A “presidenta” das promessas continua prometendo

Geraldo Nunes

27 de outubro de 2014 | 07h35

Existe um samba canção que aprendi  ouvindo Gal Costa nos anos 70 chamado “Alguém me disse”, cuja letra é assim, “… conheço bem suas promessas, outra ouvi iguais a essas, esse teu jeito de enganar conheço bem…” A composição de Evaldo Gouveia e Jair Amorin se enquadra bem ao cenário de nossa política onde um candidato para se eleger promete tudo e depois se cumprir metade já será digno de louvor. Com a presidente Dilma Roussef reeleita agora para mais quatro anos o quadro: prometeu até o que não podia, mas para cumprir precisará contar com a ajuda de todos, inclusive com o Senado que estará repleto de tucanos.

O Brasil hoje me parece uma nação ideologicamente parada no tempo.  Diplomado na Faculdade de Jornalismo, em 1981, aprendi ao longo dos quatro anos  de estudante universitário todo esse discurso em defesa do proletariado e contra a imprensa burguesa que voltamos a ouvir agora.  Parece que o mundo não mudou, não houve a “perestroika”  defendida por Mikhail Gorbachev, último secretário geral do Partido Comunista da URSS, para tentar salvar o regime reestruturando a economia e abrindo o país ao comércio exterior.  Em russo essa palavra significa reconstrução que, entretanto, não impediu a queda daquele governo.Depois foi a China quem se abriu ao capital externo e o país cresceu 10% a cada ano durante uma década, apesar dos chineses continuarem socialistas.

No Brasil dos meus tempos de estudante aconteciam coisas absurdas como a reserva de mercado para a informática e a proibição de importações de vários bens.  Tudo isso, porém, foi superado com a abertura política do Brasil que permitiu eleições diretas a presidente e o posterior acesso ao mercado mundial de início visto com receio por setores da esquerda e depois aceito pelo o ajuste econômico que proporcionou ao país, culminando no Plano Real e na vitória sobre a inflação. A partir dali houve crescimento mesmo com duas formas diferentes de governo praticadas pelo PSDB, de Fernando Henrique Cardoso e o PT, de Luiz Inácio Lula da Silva.

Essas duas administrações, a princípio antagônicas , cumpriram seu papel  nos cuidados com a economia, tornando possível o fortalecimento financeiro de todos os setores e até mesmo o surgimento de uma nova classe média,  “onde o pobre pode viajar de avião”, como ressalta sempre o ex-presidente Lula.

Mas veio essa campanha eleitoral e os antigos discursos que eu ouvia nos meus tempos de estudante, há quase 35 anos, voltaram a ecoar.  Para encobrir os erros praticados que permitiram a continuidade da corrupção,  o maniqueísmo tão típico da esquerda voltou a ser praticado. “Quem não concordar comigo é meu inimigo”, dando início à luta entre o bem e o mal que foi parar nas redes sociais levando pessoas a sair até nas vias de fato, como se fossem torcidas organizadas de futebol. Assistimos  amigo discutindo com amigo, irmão com irmão, famílias de um lado e de outro aos gritos defendendo este ou aquele candidato.

Entendo que entre os desafios para a presidente reeleita, além daqueles que ela prometeu, de oferecer escola para todos, investir na saúde, nos transportes, saneamento e moradia esteja também o de equilibrar a militância no sentido de ajudar a construir um país sem tanto revanchismo e que Dilma Rousseff  cumpra a promessa, por sinal mais uma, feita logo após o resultado da apuração, de promover o diálogo.

Posso parecer ingênuo, não importo o que pensem, mas considero esse fator essencial, difícil de ser alcançado, porque falta humildade em vários segmentos de nossa sociedade e também há muito preconceito e muita corrupção. Mas esse é o desafio moral do novo governo Dilma que vem aí, porque sem diálogo o país corre o risco de patinar e quem patina por muito tempo fica atolado ou cai no barranco e esse governo com suas obras inacabadas já patinou demais.

Me ouça nas madrugadas da Rádio Estadão: http://radio.estadao.com.br/

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