham a restrição ao emprego de pesticidas e defensivos agrícolas nessas áreas visto que o Estado enfrenta sua maior crise hídrica, mas pressões de prefeitos e grupos empresariais fizeram aprovar justamente o contrário em reunião realizada em 25 de março último. A própria Secretaria Estadual do Meio Ambiente reconhece que a área da APA é uma zona de recarga dessa reserva estratégica de água doce, o que a coloca em situação de grande vulnerabilidade.

O Instituto Giramundo Mutuando, uma das entidades ambientais que integram o conselho gestor da APA Botucatu promete uma mobilização para os dias 9 e 10 de maio, em defesa do Aquifero Guarani. Conforme a entidade, as rochas de arenito que armazenam a água para a recarga do aquifero atingem a superfície do solo e ficam expostas à contaminação. A APA Botucatu abrange 218 mil hectares em nove municípios da região. O problema não está apenas neste ponto do Estado, em Ribeirão Preto, o lixo é que vem sendo depositado nas áreas de recarga, ou seja, nas áreas onde a água da chuva é absorvida e segue na direção do lençol freático que ajudam a manter o aquifero inesgotável. A preservação desses pontos é necessária e um exemplo está em São José do Rio Preto, onde o reservatório natural está a mil metros de profundidade. A cidade possui oito poços, em diversos bairros. A cada ano, porém, é necessário descer a bomba de captação, em média, em cada um deles, 4,02 metros devido ao rebaixamento do nível da água.

No poço mais antigo de captação de água do Guarani, que entrou em operação em 1978, ou seja, há 36 anos, a bomba já precisou descer 179 metros desde a primeira captação tornando mais caro o serviço à população.

O aquifero se recupera com o tempo, mas com o consumo em Rio Preto cada vez maior, não se consegue deixar os poços parados. Disso se conclui a necessidade de se manter as atuais formas de captação na Grande São Paulo, não se descartando a utilização dos mananciais existentes, mas provendo aquilo que faltar com o  Guarani.

O Sistema Cantareira desceu a 13,8% de sua capacidade, se renovado com as águas do aquifero a situação seria diferente.

O Brasil e o Estado de São Paulo estão vivendo um momento decisivo com relação à água. Não chove há três anos em diversas áreas do Nordeste e no Sudeste as chuvas rarearam, o país cresceu e as ações de infraestrutura não estão acompanhando todo esse desenvolvimento. Chegou a hora de se tomar decisões corretas baseadas em princípios que atendam as necessidades da população e não apenas aos interesses políticos.