A difícil relação do futebol com as arbitragens

Geraldo Nunes

23 de junho de 2014 | 00h50

A arbitragem no futebol sempre gerou desconfianças ao favorecer essa ou aquela equipe e nos mundiais de futebol não é diferente. Ainda sobre os equívocos do árbitro japonês Yiuchi Nishimura, na partida de abertura da copa, ainda há pouvintes questionando a possibilidade de favorecimento para o Brasil, recorrendo até um suposto desinteresse de Camarões, favorecendo as coisas para o Brasil. Chegam a comparar ao que os argentinos fizeram em 1978. Tenho dito em resposta a esses ouvintes da madrugada que há diferenças entre erros de arbitragem e roubalheira, como aquela que aconteceu na partida Argentina x Peru na Copa do Mundo de 1978, onde o árbitro nem interferiu no resultado de 6 a 0 para a seleção da casa, porque o resultado já estava acertado ($) fora de campo, antes mesmo do início do jogo.  A tabela era diferente da que existe hoje e a Argentina precisava vencer com quatro gols de diferença para superar o Brasil no saldo de gols e se classificar para a final daquela copa. O escândalo ao que tudo indica foi engendrado pelo governo militar que comandava a Argentina, sem que a Federação Internacional de Futebol – Fifa, ao que tudo indica, tivesse participação.

O que aconteceu na partida do Brasil contra a Croácia pode ser atribuído a um equívoco de arbitragem e esse “Sr. Nisihimura”, é o mesmo que em 2 de julho de 2010 invalidou um gol legítimo de Robinho no jogo em que o Brasil foi derrotado pela Holanda por 2 a 1 nas quartas de final da Copa do Mundo na África do Sul. Se aquele tivesse sido validado o resultado de nossa seleção naquela copa poderia ter sido outro, mas isso ajuda a provar que equívocos desse árbitro aconteceram outras vezes em benefício de equipes diferentes. Assim se equivoca quem acusa o Brasil de querer se favorecer.

A história mostra que se o Brasil foi favorecido em algum momento por erros de arbitragem, em muitos outros foi enormemente prejudicado. Em 1938, na França, o Brasil enfrentou a Tchecoslováquia em Bordeaux, no jogo em que ficou conhecido como “Batalha Campal”.  A fraca arbitragem do húngaro Paul Von Hertzka fez com que os jogadores de ambos os lados abusassem das jogadas duras.  Resultado: 1x 1 após a prorrogação, com Machado e Zezé Procópio do Brasil e Riha da Tchecoslováquia expulsos.  O goleiro tcheco František Plánička deixou o campo com o braço quebrado  e o artilheiro tcheco Oldřich Nejedlý levou tantos pontapés que acompanhou seu companheiro de equipe a caminho do hospital.

Com o empate, foi realizada uma nova partida de desempate dois dias depois. As duas equipes levaram seus jogadores reservas. Para surpresa geral, esse jogo transcorreu em paz e calmaria. Deu Brasil, por 2-1, com gols de Leônidas da Silva e Roberto, com Kopecky marcando para os tchecos. Depois a Itália venceria o Brasil, 2 x 1 e o jornal “La Gazzetta dello Sport”, influenciado pela ideologia fascista, escreveu: “Saudamos o triunfo da inteligência branca italiana sobre a força bruta dos negros”. Pensar que hoje Mário Balotelli, negro nascido em Palermo, é o principal artilheiro do Milan e da seleção italiana.

A Copa de 1954 ficou marcada para o Brasil por causa da Batalha de Berna nas quartas de final.  Foi o jogo entre Brasil e Hungria, onde nossa seleção, mal saída do trauma da derrota de 1950, a maior tragédia da história brasileira desde 1500, encarou um esquadrão húngaro de super craques. Puskas era o melhor deles, mas contundido, não jogou.

Antes do início da partida o vestiário do Brasil foi invadido por dirigentes dispostos a estimular o time a um milagre com exortações patrióticas. O senador da República, João Lira Filho,  fez um discurso onde comparava os jogadores aos inconfidentes mineiros e desfilando com uma bandeira usada pela Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial,  obrigou os jogadores a beijar a bandeira. Segundo o testemunho do lateral Nilton Santos, o time entrou em campo com os nervos à flor da pele. No apito, o árbitro inglês Arthur Ellis. O que se viu depois, foi uma das partidas mais emocionantes, violentas e desvairadas da história do futebol. Com oito minutos do primeiro tempo a Hungria já vencia por 2 a 0. O Brasil descontou aos 17 minutos, em um pênalti bem cobrado por Djalma Santos. A partir daí o jogo foi pau a pau, com nosso ponteiro Julinho Botelho fazendo o diabo em campo. Não empatamos na primeira etapa por pouco. No segundo tempo, Nilton Santos e Humberto foram expulsos e os húngaros perderam Bozski. Em vantagem no número de jogadores, a Hungria venceu por 4×2 e mal o juiz Mr. Ellis apitava o final da peleja, tinha início a verdadeira batalha.  Puskas, grande nome da Hungria, que assistira ao prélio das arquibancadas, desceu ao gramado e atingiu Pinheiro com uma garrafa. O zagueiro canarinho resistiu à agressão e partiu para o revide, envolvendo os demais 22 jogadores em uma grande pancadaria. Conta-se que um policial imenso, pesando cerca de 130 quilos, foi correndo apartar a briga, tomou uma rasteira do radialista brasileiro Paulo Buarque e caiu estatelado no gramado, para delírio do público. A polícia entrou em cena e a batalha seguiu. Outra história contada sobre o acontecimento é que  técnico da seleção brasileira, Zezé Moreira, viu um gringo de terno correndo em direção ao vestiário do Brasil e não teve dúvida, enfiou o as chuteiras que Didi trocara durante o jogo e estavam em suas mãos, no rosto do cidadão. O agredido era o ministro do Esporte da Hungria, Gustavo Sebes. No setor reservado às estações de rádio, para a surpresa dos discretos suiços, o ex-árbitro brasileiro Mário Vianna, comentarista, urrava nos microfones impropérios contra o juiz inglês, Arthur Ellis, “Ladrão; safado; covarde”; entre outros impropérios  insistindo na tese de que houvera uma conspiração para favorecer a Hungria, um país então comunista.  Mário Vianna tentou invadir o vestiário do árbitro para, segundo suas palavras, aplicar-lhe um corretivo e desafiar os espiões de Moscou. No Brasil, a população acompanhou pelo rádio as acusações de Mário Vianna e indignados torcedores saíram pelas ruas em manifestação e em vez de protestar em frente da embaixada da Suíça, anfitriã daquela copa, depredaram a embaixada da Suécia. Depois desses acontecimentos, toda vez que um árbitro cometia algum erro, era chamado pelos comentaristas de “Mr. Ellis”.

Em 1958 fazendo campanha gloriosa nos gramados da Suécia, o Brasil chegava à semifinal da Copa do Mundo, batendo a França por 5 x 2 com três gols de Pelé nesse jogo. O placar, porém, não demonstra o que foi a realidade daquela partida. No documentário 1958 – O ano em que o mundo descobriu o Brasil, dirigido por José Carlos Asbeg, é mostrado um pênalti sofrido por Garrincha dentro da área. Ele é derrubado por um zagueiro francês, levanta-se e sofre nova falta do goleiro e o árbitro na cara do lance deixa o jogo seguir. Se houvesse um resultado adverso, o árbitro daquele jogo, Benjamin Griffiths, do País de Gales, seria um novo “Mr Ellis” para os brasileiros.

Na Copa de 1962, depois de ser caçado em campo pelo zagueiro chileno Eladio Rojas durante toda a partida, Garrincha não se aguentou e revidou uma entrada do rival, sendo expulso pelo árbitro peruano Artur Yamasaki Maldonado.  Até ali, o craque da seleção brasileira já tinha feito dois dos quatro gols na vitória sobre os donos da casa naquela semifinal de 1962, em 13 de junho.

Sem Pelé, desde o segundo jogo por causa de uma contusão na coxa, o atual campeão Brasil ficaria sem Garrincha para a grande decisão diante da Tchecoslováquia, cinco dias depois. Foi então que uma das mais conhecidas “cartolagens” do futebol canarinho aconteceu.

Sob a supervisão de Paulo Machado de Carvalho, a delegação brasileira no Chile, tinha que tirar de qualquer forma a expulsão de Garrincha da súmula oficial do jogo. Para isso, contou com a ajuda do representante brasileiro na arbitragem durante o Mundial, João Etzel Filho, para dar um “sumiço” no auxiliar uruguaio Esteban Marino.

As versões para esse caso são muitas, desde subornos de 5 a 15 mil dólares, até viagem urgente do árbitro para seu país natal. A verdade é que ele ficou “convencido” a não deixar Garrincha ficar de fora da final da Copa seria um absurdo. Chegou-se a dizer que até os tchecos, rivais na decisão, gostariam de ver o ‘anjo das pernas tortas’ dentro de campo no dia 18 de junho no Estádio Nacional de Santiago para o último jogo. Com a anuência da imprensa presente a Santiago, o vermelho de Garrincha não apareceu na súmula da arbitragem para o jogo Brasil 4 x 2 Chile, estando assim apto a disputar a final.

Esse fato parece surreal para os dias de hoje onde há tantas câmeras espalhadas pelo gramado. Seria possível ainda assim se modificar uma decisão, simplesmente sumindo com a súmula?  Expulso na semi, Garrincha contou com o ‘sumiço’ de um auxiliar de arbitragem e pedidos dos rivais para que ele jogasse a final de 62. “Eu sei que deram um sumiço no bandeirinha para ele não assinar a súmula e para nós, foi ótimo, porque a intranquilidade passou para o adversário que teriam de enfrentar o Garrincha dentro de campo”, disse o meia da seleção à época, Zagallo, em depoimento ao livro ‘Jogo Duro’, do jornalista Ernesto Rodrigues, sobre o então presidente da CBD, João Havelange.

Para os jornalistas que cobriram aquele mundial, Garrincha agiu em legítima defesa. “Por que o cara que cuspiu nele não foi expulso?” Questionou o jornalista Luís Mendes, acrescentado que, “eles queriam tirar nosso melhor jogador, que estava desequilibrando em favor do Brasil. Eu próprio apoiei e não vi nenhuma desonestidade nessa aprovação”, disse para o mesmo livro, o jornalista Luís Mendes (1924-2011).

No próximo texto,  a “caça” ao rei na Copa de 1966 e “Las Manos de Dios”, entre outros assuntos

 

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