Vamos comparar melhor?

Fábio Bonini

09 de janeiro de 2012 | 12h27

No final de 2011, o Brasil alcançou a sexta colocação no ranking da economia mundial segundo a Economist Intelligence Unit (EIU), empresa de consultoria e pesquisa ligada à revista The Economist. Traduzindo esta colocação: somos o país com o sexto maior Produto Interno Bruto (PIB) medido em dólares à taxa de câmbio corrente. Sem entrar no mérito das flutuações bruscas deste mesmo câmbio (que podem fazer as diferenças entre um PIB e outro oscilar incrivelmente), uno-me ao coro de brasileiros que comemorou esta conquista da nossa economia.

Ao receber a notícia de que somos uma economia mais poderosa que do “ultrapassado” Reino Unido, veio-me à cabeça o célebre discurso do “vamos fazer crescer o bolo para depois dividir”. Pois é, o bolo realmente cresceu. Mas não vejo nisso um motivo tão grande de orgulho. O próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, explicou o motivo da minha ressalva: vamos demorar de 10 a 20 anos para chegar à mesma qualidade de vida das populações dos países europeus. Os mesmos que estão “ficando para trás” no ranking.

O fato é que ter um PIB maior não significa por si só melhor qualidade de vida da população. Para isso, existe outra medida: o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Para se chegar a este índice são levados em conta alguns outros números (que não se medem apenas em dólares): expectativa de vida, educação, e o PIB per capita – a fatia do “bolo” que cabe a cada cidadão, um indicador fundamental no padrão de vida das pessoas que vivem em determinado país.  Antes de comemorar nossa 6ª posição na economia mundial, vale lembrar que segundo o próprio IBGE, cerca de 63% da nossa população recebe até 2 salários mínimos. Falta também cultura e educação.

Para voltar a falar de índices e rankings, cito alguns dos estabelecidos em 2010. Começo com uma boa notícia: o IDH do Brasil aumentou. Estava em 0,718 e, em 2010, subimos um degrau no ranking e terminamos o ano na 84ª posição. O Reino Unido, ao contrário, perdeu duas posições, com o IDH de 0,863 passou para a 24ª. Notem que são 60 os países que separam o nosso IDH dos pobres britânicos. Pobres? Parece que não.

Quando se fala em PIB per capita, a diferença entre o Reino Unido e o Brasil cresce ainda mais. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o PIB per capita por lá era de US$ 35.053,00 em 2010. No Brasil, US$ 11.289,00. A expectativa de vida no Reino Unido em 2010 era de 79,4 anos e no Brasil de 68,8 anos. Nesse ranking eles ocupam a 22ª posição e nós a 94ª. Já a taxa de alfabetização por lá chega aos 99% e aqui estava em 88,6%. Proponho a quem lê este texto um desafio: acompanhar pelo próximo ano (ou pelos próximos anos) atentamente estes indicadores sociais aqui no Brasil. A comparação com outros países não é o mais importante. Antes de comemorar um PIB maior que de outros países, seria bom termos um país melhor. Ou não?

 

Confissões de rodapé: Aprendi neste final de semana que o valor ideal da importância segurada do Seguro de vida – que todos deveriam ter – é o equivalente a 48 salários …

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