Uma onda de despreparo

Fábio Bonini

15 de abril de 2011 | 22h18

Os japoneses são acostumados a terremotos: mais de mil por ano são sentidos por quem mora no país. Eles recebem treinamentos e suas construções são adequadas aos abalos. Mas isso não foi suficiente para evitar danos a reatores nucleares, no terremoto de 11 de março de 2011, acompanhado por um tsunami. A radiação produzida pelo homem se somou ao desastre natural.

Com muito mais recursos naturais que o Japão, o Brasil tem como principal fonte energética as hidroelétricas. E temos usinas nucleares – Angra 1 e Angra 2, com uma terceira em construção. O que nos falta é o preparo dos japoneses para lidar com desastres naturais.

Depois que as usinas japonesas mostraram sua fragilidade, veio a preocupação com as usinas brasileiras. E uma constatação alarmante: no caso de Angra dos Reis não existe abrigo e nem rota de fuga. A rodovia BR – 101, conhecida como Rio-Santos, não oferece nenhuma condição para que a população seja evacuada em caso de acidente. Os possíveis abrigos como escolas, ginásios e o Colégio Naval de Angra dos Reis não possuem vedação contra radiação.

Mesmo se existissem abrigos e uma rota de fuga, a população não saberia como agir. Não há treinamento. Até existem, mas eles envolvem a população a cada dois anos apenas. E como não existe nenhuma lei que obrigue a participação, a convocação é feita de forma voluntária e a presença varia entre 300 e 600 pessoas. As usinas ficam em Angra dos Reis, uma cidade turística com 180 mil habitantes. Está distante 372km de São Paulo e 152km do Rio de Janeiro. Sendo otimista, um eventual acidente nuclear iria afetar 400 mil habitantes.

Uma Comissão temporária Externa do Senado foi criada para fiscalizar a situação das usinas nucleares brasileiras e visitou Angra. Constataram o que está escrito acima e ainda revelaram a falta de equipamentos e profissionais em número suficientes para atender a comunidade – que não vai ter como fugir nem onde se esconder. Dando seqüência ao despreparo frente um possível (sim, é possível) desastre, temos um depósito de lixo nuclear estocado em tonéis lacrados dentro de um galpão, a poucos metros dos prédios dos reatores.

Depois de Fukushima, (alguns) brasileiros voltaram sua atenção às usinas nucleares do país. O despreparo para uma situação de emergência não é surpresa, talvez nunca tenha sido. Mas a tragédia no Japão aponta para necessidades brasileiras. Um acompanhamento da situação das usinas, com apresentação de relatórios públicos, e a criação e implementação de um plano de ação em caso de acidentes nucleares são fundamentais. Talvez não enfrentemos terremotos ou tsunamis, mas precisamos enfrentar a nossa histórica falta de responsabilidade. Não?

Confissões de rodapé: Bateu vontade de largar o Brasil e voltar pra China. Pena que é longe.

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