A Era do Rádio

Geraldo Nunes

25 de setembro de 2015 | 09h03

Durante as comemorações no Dia do Rádio do ano passado, recebi de um ouvinte bem conhecido de quase todos os apresentadores do meio, Mário Lopomo, uma pesquisa recheada de lembranças do rádio que ele ouvia quando menino, em São Paulo e depois como jornalista contratado de uma emissora. Suas lembranças viajam entre os anos 40 e 60.

Agora aposentado, Mário Lopomo manda e-mails aos âncoras das emissoras de programação jornalística e esportiva. Lendo seus textos me lembrei do filme, “A Era do Rádio”, de Woody Allen, que fala da fase de ouro do rádio norte-americano dos anos 40. Decidi transcrever um pouco da pesquisa dele e ao texto acrescentei mais informações.

Lopomo cita Manoel de Nóbrega, pai do humorista Carlos Alberto de Nóbrega, do SBT, como um dos grandes destaques da Rádio Tupi entre 1940 e 1950. “Ele fazia sucesso ao lado de Aloísio Silva Araújo no programa ‘Cadeira de Barbeiro’, todos os dias às 12 horas, numa crônica de humor e política”, escreveu o ouvinte, ressaltando que anos depois, em outra emissora, a Nacional de São Paulo, Nóbrega acabaria eleito deputado estadual, porém sem o mesmo brilhantismo na vida pública. Enquanto foi parlamentar, Manoel de Nóbrega se afastou do rádio, deixando em seu lugar um jovem locutor que prometia ter grande futuro: Silvio Santos.

Nosso ouvinte ressalta que na Rádio Tupi, outro sucesso aos domingos pela manhã era o programa, “O Clube Papai Noel”, apresentado por Homero Silva, que teve na menina Sonia Maria Dorce, uma espécie de ‘garota prodígio’. Inteligente, meiga, perspicaz; tinha sempre uma boa resposta na ponta da língua. Depois o programa passou a ser apresentado na pioneira TV Tupi canal 3. Também foi a Rádio Tupi quem promoveu, um ano depois da estreia do “Repórter Esso”, em 3 de abril de 1942, o “Grande Jornal Falado Tupi”, com apresentação de Corifeu de Azevedo Marques, um expoente jornalista que levou aos microfones uma linguagem diferente para a leitura de notícias, dando a ele imenso prestígio, a ponto de recusar propostas de melhores salários em jornais impressos, cativado que estava pelo carinho dos ouvintes.

“A primeira emissora a irradiar em São Paulo, entretanto, foi a Rádio Educadora Paulista em 1923″, informa Mário Lopomo, acrescentando que a freqüência era a mesma hoje ocupada pela Rádio Gazeta AM. A Educadora surgiu em 1923 tendo entre as atrações o cantor Paraguaçu, cujo verdadeiro nome era Roque Ricciardi, muito mais apropriado a um cantor de nossos dias, mas naquele tempo havia preconceito sobre artistas brasileiros de descendência italiana. Outro nome famoso da Rádio Educadora Paulista foi o locutor esportivo Nicolau Tuma, o “speaker metralhadora”, primeiro a narrar futebol em pique de velocidade .

A Rádio Record surge em 1925 para se tornar em 1932, já sob o comando de Paulo Machado de Carvalho, a voz da Revolução Constitucionalista, apresentando as crônicas de Guilherme de Almeida de incentivo ao exército paulista e notícias exclusivas trazidas direto do “front”. Mais à frente a Rádio Record revelaria importantes nomes para o meio artístico como o apresentador Blota Júnior, o locutor Randal Juliano e a cantora Isaura Garcia, além do redator de programas Oswaldo Molles.

“Depois – conta Mário Lopomo – surgiu a Rádio Kosmos que se tornaria a Rádio América, organizadora de bailes de carnaval de completo êxito e ainda na mesma década de 1930, a Rádio Cruzeiro do Sul que em 1938 transmitiu para o Brasil os prélios do campeonato mundial disputado na França com a narração de Gagliano Neto e comentários de Ary Silva. Tempos depois a emissora passaria a se chamar Rádio Piratininga vindo a fechar suas portas pelo início dos anos 70”.
O ouvinte pesquisador informa que no auditório da Cruzeiro do Sul, com Ariovaldo Pires, o “Capitão Furtado” se apresentou o primeiro programa de calouros de São Paulo. Levantamos que, pelas ondas da Cruzeiro do Sul, se transmitiu ao vivo o maior show da carreira de Orlando Silva apresentado da sacada do prédio da emissora na Praça do Patriarca. Dali se formou uma multidão que ocupou toda a extensão do viaduto do Chá, a Praça Ramos e a aglomeração pela Barão de Itapetininga, Praça da República, Vieira de Carvalho, até o Largo do Arouche. Todos querendo ouvir o cantor. Era janeiro de 1940 e a cidade São Paulo possuía 900 mil habitantes. Como a estimativa de público foi de 150 mil pessoas, cerca de 15% da população compareceu ao show, algo surpreendente. Dessa apresentação de Orlando Silva, em São Paulo, surgiu o slogan criado por Oduvaldo Cozzi, “O Cantor das Multidões”.

Depois, já com a denominação para Rádio Piratininga, o deputado Cid Franco, manteve durante anos o “Programa dos Bairros” e o “Programa dos Livros”. Foi na Piratininga que um jovem locutor de Santa Rita do Passa Quatro ganhou notoriedade na capital paulista. Seu nome, Salomão Ésper. Mas o maior sucesso da Rádio Piratininga foi a versão paulista da série “Jerônimo, o justiceiro do sertão”, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Aqui, “Juvêncio, o herói do sertão”, que foi ao ar até metade dos anos 60, tendo como ator principal Vicente Lia, trabalhos técnicos de Antônio Silveira Leite e contra – regra, durante um período, de Geraldo Blota.

Outra emissora dessa fase de ouro foi a Rádio Cultura, da família Fontoura. Nela o violonista Antonio Rago mantinha um programa acompanhando vários cantores como Vicente Celestino, Araci de Almeida e muitos iniciantes como Adoniran Barbosa que começou ali, cantando e só depois virou ator ao se transferir para a Rádio Record. Outro importante nome surgido na Rádio Cultura foi Vital Fernandes da Silva, o Nhô Totico, apresentador da “Escolinha da Dona Olinda”, um humorista que interpretava sozinho vários personagens ao mesmo tempo.

A pesquisa de Mário Lopomo se encerra com ele contando que em 1937 surge a Rádio Bandeirantes na versão de emissora musical que chegou a ter mais de duas orquestras em sua programação lotando seu auditório. “Depois passa a ser chamada de a mais popular emissora paulista, por ter sido a primeira a dinamizar programas musicais em estúdio com disc-jockeis e toca-discos e de implantar o jornalismo com reportagens externas, além de ampliar a cobertura esportiva para vários horários da programação”.

Apesar das importantes informações do levantamento feito por Mário Lopomo, sabemos que esse é só um capítulo na história do rádio brasileiro onde virão e outros ainda serão escritos.

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